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A expressão “Saúde Única” ou “Uma Só Saúde” ganhou espaço nos últimos anos em debates relacionados a temas como mudanças climáticas, pandemias e emergência de doenças transmitidas entre animais e humanos. Traduzida do termo inglês “One Health”, a proposta parte da ideia de que saúde humana, animal, vegetal e ambiental estão interligadas e exigem respostas integradas.

Incorporada recentemente à agenda institucional brasileira, a abordagem passou a mobilizar pesquisadores, gestores e organismos internacionais, mas também despertou críticas no campo da saúde coletiva. De um lado, está a defesa de que o conceito permite fortalecer ações intersetoriais diante de crises cada vez mais complexas. De outro, a crítica de que representa um retrocesso a modelos biomédicos já superados pela noção de determinação social da saúde e abre espaço para interesses de corporações estrangeiras, que colocam sob ameaça os avanços do SUS e da saúde coletiva no Brasil.

Nesta edição, Radis convida dois especialistas que apresentam diferentes pontos de vistas sobre os caminhos e os impasses da Saúde Única no Brasil.

Uma Só Saúde: diálogo e integração para a melhoria da saúde brasileira

Por David Soeiro Barbosa*

A pandemia de covid-19 evidenciou que respostas fragmentadas causam falhas catastróficas. Situações como esta confirmam que a saúde e o bem-estar humano são indissociáveis de um trabalho compartilhado entre diferentes setores. A ideia central da Uma Só Saúde (Saúde Única/One Health/Una Salud) baseia-se na interdependência entre saúde humana, animal, vegetal e ambiental. 

Problemas como mudanças climáticas, perda de biodiversidade, aumento da poluição, epidemias/pandemias, emergência e reemergência de doenças zoonóticas e transmitidas por vetores, resistência aos antimicrobianos, riscos na segurança dos alimentos e insegurança alimentar requerem ações complexas, transdisciplinares e intersetoriais, incluindo áreas para além do setor saúde, como agricultura, meio ambiente, educação, ciência e tecnologia, desenvolvimento social, planejamento urbano, indústria, energia, saneamento, turismo, relações exteriores, comércio, economia, defesa, comunicação, dentre outros. 

Longe de ser uma “solução” para todos os problemas ou uma teoria que disputa espaço com a nossa consolidada saúde coletiva, a Uma Só Saúde surge como abordagem para operacionalizar a governança intersetorial e fortalecer o SUS.

Integração que nasce no território

Esta abordagem fundamenta-se em epistemologias de povos originários, que desenvolveram visões holísticas sobre a interdependência entre humanos, animais, plantas e ambiente. No Brasil, essa visão nasce “de baixo para cima” nos territórios, nas pesquisas e nas práticas dos serviços de saúde, mesmo com dificuldades na sua operacionalização e governança. O reconhecimento institucional veio com a criação do Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde (Decreto nº 12.007/2024). 

Ao reunir 20 órgãos e entidades federais, o país cria uma estrutura inédita de governança intersetorial para o enfrentamento de desafios que requerem que tiremos os setores das suas “caixas” e passem a trabalhar de forma conjunta. No entanto, necessita-se que ela continue expandindo e agregando as universidades, a sociedade civil organizada e o controle social, o que tem sido feito no comitê, atualmente, por meio dos grupos de trabalho, transformando diretrizes técnicas em ações reais a serem implementadas nos diferentes territórios.

Desafios reais

Nossa história é marcada por emergências de saúde pública de origem zoonótica como a influenza A H1N1, a mpox, as epidemias de zika e de febre amarela, além dos riscos atuais com a influenza aviária H5N1, confirmando que a maioria das doenças emergentes têm origem em animais silvestres. Além disso, desastres decorrentes de ações humanas evidenciam a urgência de respostas integradas, como no contexto das enchentes no Rio Grande do Sul, secas no Amazonas e queimadas no Cerrado e Pantanal, além dos desastres em barragens de mineração que se configuram como crimes socioambientais graves, interconectados a um modelo econômico capitalista predatório dominante. Enfrentamos ainda a “pandemia” da resistência aos antimicrobianos, onde o uso indiscriminado tem criado microrganismos multirresistentes podendo nos levar a crises sem precedentes no sistema de saúde.

Crise climática, iniquidades em saúde e a força do SUS

A abordagem de Uma Só Saúde deve ser entendida sob a lógica do fortalecimento da governança intersetorial e do SUS, incorporando o acúmulo da saúde coletiva e da participação social. O Programa Brasil Saudável: Unir para Cuidar (2024) representa uma resposta alinhada à Agenda 2030 da ONU para eliminar doenças determinadas socialmente. 

A COP 30, em Belém, reforçou que a crise climática é uma crise de saúde. A convergência entre o Plano de Ação de Belém, o AdaptaSUS e o Plano Nacional de Uma Só Saúde é o caminho para operacionalizar ações concretas diante desta crise. Precisamos reconhecer que a saúde humana é intrínseca à saúde do planeta, devendo ser pautada pela equidade e justiça climática.

