A cidade parece silenciar a tragédia ocorrida há quase 40 anos e que se tornou o maior acidente radiológico em área urbana do mundo. Não há monumentos e memoriais, casas foram demolidas, o ferro-velho onde tudo começou não existe mais. Em um terreno abandonado, que um dia foi a casa de um dos catadores que desmontou a máquina de raio-X, apenas os muros falam, no desalinho das letras de um grafite: “Que Deus abençoe todas as vítimas do césio”.
Em contraponto a esse descuido com a memória, as histórias do que ocorreu em 1987 ainda são narradas por vítimas e familiares. Quase 40 anos depois do acidente com o césio-137, em Goiânia, as marcas continuam presentes na vida dos sobreviventes. Não dá para esquecer. Ao reivindicarem cuidado e direitos, as pessoas que tiveram suas vidas afetadas pela exposição à radiação mostram, com resiliência, que as consequências de um acidente socioambiental não são apenas clínicas, mas também envolvem sofrimento mental, estigmas e exclusão.
Com sensibilidade e disposição à escuta, o repórter Adriano De Lavor visitou a cidade para conversar com sobreviventes e profissionais de saúde que atuam no Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (Cara), responsável pela atenção e pelo monitoramento clínico e epidemiológico permanente das vítimas. Pelas lentes do fotógrafo Eduardo de Oliveira e nas histórias recuperadas pela reportagem, são reveladas as consequências da tragédia, que exigem uma resposta contínua da saúde pública e da assistência social em garantir que essas pessoas sejam acolhidas e cuidadas.
Não existe saúde sem condições adequadas de moradia. Essa constatação que rememora a noção ampliada de saúde presente no discurso do sanitarista Sergio Arouca, na 8ª Conferência Nacional de Saúde (CNS), em 1986, é um dado concreto para quem vive em favela: casas com infiltração, mofo e falta de ventilação, ausência de saneamento básico e restrições no exercício do direito à cidade transformam o lar, que deveria ser espaço de proteção, em um ambiente produtor de adoecimentos.
A favela não é o problema, e sim a maneira como as cidades produzem exclusão. Na reportagem de Lara Souza, arquitetura e saúde são colocadas em diálogo para mostrar como a falta de moradia digna está atrelada à precariedade na garantia de outros direitos, como mobilidade urbana, saneamento, usufruto de equipamentos públicos e áreas de convivência, como praças e jardins, e acesso a serviços de saúde e educação. Por que determinadas parcelas da população podem viver em condições insalubres?
Como destaca um dos entrevistados, Richarlls Martins, coordenador executivo do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro na Fiocruz, as condições de moradia são resultado da forma como as cidades brasileiras foram construídas. Enfrentar seus impactos sobre a saúde exige reconhecer que o direito à habitação digna, ao território e à cidade é também parte do direito à saúde.
Também não há saúde sem comunicação. Presente nas conferências nacionais, desde a 8ª, o tema finalmente ganhou o destaque merecido com a aprovação de uma resolução na 17ª CNS, em 2023, que propõe a estruturação de uma Política Nacional de Comunicação Pública do SUS. Foi um passo importante para fortalecer a concepção de que a comunicação é um direito indispensável para a garantia da democracia e dos demais direitos, como a saúde.
Fruto do amadurecimento do debate e da mobilização social em torno dessa agenda, inclusive com a consolidação de experiências exitosas na área, como a Política de Comunicação da Fiocruz, que completa 10 anos em 2026, a proposta ainda tem um longo percurso até se tornar realidade.
Como parte do nosso compromisso com a comunicação pública, Radis fomenta o debate na matéria assinada por Glauber Tiburtino, sem renunciar à perspectiva de que qualquer Política de Comunicação Pública, ainda mais no SUS, só faz sentido com participação social. É preciso resgatar os princípios que inspiram o maior sistema público de saúde do mundo, como universalidade, equidade e integralidade, para que eles também estejam vivos nas experiências de comunicação e na construção dessa iniciativa.
Como política de Estado e dimensão estruturante do direito à saúde e do SUS, é essencial entender que a comunicação não é apenas um instrumento ou uma área a serviço da divulgação institucional. “Comunicar o SUS” não passa somente por divulgar o que dá certo ou favorecer esta ou aquela política de governo. Uma Política de Comunicação de fato Pública para o SUS precisa fortalecer o próprio sistema como espaço sensível às demandas da sociedade e ser capaz de fomentar o diálogo com as diferentes vozes da sociedade.
■ Editor do Programa Radis Comunicação e Saúde




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