Joana D’Arc de Sena, 40 anos, morava em Juiz de Fora (MG), com o marido e a filha, hoje com 4 anos, quando precisou se mudar para a capital mineira, a 266 quilômetros, para cuidar da mãe Maria Salete, de 75 anos. Dona Maria convive com a doença de Parkinson há 18 anos e está no início de um processo demencial. Joana tem dois irmãos. Um deles morava com a mãe, mas disse não poder cuidar mais dela.
Dona Maria, apesar do Parkinson, tinha uma vida com independência, mas após uma queda e uma fratura no braço, foi perdendo mobilidade e se tornando dependente do filho, até que Joana precisou se mudar para Belo Horizonte, há três anos.
Além de cuidar da filha e de um bebê de dois meses, Joana é responsável pelos cuidados domésticos e por dar suporte à marcenaria do marido. Dona Maria precisa de seu auxílio para tomar banho, se alimentar e se locomover, pois o Parkinson prejudica a força muscular e o equilíbrio, aumentando o risco de uma nova queda.
A rotina puxada de Joana começou a ser amenizada no início de 2025 quando soube, no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), perto de sua casa, da possibilidade de inscrever a mãe no Programa Maior Cuidado, da Prefeitura do município, para receber o apoio de cuidadores profissionais.
Duas cuidadoras passaram a se revezar três vezes por semana, das 8h às 11h30, na assistência à dona Maria, que era dona de casa e trabalhava, às vezes, como babá para ajudar na renda. Em cada expediente, a cuidadora dava banho; servia alimentação; administrava os remédios; estimulava a cognição com jogos e pintura e caminhava na rua, quando a pensionista estava se sentindo melhor.
“Elas conseguem preencher a manhã dela, com qualidade de vida, que, às vezes, o familiar que cuida não consegue dar essa total atenção, porque está atarefado com outras questões da dinâmica da casa”, afirma. Joana lembra da dificuldade que era deixar a mãe sozinha em casa por alguns minutos, enquanto ia ao supermercado.
“Será que ela caiu? Será que levantou? Porque ela tem esses lapsos de não se lembrar que está doente. Então, simplesmente pode querer beber água, levantar, ter aquele primeiro ímpeto, só que ela não tem mais força nem equilíbrio e aí acaba acontecendo um acidente”, explica.
Joana percebe o impacto positivo do trabalho das cuidadoras na qualidade de vida da mãe: “Faz toda diferença na vida do idoso. No período da tarde, ela está bem menos ansiosa, mais tranquila, porque teve o dia preenchido”, conta.
No final de sua gestação, as cuidadoras passaram a ir de segunda a sexta, durante a manhã e à tarde. “É um programa muito bom, porque eu não teria condições de pagar, e imagino que vai precisar cada vez mais, com a população ficando mais idosa”, constata.
Joana fica mais tranquila quando as cuidadoras estão em sua casa, porque já houve momentos em que não conseguia parar o que estava fazendo para prestar o cuidado imediatamente. “É de cortar o coração você imaginar que ela está ali precisando, mas você não pode ir lá agora. Com o programa, sabemos que ela está limpinha, bem cuidada, não corre risco de ter nenhuma ferida. A dignidade dela está ali e isso não tem preço”, avalia.
Em nota, a Prefeitura de Belo Horizonte informou à Radis que o Programa Maior Cuidado apoia famílias com pessoas idosas dependentes e semidependentes desde 2011. De forma geral, não é permitido exceder 20 horas semanais em cada casa. O programa conta com 200 cuidadores e 10 supervisores que atuam diretamente nos domicílios, enquanto os CRAS e os Centros de Saúde acompanham as famílias e realizam as inserções conforme os critérios estabelecidos. A iniciativa integra a atenção primária à saúde e a proteção social básica, promovendo o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.
Os cuidadores realizam atividades vinculadas à assistência social e indicadas pelas equipes de saúde, não executando tarefas de profissionais da saúde, como enfermagem e fisioterapia. A Prefeitura também explica que as pessoas cuidadoras do programa têm formação no curso de Cuidadores de Idosos e escolaridade de nível médio completo. A carga horária do cuidador é de 40 horas semanais.

