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Apesar de todos os impedimentos e pressões, os cientistas continuavam a trabalhar, com esperanças de melhores dias. Publicavam os resultados de suas pesquisas e os apresentavam a sociedades científicas, congressos, simpósios”. Esta citação abre uma das partes de O Massacre de Manguinhos, livro escrito por Herman Lent (1911-2004), médico parasitologista, pesquisador e um dos maiores especialistas no inseto barbeiro, transmissor da doença de Chagas. A obra retrata a ocasião em que dez dos principais pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), incluindo Lent, foram cassados pelo regime militar e impedidos de continuarem exercendo suas atividades na instituição.

Originalmente publicado em 1978 pela Avenir Editora, com capa de Oscar Niemeyer, O Massacre de Manguinhos estava esgotado e indisponível. A possibilidade de uma nova edição surgiu com as Edições Livres, selo editorial do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict) da Fiocruz, que tem a missão de lançar publicações com livre circulação na internet de forma gratuita. O selo faz parte da Porto Livre — uma plataforma que abriga livros de interesse acadêmico e social em acesso aberto.

O portal surgiu com o objetivo de ser um repositório de livros editados por diferentes instituições, como universidades, editoras, movimentos sociais, centros de pesquisa, entre outras. Dentre os parceiros, está a Editora Fiocruz, que já disponibilizou 48 livros — o número pode chegar a 190 obras. Até o momento 345 obras estão disponíveis gratuitamente. As instituições e os autores podem submeter seus títulos para a aprovação de um Conselho Curador que avalia a pertinência à política editorial da plataforma. Inclusive há a possibilidade de que os próprios leitores possam sugerir obras, mas a aceitação depende se o título em questão possui licença para livre circulação na internet.      

Resgate de raridades

A ideia da Porto Livre nasceu com o projeto “Acesso aberto e uso da literatura científica no ensino”, em que alunos e professores do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS) do Icict pesquisaram sobre títulos utilizados nas atividades de ensino da instituição que não eram facilmente encontrados para leitura — geralmente porque estavam esgotados e, quando disponíveis, só eram localizados em sebos ou lojas virtuais por um preço pouco convidativo. Assim foram escolhidas as primeiras obras a compor o portal.

No caso da obra de Lent, o livro faz parte também da Coleção Memória Viva, criada com a intenção de resgatar e reeditar títulos de grande relevância acadêmica e institucional que se encontram esgotados ou indisponíveis. A coleção integra o selo Edições Livres. Outra proposta é a inserção de dissertações e teses que não estão disponibilizadas em acervos online. Os livros lançados pela coleção também são contemplados com exemplar físico, assim como algumas das obras disponíveis pelas Edições Livres.

Segundo o diretor do Icict, Rodrigo Murtinho, a perspectiva é de que a Porto Livre possa receber mais obras de livre acesso e, por isso, o projeto estimula a participação ativa de autores, editores e leitores. “A democratização do acesso à informação está entre os temas principais do que a gente chama hoje de direitos digitais. Possibilitar o acesso a conteúdos importantes produzidos por pesquisadores e universidades, e pela sociedade de modo geral, é uma atividade fundamental”, explica. Segundo o diretor, que é pesquisador do tema direito à comunicação e um dos idealizadores da plataforma, o acesso aberto é uma bandeira fundamental da Fiocruz, que passou a ser incentivada após a aprovação da Política de Acesso Aberto ao Conhecimento da instituição, em 2014.

O intuito da plataforma também é colaborar para o fortalecimento de políticas públicas voltadas à preservação de saberes em vários campos do conhecimento e da memória bibliográfica do país. Para saber mais, acesse: https://portolivre.fiocruz.br/.

Conheça algumas obras disponíveis

O massacre de Manguinhos

A nova edição lançada na Coleção Memória Viva foi o primeiro livro do selo Edições Livres, publicado em 2019. Além do texto original de Herman Lent, conta com prefácio de Nísia Trindade Lima, presidente da Fiocruz, que aborda a relação entre ciência e democracia. Também traz dois posfácios, um de Wanda Hamilton, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), em que faz um apanhado histórico sobre a fundação, contextualizando o cenário histórico da instituição antes e durante o episódio central da obra. O outro texto é de Renato Cordeiro, pesquisador emérito da Fiocruz, que traz o seu próprio relato sobre o Massacre de Manguinhos, além de alguns registros fotográficos de seu acervo pessoal e também do Instituto Oswaldo Cruz. 

Natural, racional, social: razão médica e racionalidade moderna

Com a primeira edição datada de 1987, a obra de Madel T. Luz é referência nos estudos em saúde em interseção com o social. Parte da Coleção Memória Viva, e reeditado em 2019, o título inova ao abordar as práticas médicas a partir de uma visão sociológica e indaga como a racionalidade científica interfere nesse processo. A nova publicação traz uma apresentação da própria autora fazendo um balanço sobre a sua pesquisa 30 anos após a primeira edição. Além disso, conta com o prefácio de André Pereira Neto, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP) da Fiocruz, que foi aluno e orientando de Madel no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj). Também reúne os prefácios das três edições anteriores.      

Histórias para inspirar futuras cientistas

Publicada em 2021, a obra escrita por Juliana Krapp e Mel Bonfim e ilustrada por Flávia Borges é voltada para todos os públicos, especialmente o infantil e juvenil, ao trazer um pouco da trajetória de várias mulheres pesquisadoras na área da saúde pública. Nomes como Bertha Lutz, Margareth Dalcomo, Christina Morais, Euzenir Sarno, entre outras, compõem o livro em que conhecemos um pouquinho de suas infâncias e como se interessaram pelos seus respectivos temas de pesquisa. Além disso, para cada cientista, há um breve resumo de sua biografia e outras curiosidades. 

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