Um bloco tocando frevo invadia todos os espaços da Aids 2026, a 26ª Conferência Internacional sobre Aids. Na frente dos músicos, um estandarte estampava a frase em português e inglês: “Onde está o dinheiro para a aids?” — uma das perguntas mais repetidas durante o encontro. A indagação acabou se tornando a tônica do evento; afinal, o que é o avanço tecnológico e científico sem o acesso da população?
Winnie Byanyima, diretora executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Unaids) e subsecretária-Geral das Nações Unidas, afirmou, durante coletiva de imprensa, que o relatório especial da organização conta duas histórias. A primeira é de um progresso científico extraordinário, que deixa todos animados. Já a segunda é um alerta: cortes de financiamento, aumento da desigualdade e ataques aos direitos humanos que colocam décadas de progresso em risco.
Durante toda a conferência foi mencionado que a combinação desses três fatores de alerta pode levar a um ressurgimento da pandemia como vista anos atrás. Embora as novas infecções por HIV e as mortes relacionadas à aids estejam nos níveis mais baixos dos últimos 30 anos, a resposta atual à aids está fragilizada.
Winnie cita que “progresso não é o mesmo que vitória”. Ela explica que a crise do financiamento não é uma ameaça futura: “Estamos vivendo agora”. Novas infecções aumentaram em três das cinco regiões do mundo e em 21 países. Todos os dias, cerca de 3.400 pessoas contraem o HIV em todo o mundo e em torno de 1.600 pessoas morrem em decorrência de doenças relacionadas à aids. “A pandemia do HIV não acabou”, relata Winnie.

Crise sem precedentes
Pela primeira vez, estudos começam a demonstrar com evidências os efeitos da crise de financiamento na resposta ao HIV/aids. Elise Lenkiewicz, pesquisadora sênior de Políticas da Fundação para Pesquisa da Aids (amfAR — da sigla em inglês), apresentou seu estudo na conferência, demonstrando que os resultados são preocupantes.
Um dos exemplos é o Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da Aids (Pepfar), considerado o maior programa global de resposta ao HIV já criado, que salvou mais de 26 milhões de vidas desde 2003 e mudou a trajetória da pandemia. A iniciativa sofreu grandes interrupções a partir do segundo mandato do presidente Trump. Em 2025, houve um corte de 30% do financiamento, que antes era de US$ 4,7 milhões, com o anúncio de encerrar permanentemente o Plano no início de 2027.
O Pepfar financiou programas de prevenção, diagnóstico e tratamento em dezenas de países, sobretudo na África. A pesquisa Pepfar Pulse Study, de Elise, ouviu 166 parceiros executores em 46 países e documentou a dimensão das mudanças nas políticas e no financiamento estadunidense.
Mais da metade (52%) das organizações participantes na pesquisa informou ter perdido pelo menos um contrato de financiamento. Com isso, 1.714 unidades de atendimento deixaram de funcionar, entre elas 1.010 serviços públicos de saúde, 325 pontos de acesso aos serviços e 126 centros de acolhimento às populações em situação de maior vulnerabilidade.
Entre as organizações responsáveis pela oferta de tratamento, 21% interromperam definitivamente pelo menos uma das atividades clínicas voltadas ao cuidado de pessoas vivendo com HIV. Organizações relataram falta de preservativos (23%) e de insumos laboratoriais (23%). Outros 22% dos parceiros informaram dificuldades para obter medicamentos destinados à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), enquanto 20% registraram problemas no acesso aos medicamentos antirretrovirais.
Outro grande impacto foi a redução da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (ODA), que inclui recursos financeiros e técnicos cedidos por países desenvolvidos e agências multilaterais. A diminuição dos recursos foi de 23% em 2025, a maior queda anual já registrada, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Japão e França, juntos, foram responsáveis por 95,7% da queda global na ajuda internacional. Foi a primeira vez que os cinco maiores doadores mundiais reduziram simultaneamente a assistência no mesmo ano. A redução da contribuição dos Estados Unidos foi de 56,9%.
Países que dependem da ODA para quase 60% das suas respostas ao HIV já estão cortando serviços, relatou a diretora executiva do Unaids, durante a conferência. O financiamento internacional caiu mais de US$ 1,5 bilhão, passando de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, o menor nível registrado em quase duas décadas.
Winnie declarou que organizações comunitárias já estão fechando; programas de prevenção estão diminuindo; e profissionais de saúde, perdendo seus empregos. “As pessoas estão perdendo o acesso aos cuidados de saúde. Quando a prevenção desaparece, as infecções aumentam. Quando o tratamento é interrompido, as pessoas morrem”, afirmou.
A diretora do Unaids também disse que está na hora do mundo corrigir urgentemente o sistema financeiro que não é mais funcional. Países de baixa renda, com altas dívidas e elevada incidência da epidemia, dependem de ajuda externa para uma resposta eficaz à aids. Muitos desses países precisam de financiamento externo para mais de 90% das ações relacionadas à epidemia, segundo o Unaids.
“A era de depender da ajuda internacional acabou”, disse Winnie. Ela recomendou que os países acelerem a reestruturação das dívidas para que os governos possam investir na saúde, educação e no futuro de suas populações.
“Os direitos humanos são a resposta ao HIV”
Winnie Byanyima

