A

Menu

A

O fim dos manicômios é um capítulo inconcluso da história da saúde mental no Brasil. A interdição dos horrores vividos nos hospitais e colônias psiquiátricas mobilizou esforços de militantes, trabalhadores e trabalhadoras da saúde, usuários e seus familiares, em um movimento que deu vida a experiências inovadoras de cuidado em liberdade. Ainda assim, as práticas manicomiais encontraram formas de sobreviver, como ervas daninhas, com outros nomes e subterfúgios.

Uma das novas configurações manicomiais — talvez a mais emblemática no presente — são as ditas “comunidades terapêuticas” (CT), nome que disfarça o propósito de contenção e controle de seres humanos. Na fachada, elas têm a proposta de acolher pessoas que fazem uso problemático de álcool e drogas. Na realidade, são instituições asilares que reproduzem práticas de encarceramento, violência física e religiosa e exploração do trabalho como solução “terapêutica”, como revelam os relatórios de inspeção do Estado brasileiro, consultados para a reportagem de capa desta edição.

A metáfora utilizada por um dos entrevistados, Pedro Antunes da Costa, professor da Universidade de Brasília (UnB) e integrante da Campanha Nacional contra as CTs, ajuda a dimensionar o que as comunidades terapêuticas representam: elas são uma síntese de quatro instituições formadoras da sociedade brasileira — os manicômios, as prisões, as igrejas e as senzalas. 

No mês da luta antimanicomial, a reportagem assinada pelo editor de Radis, Luiz Felipe Stevanim, mostra como essas quatro faces se combinam para que, como sombras do passado, os horrores manicomiais se reinventem e se adaptem ao presente, afinados com a lógica neoliberal, medicalizadora, individualista, culpabilizante dos sujeitos e com viés religioso.

As práticas manicomiais encontraram formas de sobreviver, como ervas daninhas, com outros nomes e subterfúgios. Uma das novas configurações — talvez a mais emblemática no presente — são as ditas ‘comunidades terapêuticas’ (CT), nome que disfarça o propósito de contenção e controle de seres humanos

Depoimentos e falas que compõem a matéria retratam um cenário de violências e violações de direitos, confirmados pelos relatórios de inspeção. A história de Eduardo Real, um sobrevivente, nos permite adentrar os muros dessas instituições: foram 14 internações em 15 anos, nas quais ele foi submetido a situações de privação de liberdade, imposição religiosa, LGBTIfobia, castigos e espancamento, supostamente para “curá-lo” do “vício e da homossexualidade”. “O que me tirou das comunidades terapêuticas foi a militância e o cuidado em liberdade”, afirma o integrante do Movimento Nacional de Vítimas de Comunidades Terapêuticas (MNVCT).

Ouvir não apenas aqueles que se dedicam a estudar o tema, mas também as pessoas que vivenciaram a realidade, é parte do compromisso de Radis em acolher as vozes cidadãs. O protagonismo dos usuários é também princípio da Reforma Psiquiátrica; em 2026, celebra-se os 25 anos da Lei 10.216/2001, que estabeleceu os direitos das pessoas com transtornos mentais. Como destaca o pesquisador sênior da Fiocruz, Paulo Amarante, no Pós-tudo, a reforma começou muito antes da lei, pois foi gerada pelas lutas e experiências concretas.

Ainda assim, essas conquistas estão sob ameaça, em razão da estagnação e da falta de investimentos na Rede de Atenção Psicossocial (Raps), como apontam dados trazidos pela matéria. “Não se faz a luta contra os manicômios se não se constrói a rede de atenção e cuidado em liberdade”, ressalta Rosangela Cecim, da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (Renila). Esse capítulo em direção à liberdade plena, sem o assombro dos fantasmas manicomiais, ainda está sendo escrito.

Lembrar para resistir e reinventar. As raízes do SUS remontam à histórica 8ª Conferência Nacional de Saúde (CNS), em 1986, que completou 40 anos em 2026. A repórter Licia Oliveira ouviu depoimentos de participantes da 8ª e mostra que a mobilização começou muito antes do encontro. Um país que saía de uma ditadura, com a informação controlada por poucos, teve diante de si o desafio de organizar um evento democrático para redefinir os rumos da saúde.

Testemunha e partícipe desse processo, Radis revisita a 8ª CNS em um ano em que muito se falou sobre ela, mas com um olhar próprio: queremos lembrar que, sem participação social, as mudanças necessárias para a saúde não teriam acontecido. Esse foi o grande diferencial e é o legado vivo da 8ª, que deve continuar inspirando a defesa do SUS.

Outra matéria, da repórter Paula Passos, analisa a oferta de tratamentos fantasiosos e sem comprovação científica na internet. É um fenômeno contemporâneo que reforça uma visão mercadológica em detrimento do direito à saúde, como afirma a pesquisadora do Icict/Fiocruz, Pâmela Pinto.

“Novos manicômios”. O legado da 8ª. Promessas de terapia infundadas. O que esses temas têm em comum é a pertinência de se pensar a saúde como um direito coletivo que garante a dignidade e a vida das pessoas, entendendo o SUS como o mais perto que a gente já chegou de outra forma de sociedade, como afirma Pedro Costa na reportagem de capa. Uma sociedade em que as pessoas possam viver em liberdade e as singularidades sejam respeitadas.

Sem comentários
Comentários para: Comunidades terapêuticas e as sombras manicomiais

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anexar imagens - Apenas PNG, JPG, JPEG e GIF são suportados.

Leia também

  1. Editorial
Nesta edição, Radis trata do uso de psicodélicos na medicina. Um tema polêmico, que tem produzido muito ruído nos dias atuais, já que mexe com mudanças ideológicas e culturais da população. “Renascimento psicodélico”, propõe o neurocientista Sidarta Ribeiro, entrevistado pelo repórter Luiz Felipe Stevanim, quando avalia os benefícios dos chamados “psicodélicos” para a saúde. O […]
Próximo

Radis Digital

Leia, curta, favorite e compartilhe as matérias de Radis de onde você estiver
Cadastre-se

Revista Impressa

Área de novos cadastros e acesso aos assinantes da Revista Radis Impressa
Assine grátis