Goiás, julho de 2024. Uma adolescente de 13 anos precisou sofrer com muitas dores, por mais de 60 horas, durante um procedimento de aborto. A menina já estava com praticamente 30 semanas de gravidez por ter tido o direito legal ao aborto negado quando estava com 18 semanas.
O pai da adolescente foi o responsável pela argumentação com a juíza, alegando que a filha tinha um “namorado” de 24 anos. Após uma batalha legal, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu o direito à interrupção. Pelo Código Penal Brasileiro, crianças e adolescentes com até 14 anos não têm capacidade de consentimento em ato sexual — configurando estupro de vulnerável.
O caso chamou atenção da imprensa e das pessoas nas redes sociais, com forte pressão popular para que a adolescente desistisse da interrupção da gestação. O mesmo aconteceu com outra adolescente de 13 anos, em Santa Catarina, em maio de 2025.
A menina e sua mãe precisaram enfrentar uma batalha judicial para ter acesso ao aborto legal e enfrentaram forte pressão de grupos “pró-vida”, como são chamados segmentos conservadores contrários ao aborto, mesmo em casos previstos em lei. Abaladas, acabaram desistindo do procedimento. Com 14 anos, a adolescente teve que lidar com a tristeza profunda após ter sofrido com ideações suicidas, enquanto sua mãe enfrentava dificuldades financeiras para criar o bebê.
As notícias se repetem pelo Brasil. É uma criança de 10 anos grávida que precisou ir para outro estado para garantir o direito à interrupção; outra que teve de mudar de cidade com a família, pois começou a sofrer perseguições depois que a juíza divulgou no WhatsApp sobre a gravidez; e mais outra, de 12 anos, grávida pela segunda vez, tendo o direito negado nas duas vezes.
O argumento mais utilizado na pressão para que mulheres e meninas não tenham acesso ao aborto legal é a defesa da vida, o que geralmente é encabeçado por instituições que se declaram de fé cristã. A legislação brasileira permite o aborto em três situações: em caso de estupro; quando há risco à vida da mulher; e anencefalia do feto, ou seja, quando é confirmada a impossibilidade de vida fora do útero (Radis 258).
“Se a gente defende a vida, a gente precisa defender a vida das mulheres, na sua plenitude”
Glenda Sábio
O movimento Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) tem um posicionamento diferente dessas organizações contrárias ao aborto. São mulheres que se juntaram para defender o direito de decidir pelo próprio corpo e por justiça reprodutiva. “A gente sempre fala que defende a vida, porque quando olhamos para as estatísticas e o que implica o aborto inseguro no país, não podemos dizer que estamos presenciando o cuidado com essas vidas”, explica Carla Angelini, de 38 anos, coordenadora de Desenvolvimento Institucional do CDD. O cuidado com a vida e a dignidade das mulheres está, segundo ela, no centro da espiritualidade e do ativismo do grupo.
Em março de 2024, a edição 258 de Radis mostrou que o aborto acontece no Brasil, legalizado ou não. Agora, conversamos com mulheres católicas que, mesmo sem renunciar à sua fé, entendem que garantir o direito de decidir sobre o próprio corpo é defender a vida das mulheres em sua integralidade.

