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Você já parou para pensar como a saúde e a comunicação podem se relacionar? Há 40 anos, na abertura da 8ª Conferência Nacional de Saúde (8ª CNS), o médico sanitarista Sergio Arouca defendeu que saúde era mais do que ausência de doença. Entre os fatores que impactam o bem-estar social e a qualidade de vida das pessoas, o sanitarista incluiu o direito a “informações sobre como se pode dominar esse mundo e transformá-lo” (Radis 284).

De lá para cá, o direito à comunicação passou a ser tratado como um dos determinantes sociais da saúde em outras conferências. Mas só em 2023 — após a realização de duas conferências livres de comunicação e saúde — a 17ª CNS enfim aprovou a proposta de criação da Política Nacional de Comunicação Pública do Sistema Único de Saúde (SUS). A decisão foi consolidada pela Resolução nº 719/2023 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e hoje está em discussão no órgão.

A partir disso, a missão de materializar essa política ficou a cargo da Câmara Técnica de Saúde Digital e Comunicação em Saúde (CTSDCS), criada pelo CNS em junho de 2024 (Resolução nº 751). A subcâmara de Comunicação em Saúde é um dos braços dessa Câmara Técnica e vem trabalhando na formulação da política. O grupo reúne representantes da sociedade civil, profissionais de saúde e governo, além de entidades como a Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Entre as justificativas para a criação da Câmara Técnica e da política, o CNS cita os efeitos da desinformação durante a pandemia de covid-19, marcada pela circulação de informações falsas e pelo estímulo ao uso de medicamentos sem eficácia comprovada.

Mas nem tudo está garantido. Apesar do cenário favorável, com importantes avanços institucionais, engana-se quem pensa que a política de comunicação do SUS seja algo já conquistado e dado como certo. Longe disso, é preciso uma mobilização permanente, advertem as fontes ouvidas pela reportagem. 

“É uma caminhada muito longa ainda. Precisamos pautar cada vez mais esse tema, contar com pessoas engajadas e comprometidas e gerar fatos políticos para que isso aconteça”, afirma à Radis a conselheira de saúde Débora Melecchi, coordenadora da CTSDCS. Segundo sua avaliação, a política ainda não avançou nem 10% do necessário para ser criada e implementada [Saiba mais sobre o andamento da política clicando aqui].

Mas, afinal, a pouco mais de um ano da 18ª CNS, o que ainda é preciso para a criação dessa política? Qual a importância da comunicação para a saúde? Como uma política de comunicação pública pode ser estratégica para fortalecer o SUS e que aspectos ela deve contemplar? Para responder a questões como essas e refletir sobre o direito à comunicação como indissociável ao direito à saúde, Radis acessou documentos e ouviu atores sociais que têm se articulado na construção da política e defendem a democratização da comunicação.

7ª Reunião da Câmara Técnica de Saúde Digital e Comunicação em Saúde (CTSDCS), realizada em março de 2026. — Foto: Daniel Zimmermann/Ascom/CNS
7ª Reunião da Câmara Técnica de Saúde Digital e Comunicação em Saúde (CTSDCS), realizada em março de 2026 — Foto: Daniel Zimmermann/Ascom/CNS

Comunicação como determinante social

“É impossível falar de saúde sem falar de comunicação”, afirmou a pesquisadora Inesita Araújo, referência no campo teórico-político da Comunicação e Saúde, em entrevista recente à Radis, publicada na edição de março (282). Ao completar sua fala, a pesquisadora frisou ainda que toda prática de saúde depende de algum processo comunicacional.

Se Inesita ajuda a explicar por que comunicação e saúde são inseparáveis, a jornalista Hara Flaeschen, integrante do coletivo Direito à Comunicação e Democracia (Diracom), amplia essa ideia ao situar a comunicação como uma dimensão estruturante do SUS. “Ela está diretamente relacionada à participação social, ao controle democrático e à capacidade do sistema de responder às necessidades da população”.

Hara reitera que o campo da Comunicação e Saúde reconhece o direito à comunicação como parte do próprio direito à saúde: “Partimos da ideia de que todas as lutas sociais se encontram no direito à comunicação. No campo da saúde, isso é evidente”, afirma. Ela ainda estende essa conexão ao direito à cidadania.

Nessa mesma direção, o pesquisador da Fiocruz Rodrigo Murtinho, um dos autores do livro “Direito à Comunicação e Saúde” e integrante da subcâmara de Saúde Digital na CTSDCS, também relaciona comunicação e saúde à dimensão dos direitos. Para ele, comunicação e informação precisam ser tratadas como direitos humanos — fundamentais para a consolidação de vários direitos, inclusive à saúde.

