Depois de enfrentar um câncer de mama em 2014 e uma recidiva três anos depois, com comprometimento da axila e do pulmão, a fisioterapeuta Ana Paula Neves passou a conviver com um efeito colateral difícil de controlar: dores articulares intensas provocadas pelas medicações do tratamento. Durante uma consulta com uma reumatologista, surgiu uma alternativa inesperada. A médica sugeriu o uso de produtos à base de cannabis medicinal para aliviar os sintomas. Ana Paula decidiu tentar.
Passou a utilizar óleo e gomas contendo canabinoides — compostos químicos presentes na cannabis, que interagem com receptores específicos do corpo humano, sendo os mais conhecidos o THC (tetrahidrocanabinol) e o CBD (cannabidiol). Aos poucos, percebeu mudanças no corpo e na rotina. As dores diminuíram. A ansiedade reduziu. O sono melhorou. “Passei a sentir menos dor e ainda foi maravilhoso para a ansiedade e para o sono”, conta.
Durante cerca de dois anos, a cannabis fez parte de sua rotina terapêutica. O acesso ao medicamento, naquele momento, não foi complicado do ponto de vista burocrático. A própria médica encaminhou a prescrição para uma empresa responsável pela importação e pelo pedido de autorização junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O problema apareceu depois. Com valores elevados, o tratamento acabou interrompido. “Não são produtos baratos. Isso precisa melhorar para que mais pessoas possam fazer uso”, afirma a carioca.
No início deste ano (28/1), a Anvisa estabeleceu novas regras para cultivo, prescrição, controle de qualidade e classificação da cannabis, com fins exclusivamente medicinais e/ou farmacêuticos. A mudança é tratada como um novo ambiente regulatório para a cannabis medicinal no Brasil e representa uma novidade em relação à determinação anterior, de dezembro de 2019, que permitia apenas a importação do produto para uso medicinal.
Apesar de ser ainda uma medida embrionária, a expectativa é de que facilite a produção interna, principalmente por meio de associações de pacientes [Leia mais clicando aqui]. Contudo, ainda se discute uma questão fundamental: quem tem acesso a tratamentos com cannabis no Brasil?
“A dor diminuiu. O problema foi o preço”
A história da maranhense Adrianna Pereira segue um caminho semelhante ao de Ana Paula, embora tenha começado por outro problema de saúde. Ela convive há anos com dores intensas provocadas por fibromialgia e espondilite anquilosante, duas condições que afetam articulações e músculos e podem comprometer profundamente a qualidade de vida. Antes de chegar à cannabis medicinal, Adrianna tentou diversos tratamentos convencionais.
“Usei muitos medicamentos fortes, inclusive de tarja preta, mas não conseguia um alívio significativo. As dores eram constantes e afetavam muito meu sono e minhas atividades do dia a dia”, relata.
O contato com a cannabis medicinal surgiu de forma inesperada, em conversas em um grupo nas redes sociais de mães atípicas [mulheres que criam filhos com neurodivergências]. Algumas participantes comentavam sobre o uso do canabidiol para dor e inflamação. A partir dessas conversas, Adrianna começou a pesquisar mais sobre o assunto.
Encontrar atendimento médico, porém, não foi simples. “Na época era muito difícil achar médicos que prescrevessem esse tratamento pelo plano de saúde ou pelo SUS. Acabei encontrando uma médica que atendia online com valor social de consulta. Foi assim que consegui a primeira prescrição.”
Com o início do tratamento, ela percebeu mudanças importantes. “Passei a ter mais controle das dores, dormia melhor e também tive melhora nas crises de ansiedade. Meu corpo ficava mais relaxado e eu conseguia lidar melhor com o dia a dia.”
O acesso ao medicamento, no entanto, voltou a ser um obstáculo. O custo era elevado e Adrianna não tinha condições de pagar. Após a negativa do plano de saúde, ela entrou na Justiça e conseguiu uma decisão favorável que obrigou a operadora a custear o tratamento.
Mesmo assim, o processo foi longo e burocrático. “A burocracia é tão grande, tanta informação desencontrada, que quase desisti no meio do caminho”, lembra.
Ela conseguiu manter o tratamento por pouco mais de dois anos. A interrupção veio quando mudou de plano de saúde e a nova operadora deixou de cobrir o medicamento. “Como o valor é muito alto, não consegui continuar pagando por conta própria”, relata.

