Repensar, reconstruir e avançar. O tema que mobilizou cerca de 7.500 pessoas em torno da 26ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2026), que aconteceu no Rio de Janeiro, entre 27 e 31 de julho, resume os desafios apresentados durante o evento, que pela primeira vez aconteceu na América do Sul. Os recentes anúncios de redução de financiamento global — e por consequência dos cortes nos serviços comunitários e de prevenção ao HIV — acenderam o alerta para o alto risco de recrudescimento da epidemia de aids no mundo.

Ao mesmo tempo, a reivindicação por equidade no acesso às novas tecnologias médicas pautou debates e protestos. Em contradição aos mais recentes (e promissores) números divulgados sobre a doença no mundo, que demonstram queda de 42% em novas infecções pelo HIV e diminuição de 57% nas mortes relacionadas à aids [Confira aqui o resumo dos números do relatório “Unidas e Unidos para acabar com a aids”, lançado durante a conferência], o que preocupa os especialistas, em nível global, é a desigualdade no acesso às novas tecnologias de prevenção — que hoje oferecem níveis de proteção contra o HIV semelhantes aos de uma vacina — e aos avanços no tratamento, especialmente em países de baixa e média renda. 

“Os avanços científicos estão nos dando ferramentas com as quais as gerações anteriores só podiam sonhar”, declarou no primeiro dia de trabalho Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids, programa conjunto das Nações Unidas de resposta global à epidemia de HIV/aids. Ela reforçou que o acesso às tecnologias, no entanto, ainda é desigual, o que compromete a efetividade dos esforços da ciência. As contradições ficaram aparentes, também no evento.

Avanços para poucos

Na mesma conferência em que se afirmou a efetividade do lenacapavir como injeção capaz de aproximar do zero novas infecções pelo HIV com apenas duas aplicações por ano — substituindo o comprimido diário já conhecido como PrEP [Profilaxia Pré-Exposição] — ativistas ocupavam o estande do laboratório fabricante Gilead em protesto contra a exclusão do Brasil e de demais países da América Latina dos acordos de licenciamento voluntário, que permitem a produção e a venda de versões genéricas do medicamento em 120 países. “Vergonha, Gilead, vergonha”, repetiam em diferentes línguas.

Para além da disparidade de preços, soma-se à indignação o fato de que o remédio não estará disponível em muitos dos países em que foi testado, como Brasil, México, Argentina, Peru e Colômbia. No Brasil, as negociações para a incorporação do lenacapavir à rotina do SUS seguem em impasse. Durante a Aids 2026, o ministro Alexandre Padilha explicou que o país se recusa a pagar preços “estratosféricos” e informou que o Ministério da Saúde ofereceu pagar US$ 400 por paciente ao ano pelo medicamento (até dez vezes mais que Indonésia, Tailândia e África do Sul, por exemplo), mas a farmacêutica Gilead não aceitou.

“Inovação sem acesso não é inovação; é injustiça”, declarou o ministro, reforçando uma frase que foi bastante repetida durante o evento, inclusive pela diretora do Unaids. Para além da inequidade de acesso aos serviços e tratamentos de saúde, Winnie alertou para os crescentes ataques aos direitos humanos e civis, que comprometem ações de prevenção e tratamento em diferentes países do mundo. Ao citar o relatório lançado na Aids 2026, ela enfatizou que globalmente 8,9 milhões de pessoas com HIV ainda vivem sem tratamento, sendo 46% delas crianças. “Não são apenas números, são vidas humanas”, disse.

Brasil: lições e desafios

Presidente da Sociedade Internacional de Aids (IAS) e da Aids 2026, Beatriz Grinsztejn não deixou de celebrar, na cerimônia de abertura, o fato de a conferência acontecer no Brasil, país que vem demonstrando como “boas decisões, ciência e políticas públicas” podem contribuir para enfrentar as desigualdades de acesso às tecnologias de saúde. Chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica em HIV/Aids e IST do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), da Fiocruz, a pesquisadora enfatizou o papel importante que exerce o país na resposta contra a aids.

“O Brasil sediar esta conferência é uma mensagem em si”, disse. Diante de “crises convergentes” que abalam o enfrentamento ao HIV (mudanças geopolíticas, cortes repentinos de financiamento e crescente hostilidade às comunidades mais afetadas), ela defendeu que “este é o lugar certo para termos as conversas que a pandemia de HIV exige sobre poder e recursos”.

As lições do Brasil também inspiraram a fala da então secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde, Mariângela Simão, que destacou o pioneirismo do país na garantia de tratamento gratuito e a importância do SUS na oferta de prevenção e cuidado às pessoas que vivem com HIV. Em entrevista à Radis [leia clicando aqui], ela destacou o fato de o país oferecer assistência com recursos domésticos e valorizou a inclusão da participação social na resposta nacional à aids.