Com base na Política de Comunicação da Fiocruz, que completa dez anos em 2026, Rodrigo defende que reconhecer a comunicação como determinante social da saúde também é uma estratégia para ampliar sua centralidade no debate sanitário.

Comunicação pública como estratégia de saúde

Para além de um aspecto determinante para obtenção da saúde, o tratamento dado pelas instituições à comunicação também merece atenção. As críticas ao modelo tradicional de comunicação no campo da Saúde Pública aparecem por diferentes fatores: da linguagem excessivamente técnica à padronização das campanhas e à dificuldade de diálogo com públicos diversos. 

Há 13 anos à frente da comunicação do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), o jornalista Marcus Carvalho defende que a comunicação em saúde não pode se limitar à divulgação de campanhas ou ao atendimento à imprensa. Para ele, esse caráter mais estratégico e menos instrumental deve ser um dos princípios da política de comunicação do SUS.

Marcus reforça a importância de envolver a comunicação em todas as etapas de formulação de uma política ou serviço voltado à população — e não apenas no momento de divulgar a iniciativa. Essa medida possibilitaria melhor entendimento e maior adesão do público. “O SUS produz uma imensidão de dados e informações que muitas vezes as pessoas não compreendem, porque são apresentados em linguagem técnica”, resume.

A jornalista Débora Pinheiro, representante da ABCPública na subcâmara de Comunicação em Saúde da CTSDCS — e delegada da 17ª CNS, eleita pela 2ª Conferência Livre de Comunicação e Saúde —, também defende que a nova política supere práticas de comunicação focadas apenas na divulgação institucional. “O objetivo precisa ir muito além de emplacar notícias do Ministério da Saúde na imprensa”, afirma.

Débora cita a pandemia como exemplo de um período em que a comunicação em saúde esteve atravessada por interesses que não eram públicos. “Ainda vivemos uma enxurrada de desinformação, felizmente não mais estimulada pelo Ministério da Saúde, mas ainda fortalecida por atores privados e até públicos, dependendo da configuração política de cada região”, observa.

Ela também critica o modelo campanhista, predominante na saúde pública. Para Débora, a comunicação do SUS não pode se resumir a campanhas pontuais ou mensagens de mão única. “A comunicação tem o papel de articular, de criar espaços para que as pessoas dialoguem e se manifestem”, afirma.

Marcus endossa a crítica ao modelo de campanhas padronizadas — chamadas “guarda-chuva” — amplamente adotado pelo Ministério da Saúde. “Quando olhamos para o Brasil e vemos as diferenças culturais, percebemos que a linguagem de uma campanha no Sul precisa ser diferente daquela usada no Norte ou no Nordeste”.

Segundo ele, essa variação na abordagem geralmente não ocorre, uma vez que as campanhas costumam massificar um olhar do Sudeste, onde normalmente estão sediadas as agências contratadas, e aplicá-lo às demais regiões do país. “Acaba que dessa forma a gente informa muito e comunica pouco”, analisa.

O coordenador e editor-chefe de Radis, Rogério Lannes, discursou na abertura da 17ª CNS sobre a importância da comunicação pública na saúde e para o SUS. — Foto: Eduardo de Oliveira
O coordenador e editor-chefe de Radis, Rogério Lannes, discursou na abertura da 17ª CNS sobre a importância da comunicação pública na saúde e para o SUS — Foto: Eduardo de Oliveira

Comunicação pública como política de Estado

Outro consenso entre os entrevistados é que a comunicação do SUS precisa ser uma política de Estado — e não de governo. Só assim será possível garantir continuidade nas práticas de comunicação, de modo que elas não mudem a cada novo ciclo de gestão. Na saúde, esse tipo de solidez pode ser a diferença entre a vida e a morte. A pandemia de covid-19 pode novamente ser usada para exemplificar como uma comunicação desajustada é capaz de desinformar e causar danos.

“Durante a pandemia, a desinformação também foi disseminada por canais oficiais”, lembra Débora Pinheiro. “A própria Secom [Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República] e o Ministério da Saúde divulgaram o protocolo da cloroquina como tratamento para covid-19 [sem comprovação científica]”, complementa.

