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“O que fazem os brancos com todo esse ouro? Por acaso, eles o comem?” A indagação do xamã yanomami Davi Kopenawa foi proferida em 1990, durante o Tribunal permanente dos povos sobre a Amazônia Brasileira, e já era um alerta para os impactos do garimpo ilegal sobre a vida do povo Yanomami, que vive na maior reserva indígena do país. Essas palavras do líder espiritual — que lembram uma profecia — fazem sentido diante da crise sanitária que levou à morte de 570 crianças yanomami entre 2019 e 2022, em consequência de desnutrição e doenças como pneumonia e malária — um cenário desolador que chocou a opinião pública nacional e internacional, causado pelo avanço de garimpeiros sobre o território sagrado deste povo, com a possível omissão e até mesmo o incentivo do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em seu livro A queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, escrito com o antropólogo Bruce Albert, Kopenawa explica que, na crença do povo Yanomami, os minérios foram enterrados no subsolo por Omama, o ser da Criação, para que não contaminassem os humanos. A sede de lucro e de mercadorias dos “brancos”, em busca de ouro e outros metais, fez com que a “fumaça da epidemia xawara” se espalhasse sobre a Terra e atingisse o povo da floresta, narra o líder espiritual. “O que chamamos de xawara são o sarampo, a gripe, a malária, a tuberculose e todas as doenças de brancos que nos matam para devorar nossa carne.”

A crise sanitária vivida pelos Yanomami no início de 2023 lembra a narrativa de Kopenawa sobre as consequências da xawara, uma perturbação na floresta que é sentida espiritualmente pelos indígenas, mas que tem um causa muito precisa: a presença ilegal de garimpeiros na Terra Yanomami. Segundo relatório elaborado pelo gabinete de transição governamental, o garimpo ilegal avançou 46% na região, em 2021; somente em 2022, foram registrados 11.530 casos de malária. O Ministério da Saúde decretou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional, em 20 de janeiro, diante do quadro de desassistência sofrido por este povo. No dia seguinte, o presidente Lula visitou Roraima, juntamente com as ministras dos Povos Originários, Sonia Guajajara, e da Saúde, Nísia Trindade.

Quando as primeiras equipes do Ministério da Saúde chegaram à Terra Indígena (TI) Yanomami, identificaram crianças e idosos em estado grave de saúde, com desnutrição avançada, malária, infecção respiratória aguda e outros agravos. Técnicos e profissionais da força-tarefa relataram casos de mulheres que pesavam apenas 27 quilos amamentando e a preocupação com o surgimento dos primeiros casos de tuberculose entre os atendidos na Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai), em Boa Vista, onde estão recebendo tratamento cerca de 700 pessoas — mais que o dobro da capacidade da unidade.

Radis preparou um resumo crítico para entender o que está acontecendo com os Yanomami e como essa crise humanitária revela os impactos ambientais e sociais do garimpo ilegal.

“Não é a fome, é o garimpo”

“A minha opinião é diferente. Isso pode ajudar um pouco, mas não é efetiva para salvar a população. Essas cestas básicas não vão ajudar. Cesta básica é só para fome, duas ou três semanas e depois acaba. O que vai ajudar é uma desintrusão do garimpo ilegal. Esse é o ponto mais importante para salvar a população Yanomami. Para salvar as crianças tem que retirar os garimpeiros”, declarou o xamã Davi Kopenawa ao site Amazônia Real (24/1). Na entrevista, a maior liderança yanomami responsabilizou diretamente o ex-presidente Bolsonaro pela expansão do garimpo ilegal na Amazônia e chamou de “ouro do sangue Yanomami” a exploração predatória do minério em sua terra indígena. Na conversa que tiveram com o repórter Felipe Medeiros, Davi e o filho Dário — respectivamente presidente e vice da Hutukara Associação Yanomami — resgatam a origem da tragédia e apontam a garantia do território como solução única para o genocídio em curso. Leia em https://bit.ly/3wHhdny.

Colapso anunciado

Em 2021, o relatório Yanomami sob ataque — Garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami e propostas para combatê-lo, produzido pela Hutukara Associação Yanomami e pela Associação Wanasseduume Ye’kwana, já dava destaque aos prejuízos causados pelo garimpo ilegal ao direito à saúde dos indígenas, demonstrando que a atividade garimpeira ilegal está associada à maior incidência de doenças infectocontagiosas entre as comunidades indígenas, em especial a malária, e à contaminação de mercúrio, “com danos irreversíveis à saúde das pessoas das comunidades afetadas”. O documento registra a presença de doenças neurológicas entre recém-nascidos indígenas e denuncia que as crianças não passaram por um diagnóstico de contaminação de mercúrio — apesar de haver orientação normativa nesse sentido.

