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Primeiro editorial do ano, primeira revista também. Como seria bom se Radis pudesse anunciar que a pandemia está com os dias contados graças ao trabalho da ciência que venceu a ignorância, que as crianças já estão vacinadas, que os propagadores das trevas foram cancelados por divulgarem fake news, que os países ricos finalmente distribuíram milhões de frascos de vacinas para os países pobres, que o trabalho e a renda do povo está crescendo, que as inundações e a tragédia de desmoronamento do paredão de pedras na cidade de Capitólio nunca existiram, assim como o apagão dos dados sobre covid no Ministério da Saúde. Ah, como seria bom!

Infelizmente a realidade não é esta e a fatalidade espelha uma realidade nua e crua, onde o país tenta sobreviver sob os escombros da insensibilidade, do negacionismo e da negligência de suas lideranças, como mostra esta edição.

A jornalista da Radis Liseane Morosini realizou uma extensa matéria sobre pessoas com deficiência. Ouviu mães de crianças que relataram as dificuldades encontradas para integrar seus filhos em ambientes que deveriam acolhê-los, como as escolas. Ouviu pessoas com deficiência que encontram todo tipo de dificuldades, desde falta de equipamentos preparados para atendê-los mesmo em consultórios médicos, até espaços inadequados para permitir a acessibilidade e a comunicação. Todos os relatos citam a discriminação, a segregação e a falta de reconhecimento da diversidade humana que resultam da ausência de políticas públicas, do entendimento das diferenças e da empatia. Pelo peso de ideias pré-concebidas sobre o que é ser normal, julgamos quem é diferente.

Para além de políticas públicas que envolvam a escuta do outro, é preciso que haja investimento em educação capaz de superar as crenças limitantes e os estereótipos, oportunidades e respeito com apetrechos para vencer cada etapa de dificuldade que se apresente na vida da pessoa com deficiência.

Recentemente, um decreto do Ministério da Educação propôs criar a Política Nacional de Educação Especial Equitativa (Pnee), que recriaria as escolas “especiais” para crianças com deficiência. Esta iniciativa provocou a reação de pais e especialistas que defendem a escola como espaço de inclusão e não de segregação e definiram esta criação como “uma resposta simplista, pouco inteligente e pouco eficiente”.

Um dos especialistas ouvidos sobre o assunto, professor Reinaldo Fleuri, é bastante crítico deste decreto e defende a presença de pessoas com diferenças nas escolas regulares, para que toda a comunidade educativa possa aprender a lidar com as “diferenças e singularidades” de cada um e assim se capacitar em diferentes linguagens e relações, principalmente as que fogem aos padrões hegemônicos e são consideradas deficientes.

Quem são os indocumentados, como vivem, quem se importa com eles, quantos são no Brasil? Um assunto pouco discutido no país de milhões de invisíveis. Uma tese, um livro, uma redação para a prova do Enem e um ônibus do tribunal de Justiça do Rio e muitas histórias com negações de direitos. O que isto têm em comum entre si está na entrevista que a autora da pesquisa e do livro concedeu à repórter Ana Claudia Peres para esta edição.

Com todos os percalços e desventuras que herdamos de 2021, o que precisa resistir é a luz da esperança na vida e a consciência de que todos têm direito de não se reduzir a um personagem de uma sinfonia de uma nota só, porque só somos plurais com todas as singularidades.

Um Ano Novo melhor que 2021 para nossos leitores!

■ Justa Helena - Subcoordenadora do Programa Radis
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Comentários para: Somos plurais na singularidade

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