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Conheça três perfis de jovens ativistas que transformaram a mobilização em rede em estratégia de luta dos povos originários

Quando a jovem Txai Suruí soltou a voz na abertura da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26), em novembro de 2021, na Escócia, ela chamou a atenção para a importância da preservação da floresta Amazônica e dos povos originários, que estão na linha de frente da emergência climática. Também exibiu para o mundo a lucidez e o carisma da juventude indígena brasileira. Como Txai, há centenas de outros nomes que vêm se organizando em rede no território nacional, lançando mão de ferramentas de comunicação e se fazendo ouvir mais e mais alto, dia após dia. Juntos, gritam contra o Marco Temporal, cobram a demarcação de suas terras, noticiam as violações do Estado e a fúria dos invasores, mobilizam-se contra o racismo e o preconceito, reivindicam sua identidade.

Conheça o perfil de três jovens ativistas indígenas — Alana Manchineri, Samela Sateré-Mawé e Miguel Buréta —, que contam como esse caminho começou.

Perfil | Alana Manchineri

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“A comunicação como estratégia”

Em primeiro plano, as pernas de um indígena e um imenso manto colorido. Ao fundo, representantes de muitos povos, enfileirados, de costas para a fotógrafa e de frente para um famoso cartão postal de Brasília — sede das duas casas do Poder Legislativo, o imponente palácio do Congresso Nacional. Sobre eles, o céu azul de poucas nuvens do planalto central do país. Descrita assim, a fotografia parece menos impactante. Mas a imagem, feita por Alana Manchineri, vale por mil palavras. Veiculada pelo portal de notícias da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), chamava a atenção para as manifestações em defesa das demarcações de terras indígenas no Brasil, às vésperas do aguardado julgamento da tese do Marco Temporal pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2021.

Filha de pais que desde muito cedo a levavam para mobilizações em defesa da causa indígena, a jovem ativista do povo Manchineri descobriu na comunicação uma aliada. A guinada veio em 2018, quando participou de uma formação para jovens indígenas que reuniu em Quito, capital do Equador, coletivos de nove países da Bacia Amazônica para discutir comunicação e incidência política — esse o tema do curso que mudou sua vida. “A gente entende a comunicação como um instrumento de poder. E quando não estamos inseridos neste instrumento, há um apagamento da nossa identidade como indígenas”, diz.

Bióloga formada pela Universidade Federal do Acre (Ufac), Alana hoje é coordenadora e mobilizadora da Rede de Jovens Comunicadores da Coiab. Escreve textos, roteiriza vídeos, fotografa, realiza oficinas, participa de debates, joga nas onze. Um dia, produz a seis mãos um conteúdo sobre o impacto das mudanças climáticas para os guardiões das florestas no Acre — reportagem publicada no portal da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). No outro, assina o roteiro de uma animação em que utiliza elementos da cultura indígena para dialogar com o público infantil sobre o enfrentamento ao coronavírus. Também pode ser vista na internet, junto com outros comunicadores, promovendo uma oficina de comunicação online (podcast e spot) na língua materna Manchineri e Jaminawa.

“A estratégia para debater ou enfrentar os muitos cenários de apagamentos que nos foram impostos é produzir nossas próprias matérias, nossas próprias fotos, nossa própria comunicação”, conta à Radis, dias depois de retornar de uma viagem ao Peru onde participou, pela primeira vez, da Cúpula Amazônica dos Povos Indígenas, cuja quinta edição aconteceu em setembro. Alana integrou a comitiva de 10 representantes da Coiab e foi a responsável pela cobertura jornalística do evento para a língua portuguesa. Entre outras notícias, a Cúpula revelou ao mundo que 26% do ecossistema da Amazônia foi destruído irreversivelmente pelo desmatamento, pela contaminação e pelo tráfico de drogas.

Para a ativista, não é possível separar a luta política da luta pela comunicação. “Por meio da rede de jovens comunicadores, a gente vem conseguindo fortalecer nossas vozes e nossos olhares na disputa de narrativas”, ressalta, em mais um dos muitos áudios que enviou à Radis. A entrevista teve de acontecer enquanto Alana se deslocava, entre as muitas agendas cotidianas e uma ida à aldeia — a maioria dos Manchineri habita a Terra Indígena Mamoadate, havendo ainda muitas famílias vivendo em seringais no Acre, sobretudo no interior da Reserva Extrativista Chico Mendes.

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Além de coordenar a rede de comunicadores da Coiab, que já formou mais de 50 jovens para atuar em seus territórios, a jovem de 32 anos é uma das fundadoras e diretora de comunicação da MATPHA (@matphaac), organização indígena em contexto urbano, e integra ainda a rede de comunicadores Tambores da Selva, também ligada à Coordenação de Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica). Quando não está em Manaus, onde vive atualmente por conta da sede da Coiab, instalada na capital amazônica, passa os dias em viagem pelos estados que desenvolvem ações e projetos apoiados pela instituição — são 44 em execução dentro da Amazônia Brasileira.

