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“Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Nós podemos tudo, nós podemos mais Vamos lá fazer o que será.”

Sementes do Amanhã. Gonzaguinha, 1984

Para encerra as comemorações do aniversário do Programa e da Revista Radis, sete figuras que se destacam na defesa da Saúde, da democracia e nos movimentos sociais foram convidadas para falar do que sonham ver acontecendo no Brasil, na saúde e no SUS no futuro e publicado na revista daqui a 10 anos. Ao se disponibilizar a ouvir e se aprofundar em narrativas que não fossem às dos repórteres, Radis buscou trazer perspectivas que complementassem o que já foi publicado, permitindo conhecer o desejo de novas pautas, assuntos e pessoas, na troca de conhecimentos.

São sete visões de um Brasil dando certo, com um sistema de saúde forte, ampla cobertura vacinal, erradicação de doenças preveníveis, valorização de trabalhadores da saúde, igualdade, solidariedade e resgate de ideais de democracia, que apareceram como um sonho possível para que mais portas sejam abertas e caminhos importantes sejam percorridos e ocupados.

O avião passa, uma névoa branca e fétida adentra as casas e o ar fica irrespirável. A neblina vai chegando, junto com coceira, náusea e dor de cabeça. Em poucos dias as hortas e roças amarelam, os frutos das agroflorestas caem, as flores secam e a população adoece. Esta não é uma cena de ficção e nem um filme sobre a guerra no Vietnã, quando os militares americanos despejaram milhões de litros de herbicidas sobre a selva onde se escondiam o povo vietnamita e sobre as plantações de arroz que os alimentavam.

O uso de agrotóxicos na agricultura é comum no mundo todo. Usados para evitar pragas em uma plantação, no Brasil atinge riscos alarmantes, não só pelo uso de substâncias já proibidas na Europa, como pela utilização inadequada, o que gera riscos à saúde das pessoas por intoxicações que podem levar à incapacidade e à morte, e hoje constitui um grande problema de saúde pública.

O modelo de produção agrícola praticado no Brasil pelos grandes produtores com precária regulação visa a exportação de produtos agrícolas cultivados em grandes propriedades monocultoras, com o fim de elevar os índices de produtividade a qualquer custo, o que é comemorado pelos governos por fazer superavit primário para pagamento da dívida externa, com seus juros extorsivos e nunca auditados.

O uso de agrotóxicos em território brasileiro se ampliou no governo que se encerra, quando somente em 2021 foram aprovados 499 novos pesticidas no país, um número recorde, alavancado pela atuação da agenda do agronegócio no Congresso brasileiro, que trabalha para se beneficiar de legislações ambientais fracas, além de desmantelar órgãos governamentais responsáveis pela proteção do meio ambiente.

Na outra ponta quilombolas, camponeses e populações tradicionais — que verdadeiramente alimentam com sua produção a população brasileira, e utilizam seus “saberes e modo de cultivar a terra que atravessam gerações”, como afirmou Fran Paula, educadora e quilombola, entrevistada nesta edição — contam com o apoio de entidades e organizações populares, para resistir ao crescente modelo do agronegócio, grande exportador de commodities.

O uso indiscriminado de pesticidas, aliado à produção de monocultura incentivado pela benesse de não pagar imposto de exportação da soja, além de trazer danos ao meio ambiente e destruir a biodiversidade, viola direitos das comunidades locais, cujo modo de vida ancestral é ligado à terra e por isso são importantes atores nos novos modos e estágios de produção no campo.

Todas as violências que acontecem no campo remetem ao reconhecimento da perda da cidadania e humanidade do outro, que acaba sendo vítima de toda sorte de violações indignas, porque é fácil desumanizar uma pessoa que não consegue se defender diante de um poder opressor.

Esta é a última revista editada em 2022, embora por problemas com os Correios os leitores possam recebê-la em 2023.

2022 foi um ano difícil, em que os brasileiros tiveram de lidar com as consequências da covid, inflação, a volta ao mapa da fome, queimadas e desmatamentos, as fakenews, as desumanizações dos mais carentes, das mulheres, dos negros, dos ditos “diferentes” e as ameaças à democracia. Mas a esperança “há de brilhar”, não uma esperança ingênua. Mas uma esperança na fé de construção de um novo caminho para sair do atual caos. E acima de tudo uma esperança generosa com as relações de amizades, com a família, o trabalho e os afazeres e com os que queiram se somar numa caminhada de reconstrução do que foi perdido nos últimos quatro anos, porque ainda dá tempo e o Brasil é muito maior do que o ódio alimentado nesses tempos.

Boa leitura e bom Novo Ano!

* Justa Helena Franco subcoordenadora do Programa Radis
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