Fé que acolhe
Entre 2012 e 2022, 483 mulheres morreram por aborto em hospitais da rede pública de saúde do Brasil, segundo os números oficiais. Mais de 1,7 milhão de internações foram registradas no Sistema de Informações Hospitalares (SIH-SUS) como gravidez que termina em aborto. Dentre elas, mais da metade das hospitalizações foram registradas como abortos espontâneos. No entanto, o maior número de mortes ocorreu nos casos classificados como “falha na tentativa de aborto”. Os dados revelam que a cada 28 internações, uma mulher morre por tentativa falha de aborto, o que indica 140 vezes mais risco de óbito, segundo o levantamento para a série “Aborto é Cuidado” do site Gênero e Número, em parceria com a Revista AzMina e o Portal Catarinas.
Glenda Sábio, enfermeira e ativista do CDD, de 35 anos, ressalta que o aborto legalizado é uma questão de saúde pública. Na sua experiência, já cruzou com “histórias de sofrimento” de mulheres que buscaram alternativas clandestinas e outras que tinham direito ao aborto legal e não conseguiram e, por isso, tiveram que levar a gravidez até o fim.
“Se a gente defende a vida, a gente precisa defender a vida das mulheres na sua plenitude. Então, não adianta eu ser em defesa da vida só do feto enquanto está na barriga. Quando nasce: ‘se vira’”, declara a enfermeira. Glenda diz que luta para que a vida das mulheres seja preservada.
Ela defende a ideia de vida plena, pois foi esse o motivo que fez com que abandonasse o hábito de freira. Criada em uma comunidade religiosa desde criança em Porto Alegre, Glenda achou que o seu caminho para cuidar das pessoas seria se tornar uma religiosa consagrada pela Igreja. Contudo, ao se tornar freira, fez um aprofundamento da própria fé e percebeu que se sentia uma pessoa livre e amada por Deus para que pudesse desenvolver uma vida plena.
A partir da Teologia da Libertação, e próxima da Pastoral da Juventude, ela se encontrou ao colocar sua prática de fé no cuidado com a vida, na defesa da saúde integral e da proteção das mulheres. Glenda percebeu que a Igreja Católica possui fragilidades que impactam em sua vida como mulher, vendo algumas doutrinas que reforçam violências. Nesse momento, a jovem decidiu deixar a vida religiosa na instituição, mas não abandonou a fé. Hoje cursa a graduação em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e atua como professora do curso técnico em enfermagem na Escola Técnica da Santa Casa de Porto Alegre, onde busca abordar a postura ética dos profissionais de saúde em defesa da vida plena em suas aulas.
Glenda se encontrou como ativista do movimento Católicas pelo Direito de Decidir, vendo outras mulheres com a mesma fé na defesa da justiça reprodutiva. A organização feminista, de alcance internacional, atua no Brasil desde 1993 e é composta por católicas que defendem a autonomia feminina, os direitos reprodutivos, o Estado laico e a legalização do aborto. Presente nas cinco regiões do país, a rede defende a liberdade de consciência e a justiça social.
Carla Angelini conta que elas acreditam em uma fé que acolhe as pessoas. Nascida na Argentina, a assistente social pela Universidade Nacional de Córdoba (UNC) e sanitarista mora há cinco anos no Brasil. Ela também participa da coordenação da Rede Latino-americana e Caribenha de Católicas pelo Direito de Decidir. Mestra em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e em Gênero, Feminismos e Cidadania pela Universidade Internacional de Andaluzia (UNIA), na Espanha, e doutoranda em Ciência da Saúde pelo Instituto Universitário do Hospital Italiano de Buenos Aires (IUHIBA), na Argentina. A ativista atuou na campanha nacional por aborto seguro e gratuito no país de origem e trabalha para que o Brasil siga o mesmo caminho de mobilização.

“Dizer que é ilegal, não faz com que as mulheres não precisem de abortos, o que faz é colocar as mulheres em lugares de práticas inseguras”
Carla Angelini
O que a Bíblia diz?
As católicas que fazem parte do movimento mostram que na Bíblia — livro que rege o cristianismo — não tem uma proibição ao aborto ou alguma referência ao ato como pecado. “Nem no Velho Testamento, nem no Novo, não tem trecho da Bíblia que proíba o aborto”, destaca Carla.
“Até Maria foi consultada para ser mãe de Deus. Essa é uma interpretação feminista da Bíblia”, pontua. A ativista conta que a Bíblia descreve como o anjo Gabriel pergunta para Maria se ela aceita conceber o filho de Deus, e ela fica em silêncio enquanto decide e dá o seu consentimento. A interpretação das mulheres de fé não é de uma Maria submissa, sofredora, mas uma mulher forte que decide o seu caminho.
Carla reafirma que é necessário repensar alguns trechos bíblicos. “Repensar de onde vem todas essas normas que a gente vai incorporando na vida, como a gente vai viver a sexualidade, como vamos nos relacionar, como vai ser a maternidade ou como vai ser a não-maternidade”, conta. Ela ressalta que é um processo de desconstrução do que sempre foi ensinado — e afirma que não vê um Deus mau e punitivista.
Especificamente sobre o aborto, Carla fala sobre a doutrina do probabilismo, que dentro do contexto católico indica que: onde há dúvida, há liberdade. “Se existe uma questão que moralmente não tem um consenso e há uma dúvida em relação a como você deve agir, você tem liberdade de consciência para tomar essa decisão”, explica. Ela fala que se uma pessoa católica está diante de uma gravidez indesejada, ela tem liberdade de consciência para decidir se continua ou não com essa gestação.
Glenda Sábio critica cristãos que fazem o que chama de “leitura superficial” de textos bíblicos, que reproduzem violência, e acabam seguindo cegamente líderes religiosos. “As pessoas pegam textos bíblicos que lhes convêm e sem uma interpretação correta do momento histórico em que eles foram escritos, transportam pra cá com uma leitura totalmente superficial”, destaca. A enfermeira explica que a Bíblia foi escrita em outra época e os ensinamentos devem ser refletidos a partir do contexto em que foram produzidos. Ela também aborda a questão das traduções ao longo dos séculos, que pode ter modificado o sentido do texto original a partir do interesse de quem as realizava.