“Agora, a gente não precisa mais depender tanto dos jornais padrões que emitem opiniões estereotipadas sobre povos indígenas”, comemora Alana, reconhecendo avanços, mas admitindo que ainda há um longo caminho a percorrer. “Precisamos que todos os profissionais que fazem comunicação, não somente os indígenas, tenham consciência da diversidade de povos”. Seja como for, ela não tem dúvidas de que a rede de jovens comunicadores vem avançando a passos largos.

Este ano, enquanto participavam do Acampamento Terra Livre (ATL), em abril, e foram surpreendidos por uma denúncia de invasão por garimpeiros no território Xipaya, no Pará, foi a atuação de um dos jovens comunicadores que ajudou a dar visibilidade ao assunto. “Logo uma rede foi montada e tivemos um alcance muito grande”, lembra. “Agora, temos uma comunicação indígena de fato, as nossas comunicações funcionam, o que acontece no Mato Grosso, a Fepoimt [Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Mato Grosso] comunica; o que acontece no Pará, a Fepipa [Federação dos Povos Indígenas do Pará] comunica”.

Se o assunto é diminuir estereótipos e pôr fim a silenciamentos, Alana não descansa. Durante um encontro promovido pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) em 2021, ela contou sobre um trabalho de pesquisa que vivenciou em uma escola na periferia do Acre. “A primeira pergunta que fiz quando chegamos foi se havia indígenas ali. Era possível ver pelos traços que alguns alunos eram de famílias indígenas, mas, naquele momento, ninguém se identificou como tal e vimos outras crianças zombando dessa questão”, relatou, na ocasião. Depois de um ano compartilhando a cultura indígena com professores e alunos, ao repetir a pergunta original, muitos se identificaram como indígenas e outras crianças passaram a respeitá-los. “Somos indígenas estando na aldeia ou em Manaus, na Europa, no Japão. Essa é a nossa identidade”, resume.

Perfil | Samela Sateré-Mawé

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“O futuro é ancestral”

O relógio da Terra não para. Seis anos, 305 dias, 2 horas, 42 minutos e 14 segundos. Esse é o tempo, segundo os ambientalistas, que falta para que sejam adotadas medidas efetivas a fim de mitigar os efeitos das mudanças climáticas e evitar catástrofes decorrentes do aquecimento global. Com o semblante sério, Samela Sateré Mawé segura o cronômetro do clima, que se tornou símbolo de um movimento global, com protagonismo da juventude, que exige ações dos líderes políticos para salvar o planeta quando ainda há tempo. “Não tem como desassociar a pauta indígena da pauta ambiental, porque nós, povos indígenas, somos os principais guardiões do meio ambiente, guardiões da Terra, do bioma e da flora”, afirma à Radis.

A jovem de 25 anos, estudante de Biologia na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e oriunda do povo Sateré Mawé, tornou-se um dos rostos mais conhecidos na luta da juventude indígena pela preservação ambiental. Luta que atravessou fronteiras e ganhou repercussão internacional: Samela, ou simplesmente Sam, como é conhecida, integra o movimento Fridays for Future (fundado pela sueca Greta Thunberg), que reúne jovens do mundo todo em defesa da Terra. “Nós estamos utilizando as nossas armas contemporâneas, que são os celulares e a internet. Essas são as nossas ferramentas de luta e resistência”, declara.

Filha e neta de mulheres indígenas que dedicaram a vida em defesa dos seus territórios, Sam conta que se inspira no exemplo da avó, Zenilda Sateré Mawé, fundadora da Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé (AMISM), em Manaus (AM). “Eu nasci numa associação do movimento indígena, que tem protagonizado a luta das mulheres. Quando percebi que poderia usar a minha voz para ser um veículo para difundir tudo o que estava acontecendo com nossos povos através da comunicação, eu não hesitei”, explica.

Com mais de 82 mil seguidores em seu Instagram (@sam_sateremawe), Samela atua como influenciadora digital e comunicadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga). Também é apresentadora do Canal Reload (@canalreload), em que busca desmistificar estereótipos que ainda existem sobre os povos indígenas — como a visão de que eles são “barreiras ao progresso”. “Nós, povos indígenas, temos um pensamento de pertencimento e conexão [com a Terra], e não essa ideia eurocêntrica de acúmulo e de se sentir superior em relação à natureza e ao que ela nos dá”, reflete.