Diante da circulação de garimpeiros armados na região, a situação é de “insegurança generalizada”, trazendo transtornos ao atendimento à saúde às comunidades indígenas, aponta o relatório, que enumera problemas como o total abandono de alguns postos de saúde, a ocupação das pistas comunitárias para a operação e o abastecimento do garimpo e o desvio de medicamentos reservados para os indígenas para atendimento de garimpeiros. “Esses fatores potencializam os danos que resultam da desestruturação e má-gestão do atendimento à saúde indígena realizado pelo Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami”, diz o documento (que pode ser acessado na íntegra em: https://bit.ly/3Y4WoOM).

Júnior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi/YY) e da Urihi Associação Yanomami, que descreveu a situação como “colapso” no relatório, reforçou a denúncia em sua conta no Twitter: “Há exatos 5 anos venho denunciando, relatando e divulgando imagens da situação do Povo Yanomami, assolados pela invasão garimpeira, desassistência, alto índice de desnutrição, casos de malária e óbitos”, postou, com um vídeo que segundo ele foi feito em março de 2022. Em outra postagem, reforçou que o ex-presidente e sua equipe ignoraram “nosso grito de socorro através de aproximadamente 50 ofícios”.

É genocídio?

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, determinou, em 30 de janeiro, a investigação de possível prática de crime de genocídio contra os Yanomami por parte de autoridades do governo Bolsonaro. O site do Instituto Socioambiental (ISA, em 31/1) lembrou que a lei 2.889 de 1956 diz que o genocídio ocorre quando há “intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. O ministro da Justiça, Flávio Dino, também já havia determinado que a Polícia Federal apurasse se há indícios de genocídio e omissão pelo governo anterior. O crime também pode ser julgado de acordo com a legislação internacional. O ISA ainda recordou que o único caso de genocídio reconhecido até hoje pela Justiça brasileira foi o assassinato de 16 Yanomami por garimpeiros, em 1993, conhecido como “Massacre de Haximu”.

É Vergonha nacional

“Não é só uma tragédia, é uma vergonha nacional difícil de mensurar”, relatou a jornalista Sonia Bridi, da TV Globo, após retornar da visita que fez à TI Yanomami. Em entrevista à GloboNews (25/1), a repórter descreveu imagens dramáticas de fome, fragilidade e abandono extremos que, segundo ela, são comparáveis aos vistos em territórios em conflito onde esteve ao longo de sua carreira. “Ali todas as pessoas estão doentes. É impossível não estar doente quando você não tem água limpa para beber, tem contaminação, não tem acesso à principal fonte de proteína, que é peixe; os garimpeiros chegam inclusive a comer comida da roça dos indígenas”, afirmou, visivelmente emocionada.

Ela declarou que nunca imaginou que veria cenas similares no Brasil, em um período de paz. “Um período de paz que é aqui, porque dentro da Terra Yanomami esse ataque tem sido sistemático”, ressaltou a jornalista, apontando o avanço do garimpo e a negligência do governo Bolsonaro como responsáveis pela penúria em que vivem os indígenas na região. Sonia enfatizou que, apesar dos inúmeros alertas feitos por ativistas e pela imprensa nos últimos anos, nenhuma atitude foi tomada; lembrou que há decisão do STF ordenando a expulsão dos invasores, mas em apenas uma única operação a Polícia Federal recebeu apoio logístico das Forças Armadas. Ainda assim, na ocasião, a PF teve que desembolsar R$ 2,5 milhões por três dias de uso de apenas um helicóptero cedido pelo Exército.

Não é de agora

“A mídia independente denuncia há anos a tragédia nos Yanomami. Só na @amazonia_real são centenas de matérias, sobretudo nos últimos quatro anos. Revelamos as facções, fizemos sobrevoos, sofremos ameaças etc. A grande mídia, com raras exceções, ignorou, ou mostrou superficialmente”. O relato de Elaize Farias, jornalista amazonense e co-fundadora do site Amazônia Real, mostra que a atenção à questão do garimpo nas terras indígenas não é de agora — e nem pode sair dos noticiários depois dessa primeira comoção nacional.

“Que bom que, finalmente, a grande mídia começa a olhar para os Yanomami (mas não apenas para eles), com mais profundidade, já que também têm imagens impactantes para mostrar. Pena que essa mídia continue a deter privilégios em sua cobertura”, escreveu no Twitter, em 29/1. Em outra postagem, ela também contou que, em um sobrevoo na Terra Yanomami em abril de 2021 para uma reportagem conjunta entre Amazônia Real e Repórter Brasil, o piloto ficou com medo “de levar tiro de garimpeiro”. Um avião dos criminosos cercou a aeronave em que estavam os repórteres. “Espero que a imprensa independente e investigativa, especialmente a que está na Amazônia, passe a ser mais consumida e valorizada. Porque não é fácil fazer jornalismo aqui”, afirmou.