Outro ponto de fragilidade, criticado por Débora, é a dependência de agências de marketing na comunicação pública da saúde. Segundo ela, muitas campanhas são conduzidas por profissionais sem experiência em políticas públicas ou vivência no SUS, quando deveriam ser geridas por servidores públicos de carreira. “Com isso, às vezes, quem chefia as equipes de comunicação nas agências desconhece o Brasil profundo. Não sabe sobre o que preocupa a população em termos de saúde”, alerta.

A expectativa com a criação da política, segundo ela, é de que a comunicação deixe de ser executada por agências de marketing e passe a ser conduzida por agentes públicos comprometidos com os valores do SUS.

No plano federativo, a política também poderia servir de referência. Marcus Carvalho vê o documento como um potencial guia para estados e municípios, capaz de reduzir os impactos das mudanças frequentes nas equipes de comunicação a cada troca de gestão. “Assim a comunicação em saúde acaba deixando de ser personificada no gestor da vez e vai para um âmbito mais sistêmico, de como comunicar o SUS e as políticas públicas”, pontua.

Ele explica que embora o SUS ainda não tenha uma política nacional específica, na prática a área técnica do Ministério da Saúde define as diretrizes centrais de comunicação do sistema junto ao Conass e às secretarias de saúde. Isso não impede que os estados e até mesmo alguns municípios avancem com suas políticas. Goiás, Ceará e Maranhão instituíram políticas de comunicação inspiradas em orientações do Conass.

Segundo Marcus, o movimento tem ocorrido de forma inversa ao esperado: “Os estados mais estruturados estão incentivando municípios maiores e até o próprio governo federal”. Ele, porém, faz uma ressalva: “A iniciativa do Conselho Nacional de Saúde é vanguardista e necessária, mas isso não tira a responsabilidade do gestor federal de promover uma discussão sobre política e sobre comunicação e saúde”, afirma.

Comunicação pública como participação popular

Para a jornalista Gizele Martins, comunicadora comunitária há mais de 20 anos e ativista da comunicação popular, a comunicação comunitária deveria inspirar a política de comunicação do SUS. Em um país que ainda convive com cerca de 29 milhões de excluídos digitais — segundo a pesquisa TIC Domicílios 2024 — ela defende estratégias que atravessem as telas e considerem os territórios.

“Uma parcela significativa da população ainda tem acesso limitado ou nenhum acesso à internet. Por isso, é importante considerar rádio, televisão, mídias comunitárias e comunicadores populares”, reforça Hara.

Gizele lembra que durante a pandemia coletivos comunitários atuaram no combate às fake news em favelas e periferias, como a Frente de Mobilização da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde reside. “Na pandemia, organizamos ações de combate à desinformação com carros e bicicletas de som, faixas, panfletos, cartazes, grafites de rua e plataformas digitais”, relata. 

Ela avalia, porém, que esse potencial foi pouco aproveitado pelo poder público. “A fake news era uma política pública do próprio governo, na época da pandemia”, afirma. “A comunicação comunitária poderia ter sido usada em favor da vida”, acrescenta.

Rodrigo Murtinho também destaca experiências de comunicação popular desenvolvidas com coletivos de favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia, cujo alcance não se limitou àquelas localidades: “Esse material também era distribuído nacionalmente”.

Para ele, a futura política de comunicação deverá refletir uma diversidade de vozes, dialogando com associações, conselhos de saúde e grupos de comunicação presentes nos territórios. “É fundamental pensar a comunicação como pública e em interação com a sociedade”.

Comunicação pública para fortalecer o SUS

Fortalecer a comunicação do SUS, dizem os entrevistados, não significa apenas melhorar campanhas ou circulação de informação. Significa também disputar sentidos sobre o sistema público, ampliar acesso e fortalecer a democracia.

Marcus Carvalho considera a comunicação como fator estratégico para o avanço do SUS: “Não consigo imaginar a consolidação do SUS sem uma política de comunicação”, afirma. Segundo ele, fortalecer essa comunicação também exige compreender como a população percebe o sistema público de saúde.

“Hoje ainda estamos no desafio de mostrar o SUS para o usuário, mas acho que o passo importante para nós é entendermos como esse usuário o vê, para podermos aprimorar as nossas práticas e talvez até mudar um pouco essa cultura hospitalocêntrica instalada nele”. Ele ressalta que a comunicação do SUS deve ter um papel social e não mercadológico. “A gente não quer vender o SUS. Quer mostrar que ele é um sistema robusto, que funciona e que também enfrenta problemas”, sintetiza.

