Soluções simples para questões complexas. Esse é o lema de muitos influenciadores digitais e profissionais de saúde que oferecem produtos milagrosos para queixas como fadiga e baixa libido nas redes sociais. O que a ciência revela há décadas é que o básico bem feito quase sempre supera qualquer “superpoder” que essas soluções podem oferecer. Dormir bem, ter uma dieta balanceada, fazer atividade física com regularidade e cultivar boas relações podem ser a solução de grande parte dos problemas de saúde.
Mas a realidade digital é sedutora e propõe alternativas, muitas vezes, perigosas: soroterapia com compostos desconhecidos, “chip da beleza” [implante subcutâneo com hormônios], uso de testosterona e suplementações que contemplam quase toda a tabela periódica. Entre 2020 e 2022, a pesquisa “A Economia Global do Bem-Estar”, do Global Wellness Institute (GWI), mostrou que, no Brasil, 96 bilhões de dólares foram movimentados por esse mercado, o equivalente a quase 500 bilhões de reais.
Estratégias de venda são utilizadas para fazer com que o paciente ao invés de ser acolhido na consulta saia do atendimento com mais angústia, baixa autoestima e seja coagido a pagar valores que podem chegar a R$ 80 mil. Histórias desse tipo são contadas no canal do YouTube de Carlos Eduardo Seraphim, médico endocrinologista que, em agosto de 2024, criou um perfil na plataforma, motivado pelo excesso de condutas danosas e até perversas que escutava em seu consultório.

“Começou a me incomodar receber paciente que passou por diversos outros colegas e tinha gastado não só tempo, mas saúde, disposição, esperança e, obviamente, dinheiro”, conta à Radis. No seu canal “Endócrino e Talks”, o doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP), além de desmistificar informações perigosas, faz denúncias com imagens borradas e vozes alteradas de profissionais que disseminam conteúdos danosos à saúde.
Nesta reportagem, você vai entender como a venda de terapias sem comprovação científica na internet, como o uso indiscriminado de hormônios, gera riscos para a saúde.
Comunicação e saúde
Pâmela Pinto é pesquisadora do Laboratório de Comunicação e Saúde (Laces), do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) e investiga a desinformação em saúde, com ênfase no SUS. Para ela, “a visão mercadológica das mídias sociais acaba por ampliar o estímulo à responsabilização do indivíduo pela sua saúde, centrada em um corpo ideal e saudável, em detrimento da busca coletiva por esse direito”.
Em um levantamento feito por seu grupo de pesquisa, foram identificadas 15 figuras públicas premiadas pelo prêmio iBest, entre 2020 e 2024, como influenciadores de referência na área da saúde e bem-estar. Dessas, apenas oito eram profissionais de saúde. Figuras do universo fitness como a empresária Maíra Cardi e a cantora Kelly Key somavam 22 milhões de seguidores no Instagram, enquanto o Ministério da Saúde possuía, à época, 3,3 milhões.
Em março de 2026, a edição do prêmio reconheceu o atleta Bitelo e o empresário Cariani como vencedores da categoria Fitness e Wellness. Na categoria Saúde, os médicos vencedores foram Fernando Lemos e Drauzio Varella.
A pesquisadora lembra a Lei nº 15.325, de janeiro de 2026, que reconheceu e regulamentou no Brasil a atuação do profissional multimídia, podendo trabalhar na criação, edição, produção, gestão e publicação de conteúdos digitais. Ao mesmo tempo, a lei não estabelece piso salarial, jornada de trabalho nem cria vínculo empregatício automático, tendo como principal objetivo o reconhecimento formal, além de proporcionar maior segurança jurídica a um setor que já existia, mas que ainda não era regulamentado.

De acordo com Pâmela, “esse novo passo vai auxiliar na busca por um ambiente mais seguro para os produtores de conteúdos inseridos na lógica comercial das plataformas e das marcas que representam; e para nós, que acompanhamos esse trabalho”.
Para a pesquisadora, a adaptação do algoritmo [conjunto de inteligências artificiais e processos que analisam comportamentos nas redes digitais] aos interesses dos usuários permite otimizar os conteúdos recebidos. Segundo essa lógica, quanto mais vejo um serviço ou produto, mais me torno suscetível a comprá-lo, porque a personalização reconhece meus hábitos.
Além disso, Pâmela elenca outras estratégias que potencializam o alcance de informações sobre saúde: vídeos explicativos; utilização de profissionais da área para validar determinado produto; testemunho de usuários com vídeos amadores; e utilização da própria ciência de forma distorcida para validar a venda, através de artigos científicos genéricos e menções à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Ciência distorcida

