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O “Guia Nacional de Manejo das Condições Pós-Covid” foi lançado no começo de abril de 2026, depois de extensas revisões pela equipe do Ministério da Saúde (MS), como explicou Conceição Rezende, assessora especial do MS, em entrevista à Radis em novembro de 2025. A servidora disse que o Guia nasceu a partir da nota técnica nº 57/2023, que continha atualizações acerca das condições pós-covid.

No novo Guia, de 174 páginas e 225 referências bibliográficas, as condições pós-covid são definidas como: 

“(…) sinais, sintomas e/ou condições que continuam ou se desenvolvem quatro semanas ou mais após a infecção inicial pelo SARS-CoV-2 e que não podem ser justificadas por um diagnóstico alternativo. Essas condições podem melhorar, agravar ou serem recidivantes ao longo do tempo, com a possibilidade de evolução para eventos graves e potencialmente fatais, até mesmo meses ou anos após a infecção.”

De acordo com dados do documento, 25% das pessoas que tiveram covid-19 no Brasil relatam sintomas persistentes, após a fase aguda da infecção. O Guia Nacional de Manejo apresenta as principais condições pós-covid e orienta sobre como lidar com essas manifestações na assistência, além de apresentar os fluxos com as possibilidades relativas ao percurso assistencial das pessoas usuárias com condições pós-covid nas Redes de Atenção à Saúde (RAS) do Sistema Único de Saúde (SUS). 

O documento detalha o manejo na RAS, reforçando o papel da atenção primária como porta de entrada do sistema e a integração com reabilitação, telessaúde e com o Programa Agora Tem Especialistas. “O manual vai ajudar os profissionais a terem mais certeza sobre a anamnese que ele precisa para fazer o diagnóstico clínico”, afirma Conceição. 

O Guia Nacional atualiza e substitui documentos anteriores, como “Manual para avaliação e manejo de condições pós-covid na Atenção Primária à Saúde (APS)” e “Orientações sobre diagnóstico e tratamento de usuários com as condições pós-covid, ambos previamente publicados pelo Ministério da Saúde”. 

De acordo com o documento, os sinais e sintomas podem aparecer mesmo em assintomáticos ou leves e podem afetar vários sistemas: cardiovascular, gastrointestinal, respiratório, neuropsiquiátrico, endócrino, renal, musculoesquelético.

“A gente tem tentado adotar no Guia uma linguagem muito simples, exatamente para que não só os profissionais possam compreender, como os usuários possam criar mais autonomia em relação à sua própria saúde, porque isso é fundamental para o SUS. É um princípio da garantia da saúde”, lembra Conceição.

– Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

Documento multidisciplinar

Radis convidou especialistas e pacientes para comentarem o material. Maria Pia Diniz Ribeiro é médica infectologista e pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz). Desde 2020, ela se dedica também à assistência e pesquisa clínica em covid-19 e covid longa.

Para ela, o documento é ótimo para atualizar os materiais anteriores e visa orientar os profissionais que estão na linha de frente na rede básica de saúde. “Não é um documento médico. É multidisciplinar, para diversos profissionais da saúde, e fortalece a abordagem integral e individualizada do paciente”, afirma.

A médica diz que aumenta a visibilidade da doença para profissionais de saúde, dá suporte às condutas e aumenta a chance de diagnóstico, pois chama atenção para uma condição nova, que ainda está em investigação sobre mecanismos de ação, tratamento e prognóstico.

Atualmente, a pesquisadora conduz no Brasil o estudo internacional LC-Revitalize, que busca avaliar a eficácia de medicamentos no combate a sintomas persistentes, como fadiga extrema e dificuldade de concentração, após infecção pelo coronavírus. Ainda há vagas disponíveis para participar como voluntário da pesquisa. 

“Falhas relevantes e potencialmente iatrogênicas”, afirma pesquisador

Rudolf Oliveira, professor adjunto e coordenador do programa de avaliação hemodinâmica pulmonar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reconhece que o Guia cumpre um papel importante como instrumento de organização assistencial na atenção primária e de triagem para encaminhamento especializado, mas enxerga falhas importantes que podem ser prejudiciais aos pacientes. 