Já Beatriz não deixou de apontar, no entanto, as dificuldades que afetam uma resposta efetiva ao HIV. Os cortes de 25% no financiamento internacional, entre 2024 e 2025, afirmou, não somente trazem prejuízo à saúde dos mais vulneráveis, mas também sinalizam para o sentido de urgência que o momento exige — e que pautou as conversas que se seguiram durante o evento. 

Mesmo diante de um cenário marcado por desigualdades e urgências, o ministro da Saúde anunciou a compra do cabotegravir, PrEP também injetável de uso bimestral. O uso no SUS ainda não foi aprovado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Padilha divulgou ainda o acordo firmado entre a Fiocruz e o laboratório MSD para acompanhar o desenvolvimento do alimatravir. Também conhecido pelo código MK-8527, o medicamento é um candidato inovador para PrEP oral de longa duração, desenvolvido para ser administrado em um único comprimido tomado apenas uma vez por mês. Em fase de testes, ainda não foi aprovado por nenhuma autoridade regulatória para uso comercial.

Sobre o cabotegravir, a Conitec abriu consulta pública no mês de agosto para avaliar a integração do medicamento como opção de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) no SUS (vamos aguardar o resultado). A consulta é uma das etapas que antecedem a recomendação final da comissão, que já emitiu parecer favorável ao remédio. A sua aprovação marca, para especialistas, uma mudança importante na estratégia de prevenção ao HIV, já que amplia as possibilidades de escolha do usuário. Hoje, a principal modalidade de PrEP disponível no SUS é a oferta de um comprimido diário. 

Epidemia não acabou

Apesar dos avanços apresentados, o tom geral das discussões era de preocupação e de precaução. “A epidemia não acabou”, reforçou a diretora do Unaids, esclarecendo que 1,2 milhão de pessoas ainda vivem com HIV no mundo e que pelo menos 570 mil morreram de doenças relacionadas à aids. Ela registrou ainda que a cada dia são registradas 340 novas infecções pelo HIV e pelo menos mil mortes decorrentes da aids, e que a razão de tudo isso não se resume à falta de dinheiro: “Há recursos no mundo. Não é mais a questão se a gente pode acabar com a aids, mas sim se a gente escolhe acabar com a aids”.

A opinião de Winnie é convergente com o que pensam ativistas brasileiros ouvidos pela Radis [leia clicando aqui]. “A gente sabe que existem recursos. A discussão é como os recursos existentes estão sendo alocados, em que a gente está gastando. A gente está escolhendo a crise ao invés do cuidado”, comentou Juliana César, coordenadora da ONG Gestos, de Pernambuco. “A falta de fundos não é um problema de falta de dinheiro, é um problema político”, declarou Veriano Terto, vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia).

Os protestos não se limitaram à diminuição dos recursos para as ações de resposta ao HIV/aids. Durante os quatro dias de evento, pessoas vivendo com HIV reivindicaram melhores condições de vida, em especial para aqueles que estão envelhecendo com o vírus. Estimativas apontam que, até 2040, a maioria delas estará com mais de 50 anos. O maior desafio, hoje, advertem os ativistas, é garantir seu envelhecimento saudável e autônomo. 

As preocupações aumentam diante de evidências apresentadas durante a conferência que associam fatores sociais, como o racismo e a menor escolaridade, a um maior declínio cognitivo em indivíduos que envelhecem com HIV, como registrou o médico e sanitarista Carué Contreras, na Agência de Notícias da Aids (1º/8). Em contrapartida, alguns avanços foram divulgados no evento, como mais dois casos de remissão prolongada do HIV — elevando para 13 o número de casos no mundo em que pessoas controlam o vírus no organismo sem o uso de antirretrovirais. 

Apesar de este e outros estudos apontarem avanços promissores no tratamento da aids nas próximas décadas,  ativistas nos corredores da conferência cobraram maior investimento na cura do HIV. Uma faixa com os dizeres “Latin America wants cure now” (“A América Latina quer cura Já”) tornou-se um dos símbolos políticos da Aids 2026. 

Ao fim da conferência — que contabilizou mais de 150 sessões, 2.400 posters e 220 atividades na Vila Global, além de inúmeras conversas, e novas redes e parcerias — a Aids 2026 divulgou uma série de conclusões que sinalizam que “a era da dependência da ajuda internacional acabou” e orientam países a estudarem novos modelos de financiamento. O documento recomenda ainda a importância do cuidado integrado e da efetividade das iniciativas lideradas pelas comunidades, alertando para a atenção que se deve dar às crianças, cujas necessidades de saúde têm sido negligenciadas. [Confira o resumo das principais recomendações clicando aqui].

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