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Em relação às questões climáticas, o Brasil avançou pouco e experimentou retrocessos significativos nos últimos seis anos. No resto do mundo, avanços e recuos colocam o futuro em risco, como especialistas têm alertado e como mostram os relatórios sobre os impactos das mudanças climáticas na vida do planeta. O enfrentamento pede um pacto global baseado na equidade entre os países. Só assim será possível alterar modelos de desenvolvimento sustentados em produções poluentes e geradoras de desigualdades sociais e ambientais.

Essa é a avaliação do pesquisador Carlos Machado Freitas, coordenador do Centro de Estudos para Emergências e Desastres em Saúde (Cepedes), da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz). “Estamos diante de uma encruzilhada e sem enxergar muitas saídas”, afirma. 

Segundo ele, o planeta atingiu o limite e há menos tempo para ações de transição a fim de promover mudanças. Por isso, ele sinaliza que a emergência climática já é considerada como uma emergência em saúde pública. “Ela é fruto de um conjunto de processos que representa uma mudança no quadro de mortalidade e morbidade e que exige ações imediatas”, afirmou, nesta entrevista à Radis

Quando as mudanças climáticas passam a provocar a emergência climática?

São dois processos conectados. Os relatórios do IPCC [Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas] vêm seguida e cada vez mais enfaticamente apontando para um cenário de mudança climática em que já estamos no limite. A ideia de limite é interessante no sentido de ultrapassar uma forma que poderia ter sido mais segura de transição se o que nós conhecemos e compreendemos sobre as mudanças climáticas tivesse se transformado em decisões e ações dos governos. Temos um descompasso entre o que conhecemos e compreendemos e as decisões tomadas e, nisso, os relatórios do IPCC vêm acentuando que chegamos no limite e com menos tempo para ação.

Ainda há chance de reversão?

Nós temos uma série de relatórios globais desde a conferência de Estocolmo [em 1972], da Rio-92, da Rio +20 e outros. Em 2005, tivemos o Millennium Ecosystem Assessment [Avaliação Ecossistêmica do Milênio] que apontava para um cenário de 60% dos ecossistemas degradados, alguns de forma irreversível, e que nós estávamos chegando ao ponto de mudanças não lineares e de transbordar o copo d’água. Todos os relatórios de avaliação de monitoramento global ambiental dos últimos 18 anos vêm apontando que nós ultrapassamos o limite. Chamo a atenção para a ideia de limite porque todos os relatórios do IPCC convergem para essa ideia de termos ultrapassado ou estarmos ultrapassando o limite.

Quais os impactos dessas mudanças na saúde pública?

Autores em geral têm chamado atenção de que não estamos diante de uma mudança climática, mas de uma emergência climática. Alguns propõe declarar a emergência climática como uma emergência em saúde pública pela OMS [Organização Mundial da Saúde], porque não é só um fator de risco, mas é um conjunto de processos que representa uma mudança no quadro de mortalidade e morbidade e que exige ações imediatas. Primeiro, pelo excesso de mortalidade e morbidade que as mudanças climáticas significam. Segundo, porque o setor saúde contribui com aproximadamente 10% de emissões, ele gera resíduos, consome energia, entre outros, e, em nível global, tem sido muito lento em se adaptar às mudanças.

“Essa ruptura nos coloca diante de um cenário de muitas incertezas que nós, como humanos, não conhecemos mesmo com todas as transformações que tivemos.”

De que forma os desastres climáticos impactam estabelecimentos e unidades de saúde?

Os estabelecimentos de saúde vêm sendo frequentemente impactados pelos eventos extremos relacionados às mudanças ou alterações no clima. Alguns autores colocam a ideia de limite de emergência, que não é só uma variabilidade climática, como tem sido registrado nos últimos 10 ou 12 mil anos, já que chegamos num ponto de ruptura do ciclo climático. Essa ruptura nos coloca diante de um cenário de muitas incertezas que nós, como humanos, não conhecemos, mesmo com todas as transformações que tivemos. 

É possível avaliar o custo do setor saúde com esses impactos?

Publicamos um artigo nos Cadernos de Saúde Pública [Acesse: https://bit.ly/artigoclimacsp], em 2021, que mostra que o comprometimento dos desastres nos estabelecimentos de saúde em 15 ou 16 anos foi de 4 bilhões de reais só no Brasil, o que dá 250 milhões de reais por ano, aproximadamente. Esse é o impacto nos serviços de saúde provocados por deslizamentos de terras, inundações, ciclone extratropical. Esse custo não é contabilizado pelos registros das defesas civis. Isso passa silenciosamente. Não é só o custo econômico, pois significa que os estabelecimentos estão comprometidos quando as pessoas mais precisam. 

“A nossa capacidade de empreender mudanças para se adaptar tem sido muito lenta.”

Cite um exemplo prático sobre essa imobilidade do setor.