Quem cuida
Marco Antônio dos Santos, 33 anos, atua no Programa desde julho de 2019. Ele realiza por dia até quatro atendimentos, com duas horas de duração cada. Atualmente acompanha três idosos. Trabalha de segunda a sexta, e recebe, por mês, uma média de R$1.800 líquidos, com vale-alimentação diário de R$ 33. “Percebo que é um trabalho que as pessoas admiram e respeitam, partindo do ponto de vista do quão complexo é cuidar de pessoas idosas, analisando o desgaste físico e mental”, avalia. O cuidador, que antes trabalhava como auxiliar administrativo numa empresa de autopeças, sente a necessidade de regulamentação da profissão, com piso salarial, jornada de trabalho e outros direitos garantidos.
“Sempre vou bater na tecla de que precisamos pensar em políticas públicas que amparem e estruturem a garantia de direitos, a dignidade e a qualidade de vida tanto da pessoa idosa quanto da pessoa que cuida”, afirma.
Marco conta que seu trabalho é auxiliar nas atividades diárias, como banho, higiene bucal, alimentação, organização do ambiente, acompanhar os idosos em consultas médicas dentro do território de atuação do programa (quando articuladas com antecedência). Além disso, também desenvolve atividades lúdicas e de raciocínio lógico e faz o acompanhamento em alguma atividade sociocultural.
Ele explica que o cuidado busca fortalecer o vínculo familiar e social, prevenir negligências e favorecer a garantia de direitos da pessoa idosa, assim como evitar o isolamento social, muito comum durante essa fase da vida.
“Esta pessoa idosa é uma figura com um valor histórico e afetivo. Cada família tem sua história, virtudes e peculiaridades”, analisa. Marco conta também que um dos objetivos do Programa é dar um “respiro” aos familiares, pois é uma responsabilidade muitas vezes invisibilizada, que frequentemente acaba recaindo sobre outro familiar também idoso.
O cuidador auxilia um idoso de 71 anos, com sequelas de poliomielite, impossibilitado de caminhar. Permanece na cadeira de rodas ou acamado, comunica-se pouco, principalmente por gestos, e apresenta dependência total para as atividades de vida diária. Sua principal cuidadora é a irmã, de 68 anos, que assume os cuidados na maior parte do tempo e utiliza o período do atendimento para resolver questões pessoais.
Marco também atende um idoso de 78 anos, com doença de Alzheimer e sequelas de AVC. Tem comunicação limitada, mas consegue realizar suas atividades diárias de forma independente, ainda que em ritmo mais lento. Recebe estímulos cognitivos regularmente e realiza caminhadas quase diárias até à praça próxima da residência. Permanece a maior parte do dia sozinho, pois esposa e filhos trabalham fora.
A última pessoa que Marco acompanha é uma senhora de 94 anos, acamada, com Alzheimer em estágio avançado. Não fala e possui atrofias musculares, encontrando-se bastante debilitada. Ele explica que o cuidado é realizado por duas pessoas devido à complexidade e ao esforço físico necessário durante os procedimentos. A filha, de 63 anos, desenvolveu problemas graves na coluna em decorrência do manejo prolongado da mãe. A senhora reside em local de difícil acesso, em uma moradia simples, convivendo com netos e bisnetos que oferecem pouca atenção direta às suas necessidades.

Para ter acesso ao programa Maior Cuidado (BH), a pessoa precisa:
- Ter 60 anos ou mais
- Residir em território de abrangência do CRAS e ser atendido pelo Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família
- Ter cadastro e ser atendida pelo Centro de Saúde localizado no território de abrangência do CRAS
- Ser classificada como pessoa idosa dependente ou semidependente, conforme avaliação clínico-funcional realizada pela equipe do Centro de Saúde
- Alcançar, no mínimo, 60 pontos no Instrumental de Avaliação de Inserção no Programa
- Estar inscrita no CadÚnico, com renda familiar mensal de até três salários mínimos ou renda per capita de até meio salário mínimo
Fonte: Prefeitura de Belo Horizonte



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