As masculinidades não são naturais, nem únicas. Elas são construções sociais, históricas e culturais que ensinam aos homens como sentir, agir e se relacionar. Em uma sociedade marcada por desigualdades de gênero, raça e classe, determinados modelos de masculinidade são incentivados: aqueles que associam virilidade ao controle, autoridade à violência e afeto à posse. É nesse terreno que o feminicídio se torna possível, não como exceção, mas como expressão extrema de uma pedagogia social que autoriza homens a dominar mulheres.
O feminicídio não nasce no momento do crime. Ele é gestado em práticas cotidianas que normalizam o ciúme, deslegitimam a autonomia feminina e tratam o controle como demonstração de amor. Quando ainda meninos, aprendem que sentir é fraqueza, que o silêncio é virtude e que a agressividade é parte da identidade masculina, cria-se uma masculinidade incapaz de lidar com frustração, rejeição ou perda de poder. Essa formação emocional precária não é individual, é produzida e reforçada por instituições, discursos religiosos, meios de comunicação e práticas familiares.
Quando o amor deixa de ser compreendido como uma prática ética baseada em cuidado, respeito, responsabilidade e confiança, ele é substituído por relações de domínio. Assim, vínculos afetivos passam a ser organizados pela lógica da posse, não da reciprocidade. Nesse contexto, quando uma mulher decide encerrar uma relação, impor limites ou exercer sua liberdade, o que se rompe não é o amor, mas a fantasia de controle. O feminicídio emerge como tentativa extrema de restaurar uma masculinidade que se sente ameaçada.
Do ponto de vista da saúde pública, essas masculinidades produzem impactos profundos e duradouros. Mulheres submetidas à violência vivem sob estresse crônico, medo constante e adoecimento psíquico. Crianças que crescem em lares marcados pela violência doméstica apresentam maior risco de sofrimento mental, dificuldades de aprendizagem e reprodução futura desses mesmos padrões. Comunidades inteiras são atravessadas por lutos evitáveis, que fragilizam vínculos sociais e aprofundam desigualdades.
A naturalização da violência é reforçada por narrativas ainda presentes no cotidiano, como “crime passional”, “briga de casal” ou “ela provocou”. Ao tratar a violência como um desvio individual, a sociedade deixa de enfrentar o modelo de masculinidade que a sustenta e a legitima.
Enfrentar o feminicídio exige mais do que respostas punitivas. Exige políticas públicas comprometidas com a transformação das masculinidades: educação de gênero desde a infância, cuidado em saúde mental para homens, espaços de responsabilização e reconstrução emocional e fortalecimento das redes de proteção às mulheres. Prevenir o feminicídio é intervir antes da agressão, antes da ameaça, antes que o controle se transforme em morte.
Romper com masculinidades que matam implica reconstruir formas de amar que não se baseiam na posse, mas no cuidado, na escuta e na liberdade. Amar não é dominar, vigiar ou punir. Amar é um ato ético e político, capaz de sustentar relações que não produzem medo. Essa reconstrução não acontece apenas no plano individual: ela precisa ser sustentada por políticas públicas e práticas de cuidado que reconheçam a violência de gênero como um problema de saúde coletiva.
No âmbito do SUS, essa transformação começa na atenção básica, quando as equipes conseguem identificar sinais precoces de violência e relações abusivas, criando espaços de escuta que não culpabilizam as mulheres nem naturalizam o controle masculino. Passa também pelos Centros de Atenção Psicossociais (Caps), ao acolher homens em sofrimento sem dissociar a saúde mental de responsabilização, reconhecendo que sofrimento não pode ser convertido em agressão. A saúde coletiva tem papel central ao nomear o controle, o ciúme e a vigilância como expressões de violência, e não como conflitos privados ou questões morais.
As ações de educação em saúde, quando realizadas de forma territorializada e intersetorial, podem romper silêncios históricos, questionar pactos de cumplicidade entre homens e oferecer outras referências de vínculo, afeto e resolução de conflitos. Grupos reflexivos, estratégias comunitárias, trabalho em rede com assistência social, educação e justiça ampliam a capacidade de prevenção e deslocam o feminicídio do campo do inevitável para a intervenção possível.
O feminicídio não é um destino trágico nem um desvio individual. Ele é produzido por modelos de masculinidade que adoecem relações, famílias e territórios inteiros. E tudo o que é produzido socialmente pode e deve ser transformado, com cuidado, política pública e compromisso coletivo com a vida.
- Paloma Rodrigues Moreira é Coordenadora Nacional Antirracista da Aliança Nacional LGBTI+, ativista de direitos humanos, graduada em Serviço Social e Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF)






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