Histórias como as de Ana Paula e Adrianna têm se tornado cada vez mais comuns no Brasil. Nos últimos anos, cresce o número de pacientes que recorrem à cannabis como alternativa terapêutica, especialmente em casos de dor crônica, epilepsia e sintomas associados a tratamentos agressivos, como a quimioterapia.
Em dez anos, o número de autorizações saltou de centenas para milhares, revelando a rápida expansão do uso medicinal da cannabis no país. Dados da Anvisa indicam que o Brasil ultrapassou 194 mil autorizações para importação de produtos à base de cannabis em 2025, um crescimento de cerca de 16,3% em relação ao ano anterior [veja Box clicando aqui].
O contraste com o início da série histórica é expressivo. Em 2015, quando a agência começou a autorizar o acesso mediante prescrição médica, apenas 850 permissões haviam sido concedidas. Para se ter uma ideia, apenas entre janeiro e setembro de 2025, foram emitidas mais de 139 mil autorizações.
Ao mesmo tempo em que a demanda aumenta, persistem desafios importantes: evidências científicas ainda em construção, regras regulatórias em evolução e, principalmente, o alto custo dos produtos.
Atualmente, cerca de 600 produtos podem ser importados por pacientes brasileiros, oferecidos por mais de 500 empresas. Apesar da expansão, a dependência quase total da importação mantém os preços elevados, dificulta a oferta no Sistema Único de Saúde (SUS) e deixa o tratamento fora do alcance de grande parte da população.
O crescimento da demanda no Brasil acompanha uma tendência global. Estimativas do setor indicam que o mercado mundial de cannabis medicinal já movimenta dezenas de bilhões de dólares por ano e pode ultrapassar US$ 60 bilhões até o fim da década, impulsionado pela ampliação das pesquisas científicas e pela regulamentação do uso terapêutico em diversos países. Alemanha e Canadá, por exemplo, já estruturaram mercados regulados e programas públicos para o uso terapêutico da cannabis [Veja Box clicando aqui].
Para compreender os avanços e também os limites da utilização do produto no Brasil, além das duas histórias que abrem esta matéria, Radis ouviu o presidente de uma das maiores associações de pacientes do país e um médico especialista no tema. A reportagem traz um “raio X” do que já é realidade e o que ainda está por vir.
O que a ciência já sabe
O uso medicinal da cannabis avançou rapidamente nos últimos anos, impulsionado pela demanda de pacientes e pela flexibilização das regulações em vários países. A ciência, porém, ainda busca respostas concretas sobre eficácia, dose e indicações. Para o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as evidências mais sólidas até agora se concentram em um conjunto restrito de condições clínicas.
Dartiu, que coordena pesquisas e programas de tratamento voltados ao uso de álcool e outras drogas — uma das principais referências nacionais no estudo de dependência química — defende que a cannabis seja tratada com base em evidências científicas, reconhecendo o potencial terapêutico da planta em algumas condições médicas, mas ressaltando a necessidade de regulação, prescrição médica e controle de riscos.
Segundo ele, derivados da cannabis demonstram eficácia principalmente no tratamento de sintomas associados à esclerose múltipla, como espasmos e contrações musculares, além de algumas formas de dor crônica que não respondem aos tratamentos convencionais. Também há resultados importantes no controle de náuseas e vômitos provocados pela quimioterapia e em determinados tipos de epilepsia infantil. “Há crianças que tinham 20 ou 30 convulsões por dia e passaram a ter uma ou menos com o uso de canabinoides”, afirma.

Um dos exemplos é a síndrome de Dravet, forma rara e grave de epilepsia que pode causar danos neurológicos quando as crises são frequentes. Em outras áreas da medicina, porém, as evidências ainda são menos conclusivas, ressalta ele.
No campo da psiquiatria, por exemplo, produtos à base de cannabis têm sido utilizados por pacientes para tratar depressão, ansiedade e problemas de sono, mas os estudos científicos ainda não permitem conclusões definitivas, segundo o médico.
Pesquisa conduzida por Dartiu com cerca de 17 mil usuários de maconha, em parceria com o pesquisador Paulo Moraes, da Universidade Federal de Rondônia (Unir), indicou que muitos recorrem à substância como forma de lidar com ansiedade e depressão. Os resultados sugerem melhora em alguns casos de ansiedade, mas não há evidência consistente de benefício para depressão.
Regulação em evolução
Para o psiquiatra Dartiu, a regulação da cannabis medicinal no Brasil representa um avanço, ainda que modesto. A autorização para uso terapêutico e a criação de regras para produtos derivados da planta ajudam a reduzir o estigma e a estimular pesquisas científicas.