As estratégias de adaptação dos estabelecimentos de saúde, de resiliência, são fundamentais e a gente não avançou. Na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011 [em que chuvas provocaram uma tragédia ambiental], alguns serviços de saúde e hospitais foram parcialmente ou totalmente comprometidos. O principal hospital de Nova Friburgo [RJ] teve parte de sua UTI inundada. Havia um hospital privado na região de Córrego D´Antas que teve parte destruída por uma pedra em um deslizamento de terra. Fizemos uma pesquisa sete anos depois e os hospitais e estabelecimentos de saúde estavam todos no mesmo lugar. Não é que todos tenham que mudar de lugar, alguns sim, mas estava tudo no mesmo lugar. A nossa capacidade de empreender mudanças para se adaptar tem sido muito lenta. 

Como desenvolver estratégias e adaptações?

Sempre há risco de que um desastre possa acontecer. Para alguns estabelecimentos de saúde, principalmente os que se encontram próximo a margens de rios, isso acontece com regularidade, com o comprometimento integral ou parcial das unidades de saúde. No Acre, vimos estratégias de adaptação em algumas unidades, como a elevação do piso, o que permite manter os atendimentos durante o período de elevação de rios. Mesmo isso pode ficar comprometido porque evita que a unidade de saúde alague, mas as pessoas podem não chegar ao serviço de saúde. Chamo atenção que a nossa capacidade é passiva e reativa de modo geral e muito pouco prospectiva e proativa. 

“A gente precisa fazer uma mudança de chave na forma de tomar decisões.”

Como descreve o atual cenário?

A elevação da temperatura é bem acima dos últimos 10 a 12 mil anos e isso é algo sem precedente no melhor cenário. Nós estamos diante dele porque as ações têm sido bem lentas e a nossa forma de organizar a sociedade, as estruturas de pensamento mentais, continuam as mesmas das últimas décadas ou das últimas centenas de anos. Isso que ainda não foi compreendido. A gente precisa fazer uma mudança de chave, na forma de olhar, de lidar com essa situação e de tomar decisões.

Como as mudanças de gestores públicos alteram a implementação dessas iniciativas? 

Esse é um tema em que ações de Estado de médio e longo prazo são fundamentais, independentemente das mudanças de governo, de forma a possibilitar adaptações. Já há mapeamentos realizados no Brasil com áreas suscetíveis a deslizamentos. Nós temos como saber onde há unidades de saúde, escolas e moradias. O que temos que ter é um processo e um projeto de médio e longo prazo. Não é falta de dados e informações. Há um processo de desaceleração de iniciativas de adaptação durante mudanças de governo. Chamo atenção que não dá para diminuir, tirar o pé do acelerador ou parar nesse momento porque nós já estamos muito para trás. 

E como estão as iniciativas em outros países?

Alguns países sequer botam o pé no acelerador para realizar as mudanças e adaptações necessárias, indo além das medidas preventivas. Há uma preocupação em todo mundo. Há iniciativas avançadas de adaptação no Canadá, no Reino Unido e na Austrália, por exemplo. Os países asiáticos têm orientações muito consistentes e diversas. Mesmo esses países que estão investindo e onde há uma consciência maior da população e dos governantes, de modo geral, vêm sofrendo com chuvas sem precedentes que não vivenciaram antes. Seus investimentos em adaptação ainda os colocam diante de situações revelando a vulnerabilidade da população e dos serviços de saúde, numa escala muito menor que no Brasil. 

Em qual ponto o Brasil se encontra? 

Com as mudanças que o Brasil vivenciou principalmente nos últimos quatro anos de um governo que tinha como uma das suas características centrais o negacionismo, não só o relacionado à covid, mas também às mudanças climáticas, há um processo de expansão da fronteira agrícola, desmatamento e queimadas, claramente estimulados pelo governo. Tivemos retrocessos grandes, com perdas significativas, e a gente vai demorar um tempo para recuperar. Esse tempo eu suspeito que seja bastante longo porque mudanças significativas não serão realizadas de uma hora para outra. Ainda mais considerando que temos no momento um governo que está se equilibrando entre perspectivas por vezes em conflito e em disputa no que se refere às formas de enfrentamento das mudanças climáticas. Certamente significa um freio no processo que tivemos nos últimos quatro anos, mas talvez não signifique um pé no acelerador na velocidade que a gente precisa.

Como avançar na questão da emergência climática? 

Não há dúvida de que o enfrentamento da emergência climática exige um processo intersetorial, intrasetorial e uma articulação global que envolva várias negociações e também conflitos de interesse. Ao longo do século 20, só os Estados Unidos foram responsáveis por pouco mais de 30% do total de emissões. Se eu somo os países da Europa ocidental e oriental, incluindo a antiga União Soviética, só ali houve 40% das emissões de dióxido de carbono durante todo o século 20. Os países com maiores desigualdades e menos desenvolvidos do ponto de vista econômico, ou que não estão no centro das economias e tomam decisões globais, como o Brasil, estão sendo demandados para tomar um conjunto de iniciativas que impactam em seu modelo de desenvolvimento, baseado na economia de carbono, que é uma economia poluente.