O que a igreja diz
Nem sempre a Igreja Católica teve posicionamento contrário ao aborto. Por séculos a instituição se guiou pelas teorias da “animação tardia” de Santo Tomás de Aquino e de Santo Agostinho, que falava que a alma só seria infundida ao feto após o corpo estar formado, diferenciando a questão do aborto. Não era considerado homicídio nas fases iniciais da gestação.
O grande problema, à época, era utilizar o aborto para encobrir o adultério ou “fornicação”. A diretriz da Igreja Católica mudou quando o Papa Pio IX, na década de 1860, fez um acordo com a França, porque estavam em um período pós-guerra e precisavam aumentar a natalidade. A partir de então, o aborto é reconhecido como pecado equivalente, com reflexo na legislação. Além do pecado, também se torna crime.
Carla conta que, para o grupos de mulheres de fé, o entendimento é de que ser contra o aborto é um dogma do catolicismo. Por esse motivo, o CDD tem argumentado que existe o discurso oficial da Igreja e existe a realidade, o que as mulheres de fé fazem na prática. “Na última Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), mais de 80% das mulheres que abortaram eram mulheres de fé”, afirma. Com isso, elas defendem o diálogo, para pautar a defesa da vida das mulheres e a saúde pública.
O grupo também denuncia as estruturas patriarcais da Igreja que não consideram as vivências das mulheres e reproduzem violências de gênero históricas. O movimento tem sido constantemente atacado por grupos católicos que não reconhecem suas integrantes como da mesma religião em função dos posicionamentos defendidos.

Estado laico
Uma das principais bandeiras do movimento é a defesa do Estado laico, de garantir que as mulheres possam ter direito ao aborto sem essa questão ser atravessada pela religião. Mesmo com os casos previstos em lei, Carla considera a legislação insuficiente para a realidade brasileira. Ela pontua que “a ilegalidade da prática não faz com que ela se reduza”.
“Dizer que é ilegal, não faz com que as mulheres não precisem de abortos, o que faz é colocar as mulheres em lugares de práticas inseguras”, defende a assistente social. Ela relembra que a mortalidade materna ainda é alta no Brasil, considerando que nove entre dez mortes maternas podem ser evitadas, segundo o Ministério da Saúde. “Quando você vê as causas da mortalidade, são realmente evitáveis. E seria mais ainda se o aborto fosse legalizado”, afirma.
Carla também cita a assombrosa estatística de meninas estupradas que têm o direito de ter acesso a serviços de aborto legal, mas acabam se tornando mães. Ela reclama da hipocrisia: “Quais vidas se defende? Tem vidas que valem mais que outras?”. Segundo ela, há uma “ocupação” do neoconservadorismo religioso aliado à extrema-direita nos Poderes Judiciário, Legislativo e Executivo. “É uma agenda anti-direitos sexuais e reprodutivos bem forte”, explica.
A assistente social narra como funciona o que chama de rede setorial antiaborto: o profissional de saúde na atenção básica é contra o aborto e não quer fazer. De acordo com ela, o profissional diz: “eu não faço e não vou permitir que você faça”. Então, a rede socioassistencial e o Judiciário também negam e pressionam a família. “O que a gente vem percebendo é que eles estão cada vez mais articulados”, afirma.
Neste contexto, o princípio da laicidade é atacado. “A gente defende a laicidade do Estado porque permite a diversidade e a pluralidade no campo religioso. Se o Estado assumir uma postura religiosa, vai ser uma violação absoluta de todos os direitos”, declara Carla. “Vamos supor que eu passei por uma situação de violência sexual. Tenho direito ao aborto. Vou para o hospital, mas lá me falam: ‘O catolicismo diz para não fazer o aborto e essa é a política do Estado’. O que eu vou fazer? A laicidade é que vai garantir a liberdade de consciência”, completa.
Ética Profissional na Saúde
As Católicas pelo Direito de Decidir lançaram, em 2025, a cartilha “Ética Profissional e Ética Cristã: conversando a gente se entende”, que reúne reflexões sobre ética e moral para profissionais de saúde, principalmente em relação ao atendimento em situações de aborto.
Por se tratar de um tabu, muitas vezes meninas e mulheres não conseguem garantir o acesso ao direito de abortar por conta do posicionamento de profissionais de saúde. As entrevistadas de Radis contam que, acima de qualquer crença pessoal, o que deve ser seguido é a compreensão de que o aborto é um direito: garantir que seja feito de forma gratuita e segura é o primordial para preservar a vida de mulheres e meninas.
Acesse a cartilha em: https://bit.ly/cartilhaeticaprofissionalecrista.




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