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Saio da faculdade na década 1980, como médico, no momento da revolução tecnológica eletroeletrônica na medicina e do consequente impacto desses insumos diagnósticos e terapêuticos nos seus resultados e eficácia. Acompanhamos a explosão do uso demasiado dessa tecnologia, tão característica da curva de novidades que a ótica de mercado estimula ao consumo. Além do encanto que a técnica fetichizada traz em si, o modelo de remuneração por procedimento (fee-for-service) alavancou o overuse [sobrecarga], e o resultado foi um marcante aumento do custo para o sistema de financiamento, seja público ou privado, e o não menos importante aumento dos danos causados pelo poder dessa tecnologia. De alguma forma, confirmaram-se as previsões de Illich [pensador austríaco] sobre a iatrogenia da medicina industrializada; porém, mais acertadamente pelo ponto de vista da crítica que lhe fez Foucault [filósofo francês] — o problema desta medicina não está em sua ineficácia, mas no seu poderoso e eficaz saber.

Assim, serão esses os principais fatores a justificar a criação de técnicas regulatórias de managed care [gerenciamento em saúde] e a parametrização das condutas pela Medicina Baseada em Evidência (MBE) na última década do século. Nos anos seguintes, o discurso gerencialista do controle corporativo sob a decisão médica utilizará a fundamentação da MBE para dar estofo ético ao managed de ajuste dos gastos, com aumento da produtividade e lucratividade. O modus do capital financeiro passa a dominar as duas pontas do complexo médico-industrial — a produção e a venda de insumos, e a securitização da assistência e financiamento do consumo. É preciso equilíbrio fino no controle desse fluxo, para se manter a crescente extração dos excedentes.

A dinâmica de incorporação da gestão corporativa avança na plena cooptação da MBE pelo managed care, com a Medicina Baseada em Valor (MBV), que foca o valor como métrica final para avaliação e comparação de resultado por dólar gasto. É a receita de Michael Porter [estrategista de negócios] e as consultorias de Boston para o mercado de saúde, atrelando definitivamente como meta terapêutica o sucesso clínico-financeiro. Esta inaugura a segunda década deste século com dois pontos fundamentais: a remuneração por esse modelo de desempenho — fee-for-value — e a necessidade de uma robusta estrutura para o acompanhamento e tratamento da crescente complexidade dos dados gerados em todo o sistema de assistência.

Ora, o modelo do capitalismo financeiro chega à área da saúde com o avanço da desregulação neoliberal, justamente acompanhando o alvorecer da era da informação — a quarta revolução industrial. Estamos agora lidando com extração, processamento, fluxo e armazenamento de dados. Tudo agora pode — ou terá — de ser lido, traduzido ou reduzido ao dado. Enfim, não há mais espaço para a metafísica no pensamento e na prática médica.

No batismo dessa nova medicina, Eric Topol — mestre de gerações de cardiologistas no final do século passado — em seu livro A destruição criativa da Medicina (2012), propõe uma total transformação — de inspiração schumpeteriana — das técnicas médicas com o seguinte vaticínio: “A medicina está prestes a passar por seu maior abalo na história […] pela primeira vez, podemos digitalizar humanos”.

Chegamos assim a uma humanidade encarnada na tecnologia de informação, que ao mesmo tempo em que amplia seu espaço de coletividade para uma universalidade no tempo contínuo da infosfera, reduz a sua individualidade e subjetividade aos limites verificáveis do dado. É esse modelo de prática médica que nos aproxima da mesma leitura de dados feita por chatbots e outras formas robóticas de atendimento a partir de algoritmos de machine learn [aprendizado de máquina].

Assim, torna-se imprescindível estender esta reflexão além do que acontece à medicina ou na atenção à saúde. O novo mundo que se desenha a partir de agora, no prisma da tecnologia da informação, em ‘sociedades de informação’, anuncia o novo ‘colonialismo de dados’ — extração, processamento e capitalização dos sujeitos. E a chegada da Inteligência Artificial (IA) ao mundo do trabalho já se anuncia tão impactante como a da revolução industrial, estendida agora aos serviços e às relações sociais.

As tecnologias de IA se apresentam com a promessa de um novo ‘e-luminismo’, desenhando um futuro promissor e libertário, ancorado no poder de machine-learn. Mas o controle massivo da informação não mais pertence aos Estados, e sim a poucos conglomerados de grandes corporações que dominam as plataformas; o que torna duvidoso que possa ser colocado a serviço de uma política progressista e emancipatória. Assim, uma nova linha divisória — “abissal?” — pode estar se estabelecendo na realidade social.

* Doutor em Bioética e Saúde Coletiva da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e professor visitante da Universidade de Coimbra (Portugal)
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