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A história mostra: as guerras costumam provocar mais mortes por doenças do que pelos próprios combates. A constatação é do médico patologista e pesquisador Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Ele lembra que epidemias e doenças associadas às más condições sanitárias acompanharam praticamente todos os grandes conflitos já documentados. “Os conflitos armados provocam mais mortes pelo colapso sanitário e a interrupção de tratamentos do que pelos próprios ferimentos causados pelas armas”

Paulo cita as “Cruzadas” [entre os séculos 11 e 13], por exemplo, quando exércitos inteiros adoeciam devido à contaminação da água, à falta de higiene e à aglomeração em acampamentos. Séculos depois, durante a Primeira Guerra Mundial [1914 a 1918], as trincheiras criaram condições ideais para a disseminação de doenças infecciosas. “Normalmente se pensa que as guerras levam ao adoecimento e à morte apenas por causa dos ferimentos. Mas, desde as Cruzadas, os registros históricos mostram que o número de mortes causado pelo colapso sanitário e pelas doenças infecciosas costuma ser muito maior, chegando frequentemente ao dobro das mortes provocadas pelas armas”, afirma.

O pesquisador conta que há registros de que o primeiro grande conflito mundial espalhou a gripe espanhola [hoje conhecida como H1N1], responsável por matar até milhões de pessoas. “A Primeira Guerra Mundial não apenas favoreceu a disseminação da gripe espanhola, que depois se espalhou pelo mundo, mas também de diversas doenças associadas à precariedade sanitária”, explica.

Ele lembra ainda que, na guerra entre Estados Unidos e Espanha, no final do século 19, a febre amarela foi responsável por mais mortes do que os confrontos militares, fato que impulsionou pesquisas que posteriormente contribuíram para o desenvolvimento de estratégias de controle da doença.

O colapso sanitário que acompanha os conflitos

Para o pesquisador, os conflitos contemporâneos reproduzem os mesmos mecanismos observados ao longo da história. A diferença é que hoje eles podem ser acompanhados em tempo real por meio das redes sociais e dos meios de comunicação.

As imagens que chegam diariamente da Faixa de Gaza, da Ucrânia e do Sudão revelam não apenas a destruição provocada pelos bombardeios, mas também o deslocamento de milhões de pessoas, a escassez de alimentos e o colapso dos serviços básicos.

“Existe a violência direta, mas existe também o deslocamento das pessoas. Quando isso acontece, ocorre o colapso da infraestrutura sanitária, há precariedade alimentar, falta de água e uma convivência extremamente próxima em acampamentos improvisados. Isso leva ao adoecimento, à desnutrição e à perda de vidas, principalmente entre crianças em fase de desenvolvimento”, afirma.

A destruição de sistemas de abastecimento de água e de redes de esgoto favorece surtos de doenças infecciosas, enquanto a interrupção das campanhas de vacinação aumenta o risco de reemergência de enfermidades já controladas. Ao mesmo tempo, a destruição de hospitais e unidades de saúde afeta diretamente milhões de pessoas que dependem de atendimento contínuo.

Quando o tratamento simplesmente desaparece

A dimensão desse problema aparece também nos números. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 8,5 mil ataques contra serviços de saúde foram registrados em zonas de conflito entre 2018 e 2025, resultando em mais de 3,8 mil mortes e 6,2 mil feridos entre pacientes e profissionais de saúde. Os registros abrangem 22 países e territórios e revelam uma tendência preocupante de ataques a estruturas que deveriam estar protegidas pelo Direito Humanitário Internacional.

Entre os mais vulneráveis estão os pacientes com doenças crônicas. Em cenários de guerra, o acesso a medicamentos, consultas e exames pode desaparecer de um dia para o outro. “Pessoas com diabetes, hipertensão, doenças respiratórias, transtornos mentais ou câncer deixam de ter acesso ao tratamento. Tudo isso acaba. Os medicamentos deixam de chegar, os serviços são interrompidos e as equipes de saúde muitas vezes não conseguem mais trabalhar”, explica o pesquisador.