“Os direitos humanos são a resposta ao HIV”
Winnie também afirmou que os cortes são resultado de escolhas políticas, sobretudo em um contexto de recentes ataques dos governos “conservadores” aos direitos humanos, como nos Estados Unidos. A representante da ONU ressaltou que a garantia de direitos, incluindo a atuação de movimentos sociais e organizações, é a verdadeira resposta ao HIV. “Os direitos humanos salvam vidas”, pontuou.
O relatório do Unaids documenta que, em todo o mundo, os direitos humanos estão retrocedendo. Atualmente, 66 países criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo; 168, aspectos do trabalho sexual; 152, o uso de drogas; 14, pessoas transgênero. Além disso, em 50 países é exigido o consentimento dos pais para que adolescentes tenham acesso a serviços relacionados ao HIV.
Dados do estudo Pepfar Pulse Study mostram que, nos casos em que o financiamento do programa parceiro não foi afetado, 77% das instituições relataram ter sido obrigadas a cumprir novas restrições da política dos Estados Unidos como condição para continuar recebendo financiamento.
“Os parceiros descreveram o mesmo conjunto de exigências: programas limitados às chamadas atividades de salvamento de vidas [“life-saving activities”], restrições relacionadas à diversidade, equidade e inclusão (DEI) e às questões de gênero, além da exigência de interromper ou reduzir serviços destinados às populações mais vulneráveis ao HIV”, descreveu Elise em coletiva de imprensa da conferência.
Segundo o estudo, essas condições alteraram os programas mesmo nos casos em que o financiamento não foi afetado. Entre as organizações que não tiveram nenhum corte completo, os serviços mais frequentemente interrompidos foram justamente aqueles voltados às populações mais vulneráveis — as chamadas populações-chave —, citados por 64% delas.
“Repensar, Reconstruir, Avançar” — tema da Aids 2026 — se faz cada vez mais importante nesse contexto, como uma reflexão sobre os caminhos para a resposta global. Apesar da redução do financiamento, o relatório do Unaids aponta que o progresso é possível.
Sete países alcançaram uma redução de quase 80% nas novas infecções desde 2010; e 11 atingiram as metas de tratamento “95-95-95”, que são objetivos estabelecidos pelo Unaids para ampliar a resposta global ao HIV, para que: 95% das pessoas que vivem com HIV conheçam seu diagnóstico; 95% estejam em tratamento antirretroviral; e 95% em tratamento com carga viral suprimida.
A diretora do Unaids informou que, há poucas semanas da conferência, 149 Estados-membros adotaram uma nova declaração política das Nações Unidas sobre o HIV e a aids, com relação ao compromisso de acabar com a aids como uma ameaça à saúde pública até 2030 no mundo todo. Se implementada a declaração, a Agência da ONU para Refugiados (Acnur) estima que esses compromissos poderiam prevenir 3,2 milhões de novas infecções e evitar 1,3 milhão de mortes.