De onde virão os investimentos para mudar os processos econômicos desses países?

Os países menos desenvolvidos demandam que esse processo de mudança e adaptações venha junto com investimentos para que eles possam fazer também uma mudança na sua economia. Esse é sempre um processo de disputa. Mesmo alguns dos países ricos não vêm realizando mudanças mais significativas na velocidade que seria demandada. Essa concertação envolve disputas muito grandes de interesses. Até porque as queimadas na Austrália, no Canadá ou no Brasil não têm impactos somente locais. Isso vale para as emissões de dióxido de carbono [CO2] por automóveis e uma série de outros processos que contribuem para as mudanças climáticas. Não há como se fazer isso sem o provimento de recursos de uma forma equitativa, ou seja, que aqueles que mais precisam tenham maiores investimentos.

A pandemia mostrou que, a despeito do contexto, muitos países atuam em defesa de seus interesses.

A solidariedade global está longe de ser uma realidade. Na pandemia, os países que tinham mais recursos correram mais rápido para ter mais ainda. O Canadá teve uma quantidade de vacinas que ultrapassou em várias vezes o tamanho da sua população. Podemos citar vários outros países, mas o Canadá é um país muito ativo no enfrentamento das mudanças climáticas e, mesmo com todo o discurso de solidariedade muito presente na sua política externa, é “farinha pouca, meu pirão primeiro”. 

Há possibilidade de os países, juntos, resolverem a questão das mudanças climáticas? 

É possível que o problema seja enfrentado, não sei se resolvido a curto prazo. Do ponto de vista da compreensão do diagnóstico, está clara a existência de desigualdades e iniquidades, além das mudanças na economia que devem ser realizadas. O que temos é uma disputa grande de interesses econômicos e políticos de quem vai deter o controle da mudança, porque isso envolve transferência de tecnologias como carros elétricos, formas de se produzir mais limpas, transferência de custos ambientais… Somos um país exportador de proteína, grãos e minério e uma boa parte dos custos ambientais desse processo fica aqui. Tem uma parte que é um custo global para todos e tem um custo que fica aqui: desmatamento, queimadas, utilização de agrotóxicos e impactos da expansão de uma forma de produção agrícola muito centrada na monocultura. No Cerrado, há a expansão de determinados tipos de monocultura, como eucalipto, e plantações com uso de agrotóxicos e uso intensivo de água. A mineração utiliza muita água e um desastre na mineração tem impacto nas águas e na poluição delas. 

Como encontrar o equilíbrio no processo? 

Acho que vai ser difícil a gente mudar de uma hora para outra, mas a gente está dizendo que é difícil há mais de 30 anos. Poucas mudanças foram realizadas no modelo de desenvolvimento. Não sou especialista no modelo de desenvolvimento dos diversos países, mas, quando olho para o Brasil, o que a gente efetivamente caminhou em termos de mudanças significativas no modelo de produção agropecuária para reduzir os impactos? Nosso modelo de transporte urbano é ainda muito centrado no veículo individual e não avançamos em políticas de transporte urbano ou outras políticas de transporte para reduzir as emissões. O transporte para cargas é todo baseado em caminhões e isso tem um custo ambiental de emissões dos poluentes dos combustíveis e das próprias estradas como um todo.

O problema está mais difícil de ser enfrentado agora? 

A gente pode usar o exemplo do consumo de carne. Um cidadão médio norte-americano consome de 30 a 40 vezes mais carne que um cidadão ou cidadã na África. Se um quilo de carne consome em média 15 mil litros de água, do ponto de vista da pegada ecológica, um cidadão médio norte-americano está consumindo 30 a 40 vezes mais do que um africano. Isso é importante porque nas perspectivas malthusianas que vieram com o relatório Os limites do Crescimento na década de 70, responsabilizava-se muito os países mais pobres pelos processos de degradação, até porque os mais pobres tendiam a ter mais filhos. Esse não é um problema só demográfico, é um problema também de desigualdade, porque uma criança média americana consumirá o correspondente a cerca de 30 ou 40 crianças africanas, só no consumo de carne. O consumo de água terá cálculos similares. Há uma desigualdade muito grande no consumo em que 20% da população mundial consome aproximadamente 80% dos bens globais. Sem enfrentar essa questão, a gente não tem como enfrentar também o tema da mudança ou emergência climática, para ser mais preciso. 

A redução da desigualdade levará ao controle da alteração no clima?

A emergência climática se consolida diante das desigualdades sociais e ambientais. É preciso haver uma concertação global efetiva baseada na equidade entre os países para promover uma mudança de modelo de desenvolvimento. Ela não pode estar dissociada de uma maior equidade se não envolver o que a gente considera básico para uma melhor condição de vida, como emprego, renda, água e alimentos, entre outros. Sem isso, acho difícil a gente avançar. Estamos diante de uma encruzilhada e sem enxergar muitas saídas.

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