Hara chama atenção para o papel da mídia comercial na construção de uma imagem frequentemente negativa do SUS — baseada em atrasos, filas e falhas de gestão — sem considerar as complexidades ou avanços envolvidos. “Esse cenário não é neutro. Ele se insere em um contexto de forte concentração midiática no Brasil, em que poucos grupos controlam grande parte do fluxo informacional, frequentemente atravessado por interesses comerciais e conflitos de interesse”, aponta.

Para ela, fortalecer o SUS também exige consolidar políticas para democratização da comunicação e construir ecossistemas informacionais mais plurais, acessíveis e orientados pelo interesse público.

Débora Pinheiro acredita que uma política nacional de comunicação pode tornar o SUS menos vulnerável à desinformação e ampliar o acesso da população aos serviços e informações do sistema. Segundo sua avaliação, grande parte da dificuldade que as pessoas enfrentam para acessar o SUS ocorre por deficiências e fragilidades na sua comunicação.

E a Política Nacional de Comunicação Pública do SUS, como vai?

Encerramento da 17ª CNS: Conferência marcou aprovação da política de comunicação do SUS – Crédito: Augusto Coelho

Em 2026, a subcâmara de Comunicação em Saúde apresentou à Câmara Técnica de Saúde Digital e Comunicação em Saúde do Conselho Nacional de Saúde (CNS) uma Nota Técnica, com diretrizes para a elaboração da Política Nacional de Comunicação Pública do SUS. O documento já passou por duas comissões do CNS e ainda será apresentado à Mesa Diretora e ao Pleno do Conselho.

A conselheira Débora Melecchi, coordenadora da CTSDCS, comenta a sensação de conduzir um momento histórico para o SUS, mas divide o feito: “Essa construção é coletiva e uma deliberação do controle social. É uma grande responsabilidade e o cumprimento de um compromisso político com o país, com a participação social e com o SUS”.

Ela lembra, porém, que a aprovação da política não encerra a mobilização. E diz não ser possível prever em quanto tempo a política estaria formalizada. “Na verdade, a luta é contínua: primeiro para criar a política e depois para implementá-la”.

Débora lembra que além da produção técnica e a construção junto ao controle social, é preciso avaliar o cenário político de cada momento. E ressalta a importância de se continuar debatendo a pauta nos encontros prévios à 18ª CNS, como as conferências municipais e estaduais, até que se chegue à etapa nacional.

Já Débora Pinheiro, representante da Associação Brasileira de Comunicação Pública na CTSDCS, participou da elaboração da Nota Técnica e defende que a futura política seja pensada de forma estruturante, sem perder de vista a diversidade social e identitária do país.

“Há uma expectativa que uma política de comunicação abarque nominalmente todos os segmentos — como a política de comunicação da população negra, de comunicação das pessoas com deficiência, da população indígena, de gênero etc. Só que não é juntando todas essas políticas que a gente vai ter uma política de comunicação do SUS”, diz. “Nós precisamos pensar numa política sistêmica, sem reproduzir fragmentações”, resume.

Por uma comunicação com os princípios do SUS

7ª Reunião da Câmara Técnica de Saúde Digital e Comunicação em Saúde (CTSDCS), realizada em março de 2026. — Foto: Daniel Zimmermann/Ascom/CNS
7ª Reunião da Câmara Técnica de Saúde Digital e Comunicação em Saúde (CTSDCS), realizada em março de 2026 — Foto: Daniel Zimmermann/Ascom/CNS

O gerente de comunicação do Conass, Marcus Carvalho, avalia que nem todos na pasta da Saúde reconhecem a dimensão estratégica de uma política de comunicação para o SUS. E arrisca um motivo: “Isso porque não se tem uma política [de comunicação] na Educação, na Segurança, nas outras pastas. Então, às vezes, para quem não está no dia a dia do SUS, essa incompreensão também cria alguns entraves”, afirma. 

Daí a importância que a política seja pautada pelos preceitos do campo da Comunicação e Saúde, que defende um modelo de comunicação alinhado aos princípios estruturais do SUS, como relembra o pesquisador da Fiocruz, Rodrigo Murtinho. “A política de comunicação do SUS não pode perder de vista os princípios da participação social, equidade e integralidade. É preciso pensar a comunicação de uma forma ampla, democrática e participativa”, diz. 

Hara Flaeschen amplia a reflexão: “Uma política de comunicação para o SUS também precisa impulsionar um projeto de comunicação para o Brasil”. E Débora Pinheiro conclui subindo ainda mais o tom: “Precisamos entender a comunicação como elemento de fortalecimento da democracia e da soberania da população brasileira”.

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