No canal “Endócrino e Talks”, Carlos Eduardo Seraphim desvenda, para seus 143 mil inscritos, vários dos artigos que são utilizados pelos charlatões da internet para justificarem suas vendas. Uma meia-verdade adaptada para simplificar, muitas vezes, temas complexos, como o funcionamento de hormônios e o processo de emagrecimento.
“Em algum grau as pessoas sabem que o picareta é picareta. Só que às vezes é um engano conveniente”, reflete. Mas na hora das complicações, é comum que recorram a profissionais sérios e não aos prescritores de substâncias da moda. Um episódio que marcou o médico foi quando recebeu uma ligação de uma colega psiquiatra pedindo que ele fosse de madrugada avaliar uma paciente de 40 anos que estava internada em um hospital em São Paulo.
Ela havia feito soroterapia sem saber o que tinha dentro do soro. O ideal é que seja feita uma dupla-checagem antes da administração, ou seja, que a pessoa que vai aplicar a medicação confirme o nome do paciente e o remédio, explica o médico.
Tempos depois, após pagar milhares de reais nas sessões, foi parar no pronto-socorro com arritmia. O exame de sangue mostrou que estava intoxicada por hormônio tireoidiano, sendo que ela nunca fez uso desse tipo de medicação. Depois a mulher descobriu que eles colocavam T3 [hormônio produzido pela tireoide] no soro da clínica.
“A gente teve que anticoagular, chocar para reverter o ritmo, sob sedação. E mesmo depois ela me perguntou se poderia continuar fazendo as sessões apenas com aminoácidos para não perder o valor pago. O que me impressionou foi o grau de atratividade daquele tipo de estratégia. Eu disse que não seria conivente com aquela conduta”, lembra.
Nessa situação, usar remédios anticoagulantes foi importante, porque a arritmia pode favorecer a formação de coágulos no coração, aumentando o risco de derrame. E fazer a cardioversão elétrica (um choque controlado no peito) ajudou a restaurar o ritmo saudável do órgão. “Eu já tive de tudo no consultório, depois do uso inadequado de hormônios: AVC, infarto, insuficiência renal”, recorda.
O médico disse que é comum nesse tipo de soroterapia a infusão de altas doses de vitamina D, substâncias diuréticas e estimulantes. “Ontem mesmo atendi dois pacientes com intoxicação. Um deles viu na internet e achou que seria legal ficar com a vitamina D acima de 100 ng/mL”, contou durante entrevista online em março. Geralmente, para uma população saudável, sem sintomas, não é necessário dosar vitamina D. Para quem tem osteopenia ou osteoporose, por exemplo, a vitamina D pode ficar entre 30 e 60 ng/mL.
Soroterapia

Bastante difundida na internet e utilizada por celebridades no Brasil e no mundo, vende-se a soroterapia como um tratamento capaz de aumentar a energia, “desintoxicar” e “desinflamar” o organismo. “Toda tabela periódica está sendo consumida na forma de suplementação. Na medicina a gente precisa suplementar aquilo que está faltando”, explica Mylena Medeiros, endocrinologista pelo Hospital das Clínicas da USP.
Em entrevista à Radis, a médica contou que há pacientes que gastam valores altíssimos suplementando vitaminas e nutrientes sem indicação precisa, quando, na verdade, poderiam investir em aspectos que sabidamente têm impacto na qualidade e expectativa de vida, como prática regular de atividade física e uma alimentação balanceada. “Os pacientes poderiam direcionar esses gastos para o acompanhamento por profissionais da educação física e da nutrição”, afirma.
Ela lembra da inteligência do nosso corpo: “O nosso trato gastrointestinal é muito inteligente, então, ele só vai absorver aquilo que o corpo está precisando. Isso evita excesso. E quem desintoxica é o fígado. Fora que essas infusões acontecem em diversos locais que não estão sendo vigiados”, lembra.
A médica, também preceptora da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, explica que a suplementação via endovenosa deve ser feita em casos específicos: “um paciente pós-cirurgia bariátrica que não respondeu à suplementação oral; paciente que tem alguma doença disabsortiva intestinal ou deficiência nutricional mais grave e sintomática; e com impossibilidade de suplementar via oral”, exemplifica.
Ela alerta que é antiético aplicar um soro em um estabelecimento onde o próprio médico realiza a comercialização, porque gera um “viés de prescrição”. Também comenta sobre o grande mercado que envolve profissionais da saúde e farmácias de manipulação, em que os médicos chegam a receber cerca de 30% do valor de toda suplementação prescrita.