O resultado é o agravamento de doenças que, em condições normais, poderiam ser controladas. Pacientes oncológicos perdem sessões de quimioterapia, pessoas com diabetes e hipertensão deixam de receber medicamentos e pessoas com transtornos mentais ficam sem acompanhamento especializado. Segundo Paulo, essas mortes raramente aparecem nas estatísticas dos conflitos, embora representem uma parcela significativa do impacto humano provocado pelas guerras.

Crianças e idosos entre os mais afetados

Os efeitos do colapso sanitário atingem toda a população, mas costumam ser particularmente severos entre crianças e idosos. No caso das crianças, a combinação de desnutrição, insegurança alimentar, interrupção da vacinação e deslocamentos forçados pode comprometer o desenvolvimento físico e cognitivo por toda a vida.

“Essas condições afetam especialmente crianças em fase de crescimento e desenvolvimento, que passam a conviver com carências nutricionais, doenças infecciosas e ausência de cuidados básicos”, observa. Já os idosos enfrentam dificuldades adicionais devido à maior dependência de medicamentos, tratamentos contínuos e redes de apoio comunitário.

As feridas invisíveis da guerra

Os impactos da guerra não se limitam às doenças infecciosas ou à falta de assistência médica. O estresse extremo provocado pelos ataques produz efeitos imediatos sobre o organismo.

“Os efeitos são bem documentados. No momento do ataque, e também diante da perspectiva de novos ataques, ocorre um grande aumento das doenças cardiovasculares. A pressão arterial sobe, aumenta o estresse e há mais casos de arritmia, infarto e acidente vascular cerebral”, afirma Paulo.

O medo constante, a sensação de ameaça permanente e a incerteza sobre o futuro desencadeiam respostas fisiológicas intensas, capazes de aumentar significativamente o risco de eventos cardiovasculares graves.

Se os danos físicos podem ser medidos em números de mortos e feridos, as consequências emocionais costumam ser mais difíceis de quantificar. Para o pesquisador da USP, uma das dimensões mais devastadoras dos conflitos é a perda dos vínculos sociais e afetivos que sustentam a vida cotidiana.

“Acaba também a alma um pouco das pessoas. Quando você perde tudo, não vê perspectiva de retornar à vida que tinha, perde as relações afetivas e sociais da sua comunidade e os seus bens materiais. Muitas vezes precisa abandonar a região onde viveu toda a vida. Isso é absolutamente devastador para a saúde mental.”

O especialista destaca que transtornos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático podem acompanhar sobreviventes durante anos ou décadas. Embora crianças frequentemente apresentem maior capacidade de adaptação, os idosos tendem a sofrer impactos emocionais ainda mais profundos. “As raízes construídas ao longo da vida, os amigos, as memórias e os laços afetivos são arrancados. A reconstrução emocional se torna extremamente difícil”, afirma.

Crise de saúde pública

Para Paulo Saldiva, compreender os efeitos das guerras exige olhar além dos campos de batalha. Os conflitos armados não destroem apenas edifícios e infraestrutura; eles comprometem as condições mínimas necessárias para a manutenção da vida.

Da falta de água potável ao aumento das doenças infecciosas, da interrupção de tratamentos ao sofrimento mental, os impactos se estendem muito além do período dos combates e podem marcar gerações inteiras.

“Quando a guerra chega, não é apenas a infraestrutura que é destruída. São destruídas também as condições que permitem às pessoas viver, cuidar da própria saúde e manter sua dignidade”, conclui.

Ataques à saúde

Números globais (2018–2025)

  • Mais de 8,5 mil ataques contra serviços de saúde
  • Mais de 3,8 mil mortes entre pacientes e profissionais de saúde
  • Mais de 6,2 mil pessoas feridas
  • Ataques documentados em 22 países e territórios

Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)

O que diz o Direito Humanitário Internacional

Pelo Direito Humanitário Internacional, hospitais, ambulâncias, pacientes e profissionais de saúde não podem ser alvo de ataques durante conflitos armados. A Resolução 2.286 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em 2016, condena ataques contra serviços de saúde e exige proteção a civis e trabalhadores humanitários. Organizações internacionais, porém, afirmam que os ataques vêm aumentando e apontam dificuldades de responsabilização internacional em diversos conflitos recentes.

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