Solidariedade na Fiocruz

A comunidade Fiocruz também se mobilizou diante da tragédia. “A situação é tão dramática que as iniciativas têm que ser quase imediatas, decisão e ação, porque as pessoas estão literalmente morrendo”, afirmou o presidente em exercício da instituição, Mario Moreira, após reunião com o Conselho Deliberativo (26/1), quando se discutiu um plano de ação em articulação com o Ministério da Saúde. A proposta em discussão abrange iniciativas nas áreas de governança e gestão; infraestrutura e logística; recursos humanos; suporte laboratorial; segurança alimentar; assistência à saúde; vigilância; saneamento básico; articulação e participação social territorial; comunicação e informação; formação e capacitação; articulação intersetorial; promoção da saúde e pesquisa. Diante do interesse de inúmeros trabalhadores em colaborar, a Fundação criou um programa de voluntariado para organizar a participação de servidores, terceirizados, bolsistas, estudantes e outros colaboradores.

Em defesa da verdade

Nem a magnitude da tragédia e a comoção da sociedade livraram os Yanomami de escaparem da virulência das informações falsas que proliferaram tão logo as primeiras imagens circularam nas redes e nos meios de comunicação. “É falsa a informação de que os indígenas encontrados em estado grave de saúde no território Yanomami não são brasileiros”, rebateu o Ministério da Saúde (23/1). O comunicado foi elaborado para esclarecer uma notícia falsa que circulou nas redes naquela semana afirmando que os indígenas eram venezuelanos. A onda de desinformação também atingiu o presidente do Condisi Yanomami. A plataforma de verificação Aos Fatos divulgou nota (27/1) em que contesta a informação falsa, divulgada pelo site Poder DF, que afirmava que a associação yanomami Urihi, que tem à frente Júnior Hekurari Yanomami, havia sido condenada por um desvio de R$ 33 milhões.

Imagem preservada

Por que não se deve compartilhar fotos de Yanomami? O debate sobre o uso da imagem dos indígenas se tornou acirrado nas redes. Embora se reconheça que foi a divulgação de crianças em péssimo estado de saúde o que mobilizou a sociedade e agilizou a tomada de decisão por parte do poder público diante da tragédia há muito anunciada, a Associação Yanomami Urihi publicou nas redes sociais um comunicado em que pedia que as pessoas evitassem compartilhar a fotografia de uma idosa que morreu logo após ser fotografada. O pedido se deve a uma questão cultural, como explicou o professor Daniel Munduruku, ao site do DW (23/1): “Existe um ensinamento que vem de muito tempo: os indígenas não permitem tirar fotos porque a foto roubaria a alma da pessoa que teve sua imagem fotografada”, explicou o ativista. “Isso tem muito a ver com a compreensão que muitos povos indígenas têm de que, ao morrer, a gente precisa esquecer a pessoa que morreu. A fotografia, de uma certa maneira, traz a pessoa [morta] de novo para o cenário dos vivos. E isso causa um conflito espiritual e um sentimento de que houve quebra na espiritualidade”.

Vozes indígenas importam

“É preciso garantir uma mobilização para que sejam levadas em consideração as vozes indígenas — assim como todas as outras que não são escutadas, desde a formação do Brasil como país — de modo que os canais de comunicação não sejam apenas repetidores de tragédias há muito anunciadas. É urgente que deixemos de lado as ‘caridosas’ ações de capacitação, qualificação e adequação do discurso dos que sofrem para nos comprometermos verdadeiramente com a formulação, a execução e a fiscalização de políticas e práticas de comunicação que permitam que estes possam falar e que sejam escutados”, afirma o repórter de Radis, Adriano De Lavor, em texto publicado em nosso site sobre o papel da comunicação na emergência sanitária yanomami. O artigo destaca que é hora de ampliar canais de escuta contra desigualdades, superando a ideia de “dar voz” e garantindo que depoimentos, denúncias, alertas e demandas sejam realmente levados em conta. Leia o texto completo: https://bit.ly/3jjYnA1.

Acesso aberto

Para ampliar a visibilidade das questões dos povos originários, em meio à emergência sanitária yanomami, a Editora Fiocruz liberou o acesso gratuito aos livros sobre saúde indígena de seu catálogo. Entre as obras, está o recente Vozes Indígenas na Saúde: Trajetórias, memórias e protagonismos, de Ana Lúcia Pontes, Vanessa Hacon, Luiz Eloy Terena e Ricardo Ventura. Acesse: https://bit.ly/3RkZvQt.

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