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Um dos autores contemporâneos mais conhecidos dos estudos sobre pós-colonialidade, Boaventura de Souza Santos propõe metaforicamente a existência de uma “linha abissal” que divide o que é socialmente visível daquilo que não é. Para o autor português, tudo que é produzido “do outro lado da linha” torna-se inexistente, irrelevante ou incompreensível, já que “permanece exterior ao universo que a própria concepção de inclusão considera como o ‘outro’”.

É possível pensar no recém-inaugurado Museu das Culturas Indígenas como uma ampliação deste espaço fronteiriço a que se refere Boaventura, na medida em que promove por meio da arte o encontro e o trânsito entre aquilo que se considera “existente” — urbano, contemporâneo, superior, civilizado e reconhecido — e o “inexistente” — extemporâneo, clandestino, subalterno, selvagem e desqualificado. Um espaço de aproximação e intersecção de culturas, onde a presença das culturas indígenas se legitima e se atualiza, transformando-se em território resistente. 

Localizado na Zona Oeste da capital paulista, o centro cultural de sete andares, aberto ao público a partir de julho de 2022, nasce com a proposta de ser “um espaço de diálogo intercultural, pluralidade, encontros entre povos indígenas e não-indígenas, onde a memória da ancestralidade permitirá aos diversos povos originários compartilharem suas mensagens, ideias, saberes, conhecimentos, filosofias, músicas, artes e histórias”.

Oficialmente um equipamento da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, o museu é gerido por uma parceria entre a Associação Cultural de Apoio ao Museu Casa de Portinari e o Instituto Maracá, e exibe desde a sua inauguração três exposições temporárias, organizadas sob a curadoria dos artistas Tamikuã Txihi, Denilson Baniwa e Sandra Benites. 

Em todos os trabalhos, um convite à defesa de territórios, à exploração de fronteiras, à reinvenção do (no) espaço urbano e à afirmação da existência de grupos, causas, modos de fazer e experiências de vida diversas dos tradicionais. Uma membrana permeável entre visões diferentes de mundo(s) que ao mesmo tempo que confere legitimidade ao conhecimento das margens denuncia violações e violências que ameaçam, no centro, o direito à diversidade, seja ela étnica, de gênero, de origem, de escolhas ou de padrões. Uma área indígena. 

Terra firme

Além de fazer parte da equipe de curadoria do museu — e de ter criado sua logomarca —, Denilson Baniwa provoca o visitante em Ygapó: Terra Firme, um convite para conhecer uma Amazônia contemporânea, que ultrapassa e desafia padrões. Em um diálogo sensorial com o espectador, o artista nascido na aldeia de Mariuá (onde hoje fica a cidade de Barcelos, às margens do rio Aiarí, no estado do Amazonas) e radicado em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, apresenta uma metáfora da resistência “e o vislumbre de uma futura existência”, como assinala na sua apresentação. 

Ygapó (que em tupi antigo quer dizer “raízes d´água”) representa, para o artista, a capacidade que têm a dança, o canto, o fazer com as mãos e a conexão com a floresta em oferecer caminhos e dar continuidade à cultura e à vida. “Mesmo que árvores caiam, sua matéria orgânica torna viável o nascimento de outras ainda mais fortes”, sinaliza o artista. O trabalho se divide em dois andares do prédio. No sexto andar, o visitante se depara com um espelho d’água que reflete imagens de produções contemporâneas, tradicionais, sonoras e visuais de músicos indígenas, emolduradas por desenhos de animais da floresta feitos com giz em paredes escuras. 

A terra é firme, mas as narrativas são fluidas e múltiplas, como se tivessem sido construídas no espelho d’água. Para além de um contraste entre linguagens artísticas e visões sobre a floresta, Denilson construiu um caleidoscópio com música, literatura e visualidade, uma narrativa crítica e resistente sobre a fertilidade da cultura coletiva e que pode ser ouvida nas vozes do grupo de rap Oz Guarani — “O índio é forte e sobrevive jogado à própria sorte” — ou da cantora Kaê Guajajara — “Olho em frente ao reflexo, me sinto gigante; já perdi tempo demais não seguindo adiante; vejo você por dentro, eu sei que é difícil de imaginar as raízes; se unem por dentro da terra”.

Pés no chão

A exposição continua no quinto andar, onde o silêncio antecipa um contraste. Um tronco sem galhos repousa sobre o chão, tomado de folhas secas; ao redor, paredes em tons terrosos, quase vermelhos, lembram as áridas e humanas ameaças ao ecossistema: queimadas, mineração, desmatamento, barragens, incêndios, hidrelétricas. À porta da sala vazia, o educador guarani Anthony Karaí explica a uma visitante a importância do museu na promoção do diálogo entre indígenas e os moradores da maior cidade do país: “A ideia é tornar este local um ponto de referência para que o povo de São Paulo conheça a cultura indígena presente no seu estado e no restante do país”, diz.

Morador da Terra Indígena de Jaraguá, localizada em São Paulo, Anthony foi selecionado para ser um dos monitores do museu, onde exercita com destreza suas habilidades de comunicação. Estudante de Direito na Universidade Nove de Julho (Uninove) e professor de língua e cultura Guarani em um projeto da Universidade de São Paulo (USP), ele também integra o coletivo indígena Guardiões da Floresta. Durante a pandemia, ele e outros jovens indígenas estudaram computação gráfica e edição de vídeo e passaram a oferecer aulas e fazer denúncias nas redes sociais, usando os perfis Mídia Guarani Mbya (@midiaguaranimbya) e Existe Guarani em SP (@existeguaraniemsp), no Instagram e no Facebook.

