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O episódio é recente: ocorreu em março, numa universidade de Bauru (SP), e causou rebuliço nas redes. Apesar de ter apenas 44 anos, Patrícia foi alvo de chacota por colegas de classe, que a identificaram como “velha”. Ou seja, foi vítima de “etarismo” ou “idadismo”, como chamamos a discriminação por idade. Mas não importa o nome que se dê a esse preconceito: fundamental é reconhecermos que se trata de um preconceito estrutural no Brasil. E que, assim como o racismo ou qualquer outra discriminação, causa dor na vítima e consequências negativas para toda a sociedade. 

Três colegas do curso de Biomedicina de Patrícia, com quase metade de sua idade, gravaram um vídeo zombando: “Ela tem 40 anos já. Era para estar aposentada.” “Gente, [com] 40 anos não dá mais para fazer faculdade.” Chama atenção o fato de identificarem como velha uma pessoa com idade inferior a sessenta anos. Dessa maneira, podemos afirmar que o conceito de “velhice” não depende apenas da idade cronológica. Qualquer pessoa pode ser considerada “velha” por um grupo que a julgue inferior, descartável, não produtiva.

A vítima principal do evento foi Patrícia, mas as agressoras também são resultado do idadismo estrutural. A sociedade “reserva” espaços, como a universidade, para a chamada juventude. Na ausência de políticas públicas que promovam a convivência de diversas gerações, reforçam-se comportamentos nocivos. 

É contraditório: nosso acelerado envelhecimento demográfico acentuou o idadismo. As muitas perdas de direitos trabalhistas experimentadas nos anos recentes, assim como a banalização da morte de pessoas idosas na pandemia — por parte inclusive de autoridades — intensificaram a discriminação. O medo de envelhecer leva as pessoas a rejeitarem aquelas que representam quem elas próprias serão, no futuro.

O idadismo pode fazer vítimas de qualquer idade, mas é mais cruel entre as pessoas idosas. A cada dois idosos, um já sofreu de idadismo. No livro “A Velhice: Realidade Incômoda” publicado em 1970, Simone de Beauvoir denunciou a “conspiração do silêncio” sobre as injustiças e preconceitos relacionados ao envelhecimento. Outro sociólogo, Norbert Elias, associa o envelhecimento a distanciamento social, invisibilidade, luto e abandono. Não à toa, a luta contra o idadismo tem muitas semelhanças à luta contra a discriminação de pessoas com deficiência. É a sociedade que precisa mudar e promover a inclusão.

O idadismo machuca, mesmo sem ser percebido. Mas, quando assimilado por suas vítimas, torna-se uma forma de violência ainda mais grave. Acarreta um sentimento de inferioridade terrível, como afirma Susan Sontag. Algo que silencia a pessoa idosa até em sua subjetividade, com repercussões na saúde, como sensação de solidão, abandono e perda do desejo de viver. Essa discriminação não é apenas exercida por pessoas mais jovens. Também está dentro de casa. E em instituições como bancos, hospitais e até na produção de conhecimento. Nós realizamos uma pesquisa, a ser publicada na Revista Ciência e Saúde Coletiva, na qual constatamos que a escolha da linguagem também desempenha um papel crucial na reprodução do idadismo. Expressões como “velho demais” ou “parece um velho” podem contribuir para a exclusão social. Assim como a comunicação ou o tom de voz infantilizado, no trato com idosos. Mesmo que ocorra com intenção carinhosa, é uma forma de discriminação etária, pois busca controlar comportamentos e anular a cidadania e a autonomia da pessoa idosa.

O idadismo afeta ricos e pobres. Entretanto, pessoas pobres, negras e com outras condições que a sociedade em geral discrimina sofrem ainda mais, pelo acúmulo de violência social. A discriminação existe até no direito a envelhecer: a média de idade à morte é de 46 anos para indígenas, 61 para negros e 70 para brancos.  

O idadismo, afinal, está associado ao valor do ser humano no capitalismo. Envelhecer em uma sociedade em que o corpo juvenil e a força de trabalho são grandes valores econômicos, contribui para a vulnerabilidade da velhice. E isso mesmo em países como o Brasil, onde pessoas idosas desempenham papel fundamental na redução da pobreza familiar ao ajudarem jovens e adultos a se inserirem no mercado de trabalho — quando, por exemplo, cuidam dos netos.

A OMS propôs três estratégias no “Relatório Mundial sobre o Idadismo”: implementação de leis e políticas públicas, intervenções educacionais, como a inclusão digital, e contato intergeracional. Nós, autoras, propomos que seja também incluída a participação de ativistas, de direito e saúde da pessoa idosa, nas lutas identitárias, como a luta contra o racismo, contra o machismo, contra a discriminação LGBTQIA+, na luta contra a fome, entre outros. Essas condições interagem com o idadismo. 

A sociedade precisa pedir desculpas a Patrícia, às jovens que cometeram a discriminação e, especialmente, às pessoas idosas que sofreram e/ou que irão sofrer de idadismo. Precisamos mudar a sociedade brasileira, reagir contra o capitalismo nocivo e defender valores associados com o bom viver.

* Dalia Romero é doutora em Saúde Pública e coordenadora do Grupo de Informação em Saúde e Envelhecimento (Gise), do Icict/Fiocruz; Nathalia Andrade é socióloga e assistente de pesquisa do mesmo grupo.
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