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O caminho para se tornar uma jovem ativista com projeção nacional (e internacional) aconteceu com a pandemia de covid-19, quando ela se tornou porta-voz do movimento de mulheres indígenas para divulgar a confecção de máscaras de pano e cobrar ações emergenciais voltadas para prevenir o avanço do novo coronavírus nas aldeias. Logo ela percebeu que poderia utilizar a comunicação como uma “arma” em defesa não somente do seu povo, mas dos povos originários como um todo. “Tentamos difundir todas as notícias e informações sobre o que tem acontecido dentro dos territórios indígenas, como ameaças, desmatamento, garimpo, caça e pesca ilegal, grilagem e avanço da mineração”, resume.

Em novembro de 2021, ela viajou para a Escócia para participar da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 26). A decisão de se tornar uma “porta-voz” da pauta indígena veio com a percepção de que as ideias que circulavam sobre os povos originários na mídia e na sociedade em geral geralmente eram distorcidas. “A grande mídia não nos representa. Ela não difunde narrativas corretas sobre os povos indígenas”. É preciso, como ela diz, fazer valer a máxima de “Nada sobre nós sem nós”. “Por muito tempo, nós tivemos pessoas falando por nós: antropólogos, historiadores, pessoas que escreveram livros e tudo o mais. Mas agora nós somos protagonistas da nossa própria história”, defende.

Em uma postagem recente nas redes sociais, ela nos convida a uma reflexão: “Volte os olhos e refloreste sua mente para o futuro ancestral indígena.” Com esse convite, ela lembra que — embora a pauta indígena seja central na defesa da Terra —, essa é uma responsabilidade que cabe a todo mundo. “A responsabilidade por defender o que é nosso, o bioma e tudo o mais, não é só dos povos indígenas. É de todos. Não são apenas os povos indígenas que dependem da Terra viva”, ressalta. Da Amazônia para o mundo, Sam une em sua luta o passado e o presente, o local e o global: “Eu espero que as pessoas se deem conta de que o futuro é ancestral”.

Perfil | Miguel Buréta

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“Por nosso direito de existir”

Aconteceu quando Miguel Buréta estava a caminho do trabalho — rua pacata, quase nenhum transeunte. Um carro em alta velocidade por pouco não o atropelou. Tentou pedir mais atenção ao motorista e o que ouviu, como resposta, foi uma ameaça racista: “Você quer levar dois tiros na cara, ó Tapeba?”, esbravejou o homem branco ao volante contra o jovem indígena que, na verdade, faz parte do povo Tremembé.

Ao narrar o episódio à Radis, Miguel Buréta ainda lembra do ódio que havia no olhar do interlocutor. “Não bastavam ser dois tiros, tinham que ser dados na cara!”

Essa não foi a primeira vez que sentiu na pele o preconceito. Miguel já foi barrado na entrada de um hospital, em Fortaleza, e, em outra ocasião, foi surpreendido por um paciente que, ao descobrir que estava sendo atendido por um indígena, pediu que ele “fizesse a dança da chuva”. Cenas como essas são reveladoras de um Brasil que discrimina e invisibiliza cotidianamente seus povos originários.

O próprio Miguel demorou a se reconhecer indígena. Sabia que tinha herança ribeirinha e um avô que plantava nas várzeas dos rios e retirava a subsistência do plantio e da criação de pequenos animais. Mas viveu uma infância urbana na capital do Piauí, Teresina. Por suas características físicas, quando criança, era o garoto da escola que ganhava adereços típicos. “Nas festas de abril, eu era sempre o ‘índio’, uma coisa bem caricata”, conta. Em casa, ninguém falava no assunto. Foi só quando entrou na universidade e reparou nas muitas violências e apagamentos sofridos pela cultura indígena no país que Miguel se deu conta de sua ancestralidade.

Há sete anos, enquanto participava de um encontro nacional de estudantes de Farmácia, no Rio Grande do Sul, foi chamado de “índio domesticado”. Começava aí uma travessia individual de aproximação com suas origens. “Até então, muitos da minha própria família se identificavam como negros, mas aos poucos estão ficando mais sensíveis à discussão e reconhecendo direitos que lhes haviam sido negados”, acrescenta, chamando a atenção para o racismo estrutural que impera no Brasil e ainda insiste em designar quem é indígena — e quem deixa de ser. Hoje, Miguel vem se tornando uma das principais vozes do movimento de retomada em sua região.

Para que não restem dúvidas: retomar, diz o dicionário, é tornar a tomar (algo concreto ou abstrato, que se perdeu); recuperar; reaver. Povos indígenas em retomada estão, portanto, reivindicando, entre outras coisas, o direito constitucional à terra, à educação, à língua ou à saúde, como previsto pelo SUS. Nesse movimento, buscam dar continuidade a uma história interditada e reafirmar identidades étnicas há muito comprometidas, ora pela violência ora pelo descaso do poder público, sem contar ainda com o preconceito. Nas palavras de Miguel, a retomada é um processo de “desapagamento”. “É quando você se olha no espelho e começa a ver tudo aquilo que apagaram de você ou lhe silenciaram, aquilo em que seu avô e bisavô acreditavam e que você deixou de acreditar, a língua que lhe ensinaram a não falar e tudo o que ficou para trás”, diz. “É como se você fosse em busca do seu passado”. Ele foi.