Brasil como anfitrião
Um dos pontos mais importantes da Aids 2026 foi que, além de reunir avanços científicos, também houve a participação ativa da sociedade civil nas discussões. A maior demanda dos países é o financiamento para políticas de prevenção e tratamento e o investimento em estudos sobre a cura do HIV, de acordo com o que foi observado nos debates e mobilizações políticas.
Juliana César, coordenadora da ONG Gestos, de Pernambuco, conversou com Radis sobre o que ela chama de crise do conservadorismo — impulsionada pela polarização política e ascensão de instituições tradicionalmente ligadas à extrema direita, que colocam em xeque questões como direitos das mulheres, da população LGBTQIA+, entre outras —, tanto no Brasil, como internacionalmente. “Um aporte de recursos abissal deixou do dia para a noite vários países sem financiamento efetivo para garantir sua resposta ao HIV”, afirma sobre os cortes orçamentários promovidos pelo governo Trump.
A ativista conta que foram gastos quase 3 trilhões de dólares mundialmente, só em 2025, com militarização — marcando o 11º ano consecutivo de alta, segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri). “A gente sabe que existem recursos. A discussão é em que estamos gastando”, comenta Juliana. “Por exemplo, apenas três dias desses recursos garantiriam uma resposta global ao HIV”.
Veriano Terto, diretor vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), também conta que a prioridade dos governos tem sido destinar dinheiro para questões militares, como guerras. “São fenômenos políticos que precisamos enfrentar, com políticas públicas, mobilização e participação”, explica.
Quando questionado por Radis sobre a saída para esse paradoxo, Veriano afirma que a situação precisa ser enfrentada com a atuação de movimentos sociais fortes, autônomos e sem conflitos de interesse, que possam pressionar para que as inovações sejam acessíveis a todos aqueles que precisam, assim como trazer novos fundos para a resposta ao HIV. Ele afirma que esse o papel dos movimentos sociais é pressionar.
As comunidades que realizam o trabalho diário com as pessoas que vivem com o HIV também precisam de fortalecimento. É o que diz Katy Kydd Wright, diretora da Rede de Defensores do Fundo Global (GFAN), em conversa com Radis. Ela aponta que o caminho para a resposta ao HIV/aids precisa passar pelo apoio aos movimentos e sistemas comunitários. “A resiliência não se desenvolve por um longo período sem financiamento”, diz.
A conferência aconteceu no Brasil em um momento político mundial importante no que diz respeito ao financiamento de programas e pesquisas, segundo Alberto Pereira Jr., jornalista presente no encontro. Ele avalia que exercemos um papel central na discussão ao ser o anfitrião do evento. “Um país que tem tratamento universal e gratuito pelo SUS e mostra que o Sul global também tem a chave para transformar”, argumenta.
Alberto participou da abertura da Aids 2026 com uma fala sobre como os avanços da ciência só serão suficientes quando vierem acompanhados de acolhimento, informação e do fim do preconceito contra as pessoas vivendo com HIV. Ele foi um dos comunicadores e criadores de conteúdo convidados a participar do evento e a divulgar as discussões para além da mídia tradicional. Foi a primeira vez que esse tipo de iniciativa ocorreu no encontro.
Outra reivindicação dos movimentos sociais foi o desfinanciamento para pesquisas clínicas destinadas à cura da aids e ao desenvolvimento de vacinas, um dos impactos mais sentidos no Brasil com a crise internacional. “A cura é um sonho e nunca vamos deixar de sonhar. Que haja investimento público, pesquisas que realmente venham ao encontro das pessoas que vivem com HIV. Não queremos só a eliminação da aids, queremos a eliminação do HIV”, afirmou Fabiana Oliveira, do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP) [Leia reportagem sobre as mulheres que vivem com HIV na Radis 287].
Vozes da Vila Global

“Os Estados Unidos têm medicamentos. O problema é o conhecimento sobre esses medicamentos e o acesso a eles. São muito caros. Eles se importam mais com o dinheiro do que com o povo do país”
Zachary Willmore (EUA)

“Estamos avançando na prevenção. Você recebe aconselhamento antes de fazer o teste e, depois que os resultados estiverem prontos, recebe aconselhamento novamente. Incentivamos as pessoas a se manterem seguras”
Randie Joseph (Antígua)

“Uganda é um país afetado pelo HIV e pela aids, mas estamos muito felizes por haver apoio de diferentes entidades para ajudar as pessoas que vivem com HIV, para também criar conscientização e prevenção. É animador ter estudos com a oportunidade de as pessoas tomarem pelo menos um comprimido por mês em caso de exposição”
Patricia Humura (Uganda)

“Embora tenhamos alcançado muito ao longo dos anos, ainda estamos tentando superar obstáculos. Estou muito interessada em como a tecnologia pode ajudar a atingir alguns desses objetivos finais no combate ao HIV e garantir acesso a cuidados de alta qualidade”
Sanya Chawla (Nigéria)

“Estamos sendo muito afetados por essa guerra. Estamos conseguindo controlar uma epidemia, mas é um grande desafio. Nosso depósito que continha suprimentos de prevenção como seringas e preservativos para o próximo ano foi destruído por foguetes”
Tetiana Deshko (Ucrânia)

“No Nepal, o governo não tem reforçado a mesma responsabilidade que o governo brasileiro. Os preservativos não são distribuídos para fins de prevenção do HIV para as mulheres”
Rajeshwari Prajapati (Nepal)