Mas ele lembra que o avanço das pesquisas foi historicamente limitado pela própria criminalização da planta. Durante décadas, a visão proibicionista dificultou inclusive a investigação científica sobre possíveis usos terapêuticos da cannabis. “Como era vista apenas como uma droga ilícita, muitas vezes nem se podia estudar seus potenciais farmacológicos”, afirma.
No Brasil, a regulamentação é conduzida pela Anvisa, que passou a permitir a importação e a comercialização de alguns produtos à base de cannabis, mediante prescrição médica desde dezembro de 2019. Mesmo assim, o psiquiatra avalia que o marco regulatório ainda precisa evoluir.
Segundo Dartiu, um dos maiores desafios é a própria complexidade da planta. “Quando se fala em maconha, muitas pessoas imaginam uma única substância, mas na verdade existem mais de 80 tipos de canabinoides, além de terpenos e outras moléculas”, afirma.
Por isso, explica, os efeitos da planta in natura podem ser diferentes daqueles observados em medicamentos produzidos a partir de moléculas isoladas ou formulações padronizadas. Para o psiquiatra, compreender essas combinações é um dos grandes desafios atuais da pesquisa científica sobre a cannabis medicinal.

A combinação e a concentração dessas substâncias variam de produto para produto e podem produzir efeitos diferentes no organismo. Apesar dos avanços regulatórios, o acesso aos tratamentos ainda é limitado, sobretudo para a população de baixa renda.
Ele ressalta que os produtos disponíveis no mercado têm preços elevados e dificilmente estão ao alcance da maioria dos pacientes. “Hoje estamos longe de ter medicamentos à base de canabinoides disponíveis no Sistema Único de Saúde”, observa.
Em farmácias, um frasco pode custar cerca de R$ 3 mil. Já produtos adquiridos por outras vias, fora do circuito farmacêutico tradicional, podem custar cerca de R$ 500, o que revela a existência de um mercado paralelo e pouco regulado.
Esse cenário foi “previsto” pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, em entrevista exclusiva à Radis, em fevereiro de 2020 (Radis 209). Na ocasião, ele falou sobre a decisão da Anvisa de liberar a venda de produtos à base de maconha para fins medicinais, em dezembro de 2019. “Regulamentou remédios à base de maconha de uma maneira extremamente conservadora, porque vetou o plantio. O que eles estão permitindo é somente que possamos importar os componentes da maconha para produzir os remédios no Brasil. Isso só vai favorecer as grandes empresas. O acesso vai continuar difícil”, disse à época.
Ele estava certo. De lá pra cá, houve um crescente aumento da judicialização. Pacientes que não conseguem arcar com os custos recorrem frequentemente à Justiça para obter autorização ou financiamento para o tratamento.
Para Dartiu, a discussão atual também reflete uma mudança gradual de perspectiva sobre a cannabis. “Durante muito tempo ela foi vista apenas como uma droga ilícita a ser combatida. Hoje começa a ser reconhecida também como uma substância com potencial farmacológico que precisa ser estudada com rigor científico”, afirma.
Cannabis medicinal em números
194 mil autorizações para importação no Brasil em 2025
850 autorizações em 2015 (início da série da Anvisa)
600 produtos disponíveis para importação
R$ 3 mil preço aproximado de um frasco em farmácias
US$ 60 bilhões tamanho estimado do mercado global até 2030
Fonte: Anvisa
Cannabis medicinal no mundo
Canadá Legalização medicinal em 2001 e recreativa em 2018. Possui mercado regulado nacional
Alemanha Desde 2017, pacientes podem obter cannabis medicinal com receita e cobertura do seguro de saúde
Israel Referência mundial em pesquisa clínica com mais de 100 mil pacientes em tratamento
Estados Unidos Uso medicinal autorizado em mais de 35 estados
Fonte: Elaborado por Radis
Regulamentação da cannabis medicinal no Brasil
2014: Primeira decisão judicial autorizando a importação da cannabis medicinal
2015: Anvisa remove o cannabidiol da lista de substâncias proibidas
2017: Registro do primeiro medicamento à base da cannabis para venda em farmácias
2019: Anvisa regulamenta a venda de cannabis nas farmácias (RDC nº 327/2019)
2026: Anvisa aprova regras para cultivo e produção nacional da cannabis para fins medicinais e científicos (RDC nº 1.015/2026)
Fonte: Elaborado por Radis



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