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Miguel na marcha Tremembé, em Itarema (Ce), em 2019. (Foto: Poliana Oliveira)

Desde então, ao lado de outros parentes, vem construindo estratégias de acolhimento a jovens que, como ele, em algum momento se sentiram “perdidos em um não-lugar” — diz. “Esse é um primeiro passo para sensibilizar nossas famílias sobre suas origens mais profundas, sejam elas históricas, culturais ou geográficas”, explica, citando as muitas migrações que ocorreram nas fronteiras entre os estados do Piauí, Maranhão e Ceará e que provocaram a desterritorialização de povos indígenas. Via WhatsApp, o grupo de retomada aproximou jovens que agora se autodeclaram indígenas. “Nesse caminho, já localizamos várias diásporas, muitos aldeamentos forçados e a presença marcante em resistências no passado como durante a Balaiada [revolta popular que aconteceu no Maranhão entre 1838 e 1841]”, resume.

Além disso, os integrantes do grupo produzem textos e materiais diversos e organizam campanhas que favorecem o acesso a direitos antes negados. Miguel lembra que a mobilização do grupo, durante a pandemia, foi essencial para garantir a vacinação dos povos indígenas no Piauí — por não contar com terras indígenas homologadas, o Estado foi o último a assegurar imunizantes para essa população. Naquela ocasião, eles não mediram esforços para ajudar a viralizar a campanha “Vacina Parente!”, da Apib. O movimento foi tão bem-sucedido que o Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu que todos os povos indígenas, mesmo os que moravam nas cidades ou que não estavam em áreas demarcadas, deveriam ser vacinados.

“Sou filho do não estado / Que no fim não tem estado / Que até hoje é litígio”. Os versos são de Apingorá Buréta Boró, como Miguel se apresenta, pelo menos nas redes sociais. O prenome ele ganhou no batismo da capoeira, já “Buréta” é apelido de família — “Minha família não era conhecida como povo Tremembé, mas pelo nome de Buréta”, relata. A alcunha é uma corruptela de Uruburetama, cidade cearense situada na Serra da Ibiapaba, que já foi um aldeamento de onde seus antepassados migraram. O “Boró” fica por conta de outra história: “Meu bisavô é fruto de uma violência praticada contra uma mulher indígena. Ele foi criado como filho bastardo de uma família ‘nobre’. Mas como ele não herdou o nome nem nada mais, cresceu como um criado, um capataz. As pessoas diziam: ‘Esse daí não tem nenhum boró’ [espécie de moeda]”, conta.

Em seu perfil no Instagram (@apingorahbureta), Miguel utiliza a poesia, a fotografia e outros elementos estéticos como forma de resistência. A retomada e os muitos racismos cotidianos dão a tônica das postagens. “É que, além da luta física, também disputamos a luta política através dos meios de comunicação e do espaço virtual, que se tornaram essenciais para o nosso povo”, afirma. Por meio dessas ferramentas, vem enfrentando o debate em um país cuja questão racial é quase dupla-face, diz. “Ou você é branco ou é preto. Mas se eu tenho o olho puxado ou a pele mais escura e o cabelo liso, eu não sou nem um nem outro. Então, eu sou o quê?” Outro grande passo étnico dado pelo grupo diz respeito à retomada da língua, antes pouco conhecida ou dada como morta. “A gente foi juntando palavras que conhecíamos, cantos repassados por nossos ancestrais, e preenchendo com outras línguas indígenas”.

Aos 30 anos, Miguel é farmacêutico e está cursando uma pós-graduação. Para breve, planeja um doutorado em que pretende estudar a “epidemia do etnocentrismo”, como ele vem chamando. “Porque o apagamento aos indígenas foi uma epidemia que continua acontecendo diante dos olhos de qualquer brasileiro”, sublinha. “Em breve, vão dizer que os Yanomami não existem mais. Mas eles estão lá, trabalhando à força no garimpo, por exemplo, e perdendo a sua identidade”. Para Miguel, o maior desafio dos povos indígenas hoje está em garantir a vitória contra o chamado Marco Temporal — controversa ação que tramita no Supremo Tribunal Federal que defende que povos indígenas só podem reivindicar terras onde já estavam na data de promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988. “Essa é a luta pelo nosso direito de existir e que afeta não somente os indígenas que habitam as aldeias, mas também aqueles que vivem em ambientes urbanos que querem fazer a retomada”, diz Miguel. “Isso é o que vai determinar acesso a direitos, inclusive melhorias nas políticas púbicas”.