Testosterona
Outra tendência é a suplementação de testosterona, muitas vezes vendida para melhorar o rendimento na academia, deixar os músculos mais visíveis, a pessoa mais disposta e impulsionar a performance sexual. “O Brasil está diante de um problema crescente e subestimado. As vendas legais de anabolizantes cresceram 670% entre 2018 e 2023, e isso não conta o mercado clandestino, que inclui tráfico via Paraguai, produção caseira e farmácias de manipulação que operam à margem da legalidade”, avalia Carlos.
Apesar de fazer uso, Marco Loja, 39 anos, assistente administrativo, não recomenda, especialmente, por causa das alterações de humor. “A pessoa vai de 0 a 100 muito rápido. Uma pessoa que não é controlada mentalmente, faz besteira”.
Besteira, segundo ele, seria brigar com alguém de sua convivência, criar situações de ciúme e, dependendo, até partir para agressão física. “Conheço gente que estragou relacionamento de dez anos, porque começou a tomar trembolona [esteroide anabolizante potente, desenvolvido para uso veterinário em gado] e achava que a mulher o traía”, lembra.
Também comentou o caso do fisiculturista Pedro Camilo que espancou a ex-namorada no dia do aniversário dela por ciúmes. Ele aposta que se fizessem um exame de sangue iriam constatar os altos níveis de testosterona no atleta. Inclusive, essa é uma estratégia da defesa do agressor, conforme publicou o G1 Santos em 15/1/26. A vítima precisou passar por várias cirurgias na face e hoje tenta retornar à rotina de médica.
Atualmente, Marco faz uso de três substâncias injetáveis (testosterona enantato, drostanolona e trembolona), em dias alternados na semana. Uma prática recorrente há três anos. Aos 20 também já havia feito uso, mas sem tanta regularidade. O estímulo extra veio após ganhar peso durante a covid-19, quando chegou a pesar 138 kg, medindo 1,85 m.
Hoje, pesa 110 kg e faz exercício duas vezes ao dia, de segunda a sábado. Pela manhã faz aeróbico em jejum e à noite faz musculação. A dieta e o treino são seguidos com base em conteúdos da internet. Ele disse que treina muito durante a semana para poder comer o que tem vontade no sábado e no domingo.
Ele mesmo aplica as substâncias injetáveis e consegue os produtos com um atleta que adquire em uma farmácia de manipulação. Marcos não sabe exatamente o caminho das drogas injetáveis, mas conta que é comum esse tipo de assunto e mercado na academia.
Riscos à saúde
O Conselho Federal de Medicina (CFM) determinou, por meio da Resolução nº 2.333/2023, que a prescrição de testosterona e de outros esteroides anabolizantes deve se restringir a casos com indicação clínica comprovada, como deficiência hormonal diagnosticada (hipogonadismo), proibindo seu uso para fins estéticos.
A norma também veda a utilização sem respaldo científico, incluindo práticas como “modulação hormonal”, hormônios bioidênticos sem evidência e substâncias como SARMs (Moduladores Seletivos dos Receptores de Andrógenos), além de coibir a promoção desses usos por médicos.
Segundo o CFM, a medida se baseia na falta de benefícios comprovados nessas aplicações e nos potenciais riscos à saúde, reforçando que o uso de hormônios deve ser exclusivamente terapêutico e pautado por critérios técnicos e éticos.
Dependência psicológica
Carlos Eduardo, assim como Marco, enxergam que é criada uma dependência psicológica, após o início do uso de hormônios, que dificulta a interrupção. “Só que a partir do momento que você vive o sobre-humano, que tem uma percepção de confiança e uma disposição excessivas, você não quer ficar sem”, explica o médico. É quando as pessoas buscam o mercado paralelo.
O endocrinologista também vê outra questão complexa: “não só uma padronização de corpos da mulher e do homem, mas até para os jovens”. Ele recorda uma pesquisa que revela que 6% dos adolescentes do ensino médio nos Estados Unidos já usaram anabolizantes.
“Imagina 6% dos jovens que aumentaram três vezes o risco cardiovascular [morte, infarto] em 11 anos. E a conta a gente não paga hoje, assim como o cigarro. A gente só paga daqui a uns anos. Os custos recaem sobre o SUS na forma de infartos, AVCs, arritmias e insuficiências cardíacas em adultos com menos de 45 anos”, diz.