“A intolerância ao exercício, um dos sintomas mais prevalentes e incapacitantes da covid longa (acometendo 50 a 70% dos pacientes), não é adequadamente abordado. A consequência prática é que um profissional da saúde, seguindo o Guia, não saberá, diante de um paciente com fadiga, dispneia e covid Longa, qual investigação solicitar, o que o resultado significará e como isso deverá modificar a conduta”, afirma.

O professor explica que a literatura internacional dos últimos anos identificou pelo menos quatro mecanismos fisiopatológicos capazes de causar intolerância ao exercício na covid longa, com implicações radicalmente diferentes para o tratamento. 

O médico pneumologista, que fez pós-doutorado no Centro de Investigação de Dispneia da Universidade de Harvard entre 2014 e 2017, observa que o Guia menciona a encefalomielite miálgica/síndrome da fadiga crônica (EM/SFC) apenas como diagnóstico diferencial, sem extrair qualquer correlação ou implicação clínica. 

“E mais grave é que não menciona o mal-estar pós-esforço (post-exertional malaise, PEM) como fenômeno clínico; não oferece instrumento de triagem para identificá-lo e não alerta sobre a contraindicação absoluta da reabilitação progressiva nos pacientes que o apresentam”, afirma. Segundo o pesquisador, o mal-estar pós-esforço (PEM) está presente entre 30 e 58% dos pacientes com covid longa em coortes internacionais. 

Ele explica que o PEM consiste em um agravamento sustentado de sintomas, como fadiga, comprometimento cognitivo, dor e instabilidade autonômica, desencadeada por esforços físicos ou cognitivos que ultrapassam um limiar individual frequentemente baixo.

“Ao longo de múltiplas seções, o Guia recomenda reabilitação com treinamento aeróbico de intensidade leve e aumento gradual sem qualquer ressalva a esse respeito; quando, na verdade, essa modalidade é contraindicada em pacientes com PEM documentado”, adverte.

O professor da Unifesp orienta que a estratégia correta para esse subgrupo é o pacing energético, que consiste em manter as atividades diárias abaixo do limite individual que leva à exaustão. “Um documento ministerial com alcance nacional que omite essa contraindicação expõe pacientes com fenótipo PEM-predominante a intervenções potencialmente prejudiciais, executadas por profissionais que seguirão as diretrizes de boa-fé”, diz. 

Outra crítica que Rudolf Oliveira faz é sobre a escassa incorporação de literatura nacional como arcabouço teórico para a construção do Guia. “O Estado brasileiro investiu R$ 25 milhões para financiar pesquisa especializada em covid longa e publicou, na sequência, um guia clínico nacional que ignora esse investimento”, critica.  

O profissional lembra que, em 2022, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, lançou a Chamada nº 53/2022, especificamente voltada à pesquisa, ao desenvolvimento e à inovação em covid longa com aporte total de R$ 25.163.493,30. 

“Quatro anos depois, o Guia não utiliza o conhecimento nacional gerado e a maioria dos pesquisadores da área não foi sequer consultada na elaboração do Guia”, afirma.  

O que pensam os pacientes

“A publicação representa um avanço institucional relevante ao reconhecer a covid longa como uma condição crônica, multissistêmica e potencialmente incapacitante, com impacto significativo na funcionalidade e na qualidade de vida das pessoas afetadas”, afirma Paula Denise Costa Amorim, presidenta da Associação Millions Missing Brasil.

Por outro lado, Paula ressalta, em nota enviada à Radis, que entre os principais pontos críticos se destacam: “a ausência de critérios diagnósticos estruturados, o não reconhecimento de fenótipos clínicos específicos, a exemplo daqueles compatíveis com encefalomielite miálgica/síndrome da fadiga crônica (EM/SFC) e, sobretudo, a não incorporação do mal-estar pós-esforço (PEM), um sintoma central em muitos pacientes”, pontua. 

A representante da Associação também observa que as orientações sobre disautonomias, síndrome de ativação mastocitária e reabilitação segura, são insuficientes, o que pode resultar, na prática, em condutas inadequadas e até no agravamento do quadro clínico.

“Essa análise se baseia também na atuação da Associação junto ao Ministério da Saúde. Em 2025, apresentamos um dossiê técnico sobre EM/SFC e covid longa, bem como formalizamos solicitação para elaboração de um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) específico”, lembra. 

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