David Soeiro Barbosa é médico veterinário, epidemiologista, professor e pesquisador em saúde pública. Doutor em Epidemiologia em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), foi visitante na Harvard School of Public Health e fez intercâmbio na Organização Mundial da Saúde (OMS). Foi professor visitante em programa de pós-doutorado na London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM). É professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais. Atual presidente da Associação Brasileira de Saúde Única (Abrasuni).

One Health: Modelo superado e disputa por hegemonia

Por Lia Giraldo*

Em 2023, sem debate, foi oficializada a abordagem One Health (Saúde Única, OH) no Brasil, conforme agenda internacional. O conceito, importado dos EUA, cunhado no início dos anos 2000, baseia-se no modelo biomédico (tríade agente-hospedeiro-ambiente, de Levell e Clark), superado no Brasil nos anos 1970, no contexto latino-americano, quando se construiu a compreensão do processo da determinação social da saúde. A movimentação dessa aliança ignora os avanços já consolidados no país, pautando-se por ocultamentos de interesses, gerando riscos à soberania da política de saúde no país.

A justificativa para a OH ganhou força com o aumento das zoonoses e epizootias no final do século 20 e começo do século 21, somado à crise da resistência microbiana aos antibióticos, especialmente aquela originada no uso de agrotóxicos que destroem a biodiversidade do solo e na pecuária industrial, responsável por cerca de 70% desse fenômeno. Gens e enzimas indicadores dessa resistência estão disseminados no ambiente — solo, água, plantas, animais e humanos.

Embora esses problemas de zoonoses e doenças de origem ambiental estejam identificados há longo tempo como decorrentes do modo de produção predatório, a abordagem OH, baseada no modelo biomédico reducionista do início do século 20, o reafirma, embora este não tenha sido capaz de solucionar tais questões até hoje. Paradoxalmente a One Health, nos EUA e agora no mundo, sem a devida crítica, reafirma e mantém o modelo limitante, inclusive sem pontes com a formulação da própria OMS sobre determinação social da saúde.

A OH, apoiada por fundações filantropo-capitalistas estadunidenses e pelo Banco Mundial, funciona com validação corporativa, replicando o modelo hospitalocêntrico flexneriano, também difundida pela Fundação Rockefeller. Busca hegemonia, especialmente no Sul Global, como padrão imposto principalmente aos países de economia dependente, de modo colonialista.

A pandemia de covid-19 abriu espaço para a ONU e corporações do agronegócio e ultraprocessados ampliarem sua governança global. Ao lado de agências como Usaid [Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA] e USDA [Departamento de Agricultura estadunidense] — com histórico de interferência no Brasil antes e durante o golpe militar-empresarial de 1964 —, essas entidades em aliança empresarial e organismos multilaterais apresentam a OH como parcerias público-privadas (PPPs) sob o rótulo de “inovação”. 

Na prática, visam frear regulações, desregulando o marco legal, o controle e a fiscalização dos processos produtivos do agronegócio e da mineração, entre outros poluidores. Embora a abordagem One Health (OH) prometa combater crises sanitárias e climáticas, suas alianças na realidade protegem os interesses que geram os desequilíbrios socioambientais.

O que nos chama atenção é a contradição entre a promessa de uma “saúde única” retórica idealizada e a manutenção de um modelo de produção que expropria natureza e sociedade, gerando processos de colapso ecológico. A OH, ao focar na vigilância da saúde mediante um controle epidemiológico linear e no descuido do direito à saúde, que no Brasil é dever do Estado, pode se tornar um “cavalo de troia” para a hegemonia corporativa no SUS e sua consequente privatização.

One Health no Brasil, via Decreto nº 12.007/2024, ignorou os princípios e diretrizes da Constituição de 1988 e do SUS, adotando uma visão funcionalista. Em vez de focar na prevenção pelas determinações socioambientais, o modelo prioriza uma lógica de mercado, fragilizando a concepção da saúde coletiva brasileira. É urgente separar o desenvolvimento técnico-científico necessário da captura política por agentes econômicos. 

O SUS deve permanecer universal, integrado e participativo, baseando-se na determinação socioambiental do processo saúde-doença. Não podemos aceitar que a saúde pública se limite a respostas adaptativas para crises e colapsos ambientais como se fossem fatalidades inevitáveis, atuando nos danos provocados pelos setores que lucram com a degradação do ambiente e da vida.

■ Lia Giraldo da Silva Augusto é médica (USP), mestra e doutora em Medicina (Unicamp). Líder de Pesquisa no CNPq de 1997 a 2013, é pesquisadora titular aposentada da Fiocruz e professora adjunta aposentada da UPE. Especialidades em: Pediatria (USP), Saúde Pública (USP) e Medicina do Trabalho (Fundacentro). Estudos clínicos, epidemiológicos e toxicológicos para agravos à saúde. Criou o Laboratório de Saúde, Ambiente e Trabalho na Fiocruz Pernambuco; integra o GT Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes).

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