Os vídeos denunciavam sobretudo as investidas da especulação imobiliária sobre o território, ameaças que também motivaram Anthony a procurar o curso de Direito. “É preciso fortalecer a luta por meio da arte, mas também no campo jurídico. Como eu convivo com a comunidade indígena, posso contribuir”, declarou à Radis enquanto recebia mais um grupo de visitantes. Para ele, é preciso estar atento ao momento presente para fortalecer a luta que se trava: “A comunidade indígena não está imune às transformações que a sociedade vive”, disse destacando que é importante aliar a sabedoria dos povos originários à tecnologia.

Foto: Adriano De Lavor.

A cidade sobre a cabeça

Os trabalhos que ocupam o quarto e o terceiro andares deslocam o olhar do espectador para a região Sul do país, onde atua o artista Xadalu Tupã Jekupé. Ele apresenta uma denúncia e um alerta contundentes reunidos na exposição Invasão colonial “Ivyopata” — A Terra vai acabar. O impacto visual promovido por Xadalu é imediato — e tem sua razão. “É necessário um processo que se assemelhe ao reflorestamento da visão”, propõe o texto de abertura, como se preparasse o visitante para a explosão de cores que vem a seguir.

Entre instalações onde se misturam madeira, espelhos, imagens de videogame, roupas e arames farpados, Xadalu manifesta seu território em um varal onde estão penduradas serigráficas espigas de milho, como se anunciassem e protegessem a imagem mais marcante da mostra: uma cabeça-carranca desenhada em preto, cinza, amarelo e vermelho. Arte urbana por excelência, intervenção pós-grafite, como anuncia o próprio autor, a imagem é repetida em série na parede que a exibe, uma afirmação da presença indígena que insiste em colorir o  espaço cinza da urbe.

Em vídeo, Xadalu conta que a inspiração partiu da história Nhe’ry: Existe Uma Cidade Sobre Nós, onde o cacique Cirilo narra o modo como foi construída a capital gaúcha. Ele conta que a grande felicidade da comunidade que vivia às margens do rio Guaíba era colher uma fruta chamada aguaí (ou aguaã), até o momento em que as árvores deram lugar às casas. “A comunidade estava agora no meio de uma cidade. Eles rezam para que as sementes do aguaí quebrem o concreto da cidade e floresça novamente o jardim Guarani”.

Do mesmo concreto da urbe são feitas as cabeças que inspiraram a serigrafia pop do artista mestiço Xadalu. São representações das cabeças indígenas que dão sustentação à Catedral Metropolitana de Porto Alegre — o que para o artista “mostra a aculturação e o triunfo do pensamento da Igreja Católica sobre a nossa comunidade”. Segundo ele, o trabalho fala muito sobre “desenterrar cabeças”, invocar espíritos que nunca deixaram de existir e reafirmar “a palavra do espírito absoluto do espaço, o verdadeiro dono do espaço Nherã”.

Antes que se apague

Na sala seguinte, no terceiro andar, uma placa indica: “Atenção — área indígena”. No espaço, estão aparentes origens e referências de Xadalu, nascido na antiga Terra Indígena Ararenguá, hoje cidade de Alegrete, no Rio Grande do Sul. Chama a atenção a obra “Somos irredutíveis”, um totem em forma de cruz, embalado em plástico preto e arame farpado, posicionado sobre uma televisão ligada, e uma série de fotografias que mostra indígenas vestindo coletes à prova de bala — onde se lê “guarani mbya”. 

O contraste entre técnicas, objetos posicionados no chão — que lembram expositores de vendedores ambulantes nas grandes cidades do país — e vazios mostra porque o artista é um dos mais potentes nomes das artes visuais contra o apagamento da cultura indígena no Rio Grande do Sul. Um “DNA marginal” que se apresenta nas ausências e nas disputas, na asfixia por espaço e na luta por demarcação de territórios. 

O amianto que “coloniza” as flores do campo em contraponto aos tecidos onde se borda a resistência diante de longos anos de silenciamento e exclusão. “Antes que se apague: territórios flutuantes”, sinaliza o artista, que se diz movido pela interrogação étnica que marca quem viveu na fronteira entre a aldeia e a cidade. Um deleite para os olhos e um petardo para a consciência de quem vive o ambiente urbano e não enxerga aqueles que estão do outro lado da linha, a linha do abismo apontada por Boaventura. 

A terceira exposição do museu atravessa as paredes do prédio e se constrói na entrada e nos jardins, aos moldes de uma ocupação. É a Ocupação decoloniza SP Terra Indígena, uma mostra coletiva que reúne impressões em lambe-lambe e intervenções nos muros. A chamar a atenção dos transeuntes, cartazes afirmam que “democracia é demarcar todas as terras indígenas” e que a floresta em pé é capaz de deixar o fascismo no chão. A crítica é decolonial, desconstruindo referências e construindo novas referências — periféricas, comunitárias, indígenas e ainda assim urbanas. A onça-mãe de Tamikuã Txihi reverencia o papel feminino na defesa pela vida, grafismos ocupam paredes e pulseiras são vendidas por artesãos. O museu escapa em direção à rua, portas abertas à espera de visitantes. 

No alto do prédio, um salão amplo foi planejado para a escuta e o diálogo, onde repousa uma enorme serpente de tecido. É possível enxergar uma referência à cobra-canoa, citada por Ailton Krenak no ciclo de estudos Selvagem. Um símbolo de origem e transformação que vai ao encontro do objetivo do museu, que é se tornar um espaço de diálogo intercultural, pluralidade e encontros entre povos indígenas e não-indígenas. Quem sabe o início da construção de uma nova memória. Uma memória coletiva e compartilhada onde não haja mais linhas de divisão, mas sim de aproximação.

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