Agroecologia, manicômio judiciário, feminicídio, desigualdade, imperialismo americano, redução da pobreza, vacina contra a dengue, universidade do SUS, saúde da população negra e dos povos indígenas, voz do leitor, arte e saúde. Receber a arte-final da Radis para aprovar e escrever um editorial é ter, em primeira mão, a experiência que cada leitora e leitor terá ao ler e comentar as matérias que compõem a discursividade da revista, integrando temas tão diversos.
Radis busca oferecer elementos que proporcionem uma visão mais alargada e complexa de como os assuntos se entrelaçam e produzem novo sentido quando apropriados de forma conjunta pelos nossos interlocutores. Um sentido que é produzido com autonomia por cada leitor, de acordo com seus contextos, repertórios de conhecimento, formação e informação, experiências e vivências. Por outro lado, essa é uma revista que não oculta seus valores. Examinemos.
Ao estampar a agroecologia e os alimentos saudáveis como um pressuposto da saúde, Radis claramente faz um contraponto ao modelo hegemônico de agricultura no Brasil, baseado em latifúndio, monocultura, transgênicos, agrotóxicos, expulsão da população do campo, devastação ambiental, alimento visto como mercadoria. Isso fica evidente na escolha de título e intertítulos pelo repórter Adriano De Lavor em seu texto de cobertura do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, na Bahia: o agro que é vida, que é saudável, que é interlocução, que não é tóxico, que é convivência, que é inovação, que protege o planeta, que é justo.
Assim como a matéria de capa ouviu tanto os organizadores, pesquisadores e lideranças históricas quanto os agricultores que convivem e cultivam em interação com os diferentes biomas e territórios, a presença de muitas vozes e o relevo dado àquelas frequentemente invisibilizadas é recorrente nas reportagens da Radis. É o caso da matéria sobre a plataforma Universidade Aberta do SUS, em que a repórter Lara Souza entrevista uma figura central na criação da UNA-SUS e os profissionais que viram sua vida transformada pela educação permanente em saúde.
Não existe a propalada neutralidade nos meios de comunicação. Quem diz o contrário, tende a esconder os interesses que regem as suas linhas editoriais. Radis tem lado!
No texto sobre a recente onda de protestos contra o feminicídio, o raro é a presença da voz da repórter, quando Paula Passos narra sensibilizada ter conhecido pessoalmente uma mulher assassinada em caso de grande repercussão. Vale conferir também a beleza da expressão de artistas que produziram miniaturas de barro que mostram os profissionais do SUS em ação, imagens que ornam o calendário 2026 da Fiocruz Pernambuco.
O protagonismo na reportagem que constata a urgência pela desativação dos manicômios judiciários é de acadêmicos e profissionais de saúde mental. Eles descrevem e problematizam o quanto os chamados hospitais de custódia representam as piores das piores instituições, em que há trabalho forçado, comida estragada, falta de água potável, uso de contenção química, castigos, longos períodos de isolamento em solitárias, tortura, racismo e violência de gênero. A reportagem parte do Relatório de Inspeção Nacional, publicado pelo Conselho Nacional de Psicologia em 2025, e se aprofunda na coleta de depoimentos e análises no 7º Fórum de Direitos Humanos e Saúde Mental.
Nada como conhecer de perto os horrores das estruturas manicomiais, que vão dos hospitais psiquiátricos às comunidades terapêuticas, para aderir à luta antimanicomial e defender a Reforma Psiquiátrica. Embora trate de algo dramático, vale uma leitura completa desse texto cuidadoso, detalhista e muito tocante, que aborda alternativas baseadas na adoção de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS), encaminhamentos às residências terapêuticas e inclusão na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do SUS.
A leitura e reflexão sobre todos esses assuntos entrelaçados numa revista impressa é uma experiência rara nos tempos atuais, por não serem matérias avulsas e compartimentadas, como é próprio da circulação de conteúdos na internet, ou fragmentadas, como nas redes sociais.
Cada editorial representa um compromisso com leitoras e leitores, o de sermos transparentes. Não existe a propalada neutralidade nos meios de comunicação. Quem diz o contrário, tende a esconder os interesses que regem as suas linhas editoriais. Radis tem lado!
Defendemos democracia participativa, direitos humanos, o SUS. Combatemos a desigualdade social, a exploração da classe trabalhadora, a precarização das condições de vida, o racismo, a misoginia. Dentro de nossas possibilidades, procuramos evidenciar e discutir visões de mundo, as implicações das políticas públicas e da ausência delas, os processos econômicos e socioambientais de determinação da saúde. Quando é pertinente, assumimos e explicitamos posições firmes em consonância com os princípios, os valores e o interesse público presentes em nossa linha editorial.
E você, leitora e leitor, como você lê e vê a Radis?



Sem comentários