Testosterona para mulheres
Já o “chip da beleza”, utilizado por celebridades como Jojo Todynho e Virginia Fonseca, podem conter geralmente testosterona e gestrinona. Em nota, à Radis, a Anvisa informa que “a gestrinona esteve presente em medicamentos registrados e comercializados para tratamento de endometriose até a década passada, na forma de cápsulas gelatinosas duras, mas atualmente não existe registro de medicamento contendo essa substância no Brasil”. “Por se tratar de substância hormonal com possibilidade de causar eventos adversos graves, foi banida de diversos mercados”, diz o texto.
A nota alerta que a propaganda à população em geral é proibida pela Agência, que reforça que “não existem evidências técnicas e científicas que dariam suporte ao uso da gestrinona implantável para fins de emagrecimento, ganho de massa muscular, reposição hormonal, tratamento de sintomas de tensão pré-menstrual, regulação de períodos menstruais, aumento da libido e para fins estéticos”.
Sobre o “chip da beleza”, o médico comenta: “um implante comprado por R$ 500 pode ser vendido por R$ 10 mil”. Nos comentários do “Endócrino e Talks”, é comum mulheres relatarem que chegam às consultas com outras demandas de saúde e os profissionais empurram tratamentos caríssimos como esse.
Mylena explica que “para mulheres em idade fértil (pré-menopausa), não existe indicação de reposição de testosterona”. A médica lembra que nem se deve dosar testosterona para diagnosticar uma suposta “deficiência hormonal”, uma vez que esse diagnóstico em mulheres não existe e o exame apresenta baixa acurácia e limitada utilidade clínica para a tomada de decisão.
No entanto, sua dosagem acaba sendo uma justificativa para se realizar a venda. “Eu doso testosterona em mulheres quando eu suspeito do excesso, porque aí sim é patológico”, explica.
Já nas mulheres pós-menopausa, a endocrinologista diz que, em casos pontuais, é possível suplementar testosterona em doses baixas, em gel ou creme (via transdérmica), para melhora de libido, mas só depois de a paciente estar realizando a terapia de reposição hormonal com estrogênio e após exclusão de outras causas que podem impactar na libido feminina: sono de má qualidade, questões emocionais, qualidade das relações românticas, dor no ato sexual, rotina doméstica etc.
Quando já se excluíram esses aspectos, é possível realizar a prescrição da testosterona em doses fisiológicas, devendo descontinuá-la, se não houver benefício clínico em até seis meses.
Esse tratamento, ainda assim, não depende da dosagem do hormônio baixo no sangue, sendo prescrito com base nos sinais e sintomas apresentados pela paciente. Durante o acompanhamento das mulheres em uso, a dosagem de testosterona, por sua vez, deve ser realizada para evitar excesso hormonal, que pode aumentar o risco cardiovascular (infarto, AVC, insuficiência cardíaca), trombose, deixar a voz grossa e aumentar o clitóris.
Crescimento dos charlatões
Cerca de 23 mil novos médicos se formam por ano no Brasil, de acordo com a Demografia Médica 2025. “Apenas nos últimos cinco anos, desde 2020, o país passou a contar com 116.546 novos médicos”, declara o estudo.
Com o fácil acesso às redes sociais e a profissionais de marketing, novos médicos enxergam esse mercado como uma oportunidade de ganhar dinheiro. “Eu acho que hoje há uma disseminação irrestrita de faculdades de medicina; tem que ter critério, porque tem faculdade que não está vinculada a hospitais, por exemplo. E não há robô que vá simular uma interação humana. É diferente treinar num robô e entubar uma pessoa”, avalia Carlos Eduardo.
Outro fator que favorece a manutenção desse tipo de profissional é que, segundo o pesquisador da USP, muitos pacientes acabam tendo vergonha de denunciar, justamente, por se sentirem culpados de terem embarcado em uma oferta de cuidado que desde o início já suspeitava ser danosa.
Além disso, no site do CFM, não é possível realizar denúncia anônima. E a primeira frase na página já repele: “Toda denúncia médica é grave e precisa ser averiguada”. “Depois de ter a saúde afetada, a pessoa só quer resolver o problema e virar a página, então, é muito raro que o paciente procure de fato uma autoridade para denunciar”, diz o endocrinologista.
Como denunciar
Para quem quiser denunciar, é essencial reunir provas, como prints de publicações com a data, anúncios, link do site, notas fiscais, prescrições médicas, comprovantes de pagamento, e-mails, conversas, protocolos de tratamento e exames antes da intervenção para servir como comprovação do dano.
A advogada Lara Reis, pós-graduada em Direito Civil, explica que é preciso avaliar cada caso, mas que é possível procurar uma pessoa advogada ou ir à Defensoria Pública. As denúncias podem ser feitas simultaneamente em mais de um canal e as principais vias são: usar as próprias plataformas em que os conteúdos foram veiculados; denunciar ao órgão de classe do profissional; reportar à Anvisa; reclamar junto ao Procon por publicidade enganosa e/ou prática abusiva ao consumidor.
De acordo com a situação, é possível acionar o Ministério Público Estadual ou fazer registro de ocorrência em uma delegacia, podendo ser configurados crimes de charlatanismo, estelionato e, se houver dano efetivo à saúde, lesão corporal.




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