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Em novembro de 2019, cerca de 70 pessoas, entre indígenas, ribeirinhos, jovens ativistas do clima e cientistas, reuniram-se na Reserva Extrativista do Rio Iriri, no Pará, para pensar em soluções sustentáveis ​​para o futuro da Amazônia e do planeta. Naquele momento, os participantes não tinham como prever como o encontro, que recebeu o nome de Amazônia — centro do mundo, seria importante para aproximar pessoas e organizações em torno do enfrentamento coletivo dos impactos da pandemia de covid-19 — incluindo-se a insegurança alimentar —, que também atingiria a região da Transamazônica e do Xingu poucos meses depois.

O encontro foi a semente da criação, em fevereiro de 2021, da campanha Respira Xingu — uma das inúmeras iniciativas que incluem ações de combate à fome durante a pandemia em todo o Brasil. Criada no momento em que o estado do Amazonas enfrentava o colapso no fornecimento de oxigênio, a campanha reúne mais de 40 associações e movimentos sociais que ficaram preocupados com os índices alarmantes de infecção e morte por covid-19 na região.

No contexto de covid-19, não havia como ignorar a fome. Apesar de a pandemia ter afetado negativamente as condições de renda e trabalho em todas as regiões do país, o Norte e o Nordeste foram os mais atingidos, como indicou o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, desenvolvido pela Rede Penssan. A realidade no sudoeste do Pará não era diferente.

Segundo Marcelo Salazar, coordenador executivo da organização Saúde em Harmonia, uma das integrantes da campanha, pelo menos 2 mil cestas básicas foram distribuídas na região com a preocupação de combater a fome. A estratégia foi aproveitar a produção das comunidades tradicionais do Xingu e incluir nos donativos produtos regionais como a castanha, a mandioca, a banana e a farinha regional. Além disso, as doações também levaram em consideração as demandas específicas dos moradores, incluindo itens como kits para pesca bem como outros insumos, lembrou a psiquiatra Erika Pellegrino, integrante do comitê técnico de saúde da campanha.

Professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), Erika ressalta que já identificava o aumento da insegurança alimentar nas cidades da região, principalmente depois da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte — Altamira é a cidade mais próxima do empreendimento e sofreu grande impacto com a sua chegada. Segundo ela, com a expulsão de famílias de territórios tradicionais e o assentamento precário em áreas urbanas, houve a criação de “novas periferias”, onde se identifica alto grau de vulnerabilidade social.

Essa vulnerabilidade, tanto para a covid-19 quanto para a fome, é maior nas áreas urbanas, onde as famílias reassentadas são expostas a um maior risco de aglomerações (o que favorece o contato com o vírus) e têm que lidar com necessidades que antes não existiam. “Essa é a realidade de muitos ribeirinhos, que foram para casas sem identidade e passaram a precisar de dinheiro para se alimentar”, descreve a médica, que observa que Belo Monte “empurrou para periferias” cerca de 20 mil pessoas que viviam saudáveis na floresta.

Embora diga estar consciente de que não é possível romantizar ou homogeneizar a situação das comunidades tradicionais na Amazônia, Marcelo assegura que nas reservas extrativistas da região da Transamazônica e do Xingu os ribeirinhos têm melhores condições de vida e de alimentação, lembrando que muitas etnias indígenas sofreram impactos diretos com Belo Monte, parando de plantar e passando a consumir produtos industrializados. Erika enfatizou que a fome e a pandemia se potencializaram nestas zonas de carência e ajudaram a evidenciar a realidade crônica, onde falta estrutura de saneamento básico e são comuns problemas como as verminoses, e endemias como a dengue e a malária. Marcelo lembrou ainda que as mudanças de hábito de consumo (com a introdução de alimentos ultraprocessados e de açúcar, de baixa qualidade nutricional) também resultaram em maiores índices de diabetes e hipertensão nas populações reassentadas. (A.D.L)

Como ajudar

Conheça outras iniciativas e campanhas de combate à fome no site de Radis. Ou acesse: http://olheparaafome.com.br/.

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