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Localizado num casarão no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, o restaurante Raízes do Brasil fornece 300 marmitas solidárias semanalmente a moradores das comunidades dos Guararapes, Prazeres e Coroa. O Raízes integra e fortalece o Sistema Popular de Alimentos do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), atualmente presente em 17 estados brasileiros. Em 2024, o espaço aderiu ao Programa Cozinha Solidária do Governo Federal, com o objetivo de aumentar a distribuição de marmitas para pessoas em situação de insegurança alimentar. Atualmente, a iniciativa não está recebendo verba estatal, porque é necessária a criação de uma unidade gestora para administrar esses recursos.

Para manter os custos do casarão na Rua Áurea, 80, o restaurante organiza, através do seu site, a venda de cestas camponesas, com produtos agroecológicos de diversos estados brasileiros; promove feiras camponesas em bairros e universidades; oferece aos finais de semana o café camponês com buffet livre por R$ 65, além de almoço; e conta com um mercadinho com produtos orgânicos e agroecológicos. Além desses serviços, a equipe do Raízes fornece alimentação para eventos corporativos, assim como reserva o espaço para festas. 

Conversamos com Humberto Palmeira, coordenador do MPA, sobre o trabalho realizado no Raízes. O assistente social nasceu em Caraíbas, no interior da Bahia, trabalhou por mais de vinte anos na roça e, hoje, assume tarefas na organização e mobilização do movimento. Em entrevista à Radis, Beto, como também é conhecido, explica como a alimentação se tornou mercadoria no Brasil e como isso dificulta o acesso da população à saúde.

Como funciona a dinâmica do Raízes no programa Cozinhas Solidárias?

Com o programa a gente ampliou o contato com as comunidades em torno de Santa Teresa, pensando no trabalho de organização, mobilização, identificação de quem está com insegurança alimentar e também ampliou nossa dinâmica com os próprios agricultores e agricultoras, porque a nossa cozinha é 99% de comida agroecológica. Só o sal que a gente não consegue ter ainda de agricultores e agricultoras. Então, a gente consegue também garantir uma renda para essas famílias que abastecem essa cozinha. Ela acaba juntando as duas pontas.

Então, o trabalho não é “só” entregar comida…

Começaram a aparecer demandas para a educação, para saúde mental. A cozinha não é só o alimento, ou seja, o alimento é uma porta de entrada, mas que abre várias possibilidades de a gente fazer trabalho e seguir o processo de mobilização.

Como o programa influencia na garantia do direito à alimentação?

Acho que o mais interessante desse programa foi como ele nasceu. Ele nasceu muito em função da luta dos movimentos sociais. Eu diria que é uma das poucas políticas públicas no Brasil desde a Constituição de 1988 que surge a partir de um processo de mobilização social. E por uma conjuntura de um governo democrático, que aceitou e incorporou essa política. Eu diria que é uma vitória esse programa pelo fato dele ter surgido desse processo. No entanto, precisa ser melhorado permanentemente.

E o que precisa se aperfeiçoar?

Todas as cozinhas que a gente conversa falam que, se tivessem capacidade de infraestrutura e financeira de fazer mais alimentos, teriam mais demandas. Isso mostra o quanto acabam ocupando um espaço que não existe nas políticas públicas no Brasil. Na saúde, a gente tem uma estrutura e vários equipamentos públicos para as pessoas garantirem o acesso ao direito, desde baixa complexidade até alta complexidade. Na educação é a mesma coisa. Existem os equipamentos de educação pública que as pessoas têm acesso, desde a primeira infância até a universidade. Quando a gente vai para a alimentação, não existe isso. Então, o direito à alimentação no Brasil é relegado ao mercado, né? Ou seja, para as pessoas terem acesso a esse direito, tem que comprar. O alimento é uma mercadoria.

Como você enxerga a mão de obra das pessoas que trabalham nas cozinhas?

Precisa de muito mais financiamento para as cozinhas conseguirem fazer gestão, qualificar as pessoas que trabalham em termos profissionais e fazer formação. É muito trabalho voluntário e a gente sabe que isso não se sustenta. Tem que chegar a um momento que precisa de uma operacionalização, então teria que ter mais recursos para garantir isso. Tem que haver recursos para garantir mais compra de alimentos da agricultura familiar, que é outro aspecto da cozinha, que é garantir alimento de verdade. A tarefa é não reproduzir a alimentação a partir dos ultraprocessados. Essas cozinhas encontram um dispositivo de organização e da produção dessa cultura camponesa familiar que não tem mercado. Garantem que minimamente as pessoas possam ter para onde produzir e aquelas que vão consumir também saibam de onde vêm esses alimentos. E a gente consegue sistematizar esse consumo. 

Atualmente, vocês compram alimentos de quantas famílias?

Eu diria que hoje de umas 200 famílias. A gente compra de seis municípios do Rio de Janeiro, de um município de Minas Gerais, que faz divisa com o RJ; e o arroz a gente traz de Sergipe, do Vale do São Francisco. Isso para poder também descentralizar o comércio de arroz no Brasil, que hoje é muito concentrado na região Sul, a gente optou por mobilizar essa produção no Nordeste para trazer para cá, para poder também incentivar a produção lá na região.

“Para acabar com a fome, é preciso mudar o sistema de produção e distribuição.”

Qual é a diferença do trabalho que vocês fazem para grupos que têm como foco a caridade?

Para nós, do MPA, a fome é uma decisão política. Para acabar com a fome, é preciso mudar o sistema de produção e distribuição. Ou seja, enquanto o sistema de produção e distribuição for concentrado, enquanto a terra estiver concentrada na mão de poucas pessoas, enquanto a distribuição de alimentos for concentrada em poucas empresas, a fome vai existir, porque a fome é um negócio. A diferença principal é a crítica estrutural que a gente faz ao modelo de produção e distribuição de alimentos. Acreditamos que as pessoas que estamos atendendo ou pessoas usuárias das cozinhas são sujeitos com capacidade de compreender esse processo e lutar por mudar esse processo. Então não é só receber um prato de alimento e saciar uma necessidade básica e tudo bem. A gente acredita no potencial dessa relação que a alimentação tem de criar consciência e organização das pessoas. A diferença na nossa perspectiva para outras organizações que fazem cozinha, comunitária ou solidária, é a leitura de mundo. No Brasil, a fome é um negócio e o alimento é uma mercadoria. A gente luta também para que o alimento não seja mercadoria.

“No Brasil, a fome é um negócio e o alimento é uma mercadoria.”

E alimento é saúde, né…

A ciência já diz que quem teve uma alimentação adequada na primeira infância, o desenvolvimento neurológico vai ser outro em relação a quem teve deficiência alimentar. O governo hoje tem um programa importante, que é o Farmácia Popular. Por que não tem [o programa] Comida Popular? Ou seja, se nós tivéssemos essas mesmas famílias e pessoas que recebem remédio para hipertensão e diabetes recebendo uma cesta agrícola? Eu diria que iria reduzir o uso de fármacos. Então, acaba que a má alimentação está vinculada à indústria de fármacos. As pessoas comem mal para poder consumir mais remédio.

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