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A trajetória da cannabis medicinal no Brasil é marcada por um paradoxo persistente: de um lado, a ciência e a regulação dão passos largos rumo à legitimação terapêutica; do outro, o acesso real permanece como um privilégio de poucos. As histórias de Ana Paula e Adrianna, que abrem esta edição de Radis, ilustram com nitidez essa fronteira. Para elas, a cannabis não foi uma escolha ideológica, mas o último recurso contra dores crônicas e limitações severas impostas pela saúde. Encontraram alívio, mas esbarraram na economia.

O cenário regulatório brasileiro vive um momento de transição. A nova resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de janeiro, tenta corrigir os rumos de 2019 ao permitir um ambiente mais favorável ao cultivo nacional para fins farmacêuticos. É uma medida que ataca a raiz do problema: a dependência quase total da importação, que dolariza o tratamento e o torna proibitivo para a maioria da população — e o que deveria ser um direito vira um produto de luxo.

As estatísticas confirmam que o brasileiro quer e precisa dessa alternativa. O salto em 10 anos revela um represamento de demanda que agora transborda. No entanto, o crescimento da judicialização e a interrupção de tratamentos por falta de verba são sinais de que o sistema ainda falha. Como disse o neurocientista Sidarta Ribeiro em 2020, “uma regulação que veta ou dificulta o plantio acaba por favorecer grandes corporações em detrimento do bem-estar social”.

A ciência, embora cautelosa, aponta caminhos identificando benefícios do tratamento com cannabis. Mas é preciso que o “novo ambiente regulatório” saia do papel e chegue ao cotidiano das associações de pacientes e, fundamentalmente, ao Sistema Único de Saúde (SUS).


A trajetória da cannabis medicinal no Brasil é marcada por um paradoxo persistente: de um lado, a ciência e a regulação dão passos largos rumo à legitimação terapêutica; do outro, o acesso real permanece como um privilégio de poucos

Tratar a cannabis como uma questão estritamente de segurança pública ou de mercado é ignorar o seu potencial humanitário. O Brasil precisa decidir se continuará a importar soluções caras para poucos ou se terá a coragem de democratizar o acesso, permitindo que histórias como as de Ana e Adrianna tenham continuidade, e não uma interrupção forçada pelo extrato bancário.

A saúde da população negra no Brasil ainda é marcada por negligência estrutural, apesar da existência da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) desde 2009. Dados recentes mostram que sua implementação é desigual e limitada, com muitos gestores desconhecendo suas diretrizes e diversos municípios sem ações específicas.

Essa política é justificada pelas profundas desigualdades e em dados epidemiológicos: pessoas negras morrem mais cedo, mulheres negras enfrentam maior mortalidade materna, há maior incidência de doenças como hipertensão e anemia falciforme, além da violência atingir de forma desproporcional essa população.

Apesar de 17 anos decorridos desde a criação da PNSIPN, as principais barreiras persistem envolvendo o racismo institucional, a falta de recursos, a invisibilidade das demandas específicas e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Iniciativas como o Observatório de Saúde da População Negra buscam dar visibilidade aos dados, fortalecer o controle social, com base no princípio da equidade. Enfrentar essas desigualdades exige reconhecer o racismo como determinante social da saúde e garantir compromisso político e investimento efetivo para promover equidade e salvar vidas.

O debate sobre o aborto no Brasil é marcado por fortes tensões entre argumentos morais, religiosos, jurídicos e de saúde pública. Um dos discursos mais recorrentes na oposição ao aborto legal é a chamada “defesa da vida”, frequentemente liderada por instituições que se identificam com valores cristãos. No entanto, essa posição não é unânime dentro do próprio campo religioso. O movimento Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), por exemplo, propõe uma leitura alternativa, que também se fundamenta na fé, mas prioriza a dignidade, a autonomia e a vida das mulheres em sua totalidade.

Mesmo nos casos em que a legislação brasileira permite o aborto, o acesso a esse direito é frequentemente dificultado por barreiras institucionais, sociais e morais. Muitas mulheres, mesmo tendo respaldo legal, encontram resistência em serviços de saúde e acabam sendo forçadas a levar adiante uma gestação indesejada ou a recorrer a métodos clandestinos e inseguros. No Brasil, os dados evidenciam que a criminalização não impede a ocorrência, mas aumenta os riscos em decorrência de complicações. 

Discutir o aborto no Brasil exige ir além de posições simplificadas. Ele é um tema complexo, que envolve fé, direitos, saúde pública e justiça social. Reconhecer a pluralidade de vozes — inclusive dentro das próprias tradições religiosas — é essencial para construir um debate mais humano, informado e comprometido com a vida em todas as suas dimensões.

Boa leitura!

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