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Dia 1: A Casai Yanomami

Em silêncio, as mulheres Yanomami caminham com suas crianças nas costas, suspensas pelas tipoias coloridas feitas com algodão trançado. Os outros filhos as seguem pelos corredores. Em fila, aglomeram-se na entrada do refeitório enquanto aguardam a retirada do almoço. Logo retornam, uma após a outra, como quem segue por uma trilha na mata — com habilidade natural, equilibram a criança, mais de uma quentinha nas mãos, um copo de suco e a fruta de sobremesa.

No corredor, uma criança de cerca de dois anos, nua, parece contemplar o vazio à espera de alguém. Onde estaria a sua mãe ou o seu pai? O movimento dos Yanomami em direção ao refeitório não cessa. Mulheres e crianças sorriem e acenam, quando passam por nós. Longe da floresta, elas não trazem seus adornos habituais feitos de palmeiras e outros vegetais, na face e nos lábios. Adornam-se de plástico; fazem da embalagem descartada de agulhas, material para a confecção de brincos e colares.

Essa alternativa encontrada pelas mulheres Yanomami para se enfeitar é um retrato da forma como este povo reinventa o seu cotidiano na Casa de Saúde Indígena (Casai) Yanomami, em Boa Vista, Roraima, durante os longos meses de espera para voltar para casa. Deslocados de seu território, os indígenas buscam maneiras de resistir.

A complexa estrutura da Casai tornou-se o epicentro da assistência prestada durante a Emergência Yanomami, decretada em 20 de janeiro de 2023 [Leia aqui]. Erguida na Zona Rural de Boa Vista, a 12 km do Centro, onde fica o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’kuana (Dsei-YY), a unidade não é um hospital, mas um ponto de apoio que recebe os indígenas quando chegam do território.

Em 7 de março, quando lá estivemos pela primeira vez, a Casai abrigava 703 indígenas — entre pacientes e acompanhantes. Sempre oscilante, esse número chegaria a 737 pessoas nos dias seguintes, em uma estrutura em que caberia usualmente cerca de 300 indígenas. A maioria são Yanomami, mas há também Ye’kuana e outros povos.

Alojados em 18 malocas, em redes, e organizados por região, eles aguardam a conclusão do tratamento de saúde e a volta para o território. O que chamamos de “maloca” são pequenas construções de madeira ou alvenaria, semelhantes a casas, mas bem diferentes das grandes casas coletivas (xapono) que os Yanomami erguem na floresta.

A estrutura precária e a exposição a doenças são problemas enfrentados pelos indígenas na Casai. — Foto: Eduardo de Oliveira.
A estrutura precária e a exposição a doenças são problemas enfrentados pelos indígenas na Casai. — Foto: Eduardo de Oliveira.

A calmaria da manhã é cortada por um aviso de emergência. “Uma hemorragia”, ouvimos no corredor. A equipe de saúde, de prontidão no Posto de Enfermagem, corre para atender. O ferimento no braço enfaixado de um jovem indígena, de aproximadamente 16 anos, havia reaberto — o sangue pingava pelo chão. Depressa, ele é removido para o Hospital Geral de Roraima (HGR), em Boa Vista. A equipe informa que a lesão havia sido resultado de uma briga, durante a noite.

Brigas são comuns na Casai, especialmente no período noturno, instigadas pelo consumo de bebida alcóolica. O alcoolismo é uma questão séria de saúde vivida pelos Yanomami e atrelada à expansão do garimpo. “A bebida mata a gente. O pessoal não pensa direito. Não pensa na família. Não respeita gente, querendo brigar, querendo fazer conflito, querendo matar gente”, conta Maurício Irori Yanomami, agente de saúde indígena (AIS).

A entrada de bebida no território Yanomami, assim como da prostituição, de infecções sexuais transmissíveis (IST) e da malária, é facilitada pelo garimpo — que se expandiu na Terra Indígena Yanomami (TIY) com a negligência governamental dos últimos anos. “Os garimpeiros pagavam para os homens da comunidade 11 gramas de ouro por mês. Mas como eles não tinham onde gastar, o garimpo trazia toda a mercadoria de fora e vendia para os próprios indígenas, literalmente a preço de ouro. Assim entrava a cachaça”, narra Carla Rodrigues, médica de família e comunidade que trabalhou 11 meses na TIY. Junto com o álcool, ela explica, vieram as doenças psiquiátricas, a interrupção do plantio das roças e a desestruturação de todo o modo de vida Yanomami.

A permanência na Casai é longa — e pode chegar a meses ou anos. Quem nos conta é Marcelo Moura, com quem esbarramos em um dos corredores. Antropólogo do Museu Nacional, ele estuda a cultura Yanomami em seu doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 2018. Por falar uma das seis línguas deste povo, atualmente colabora com as equipes da Casai no levantamento de dados sobre os centenas de indígenas que vivem ali.

“Tem gente há anos [na Casai]. Ontem, na Casa dos Sanöma [um subgrupo Yanomami], encontrei uma família que está há um ano e pouco, porque a mãe está fazendo um tratamento longo. A família veio toda para ficar com ela”, relata. O transporte para o território, que se estende pelos estados de Roraima e Amazonas, só acontece de avião — e foi dificultado pelo cenário de desassistência, com a demissão de equipes e a destruição das pistas de pouso. “Agora mesmo ouvi de um Ye’kuana que ele está há dois ou três anos. Vem, faz o tratamento, não consegue voltar”.

O encontro

Encontro com Ifioma, da comunidade de Waputhá: sete dias de diálogo. — Foto: Eduardo de Oliveira.
Encontro com Ifioma, da comunidade de Waputhá: sete dias de diálogo. — Foto: Eduardo de Oliveira.

No início da tarde, um grupo de mulheres e crianças Yanomami se aproxima para conversar. Uma das mulheres, que amamenta uma bebê de colo, segura em minhas mãos e tenta se comunicar com algumas palavras em português: “fome”, “criança”, “diarreia”, “muita”. A grande maioria dos Yanomami abrigados na Casai não fala português — porém, a barreira da língua que existia entre nós começa a se desfazer pelo esforço mútuo de diálogo.

Indago o que aconteceu, por que elas estão ali. A mulher responde com três palavras: “pai”, “óbito”, “malária”. Entendo que seu companheiro, o pai das crianças, morreu de malária no Hospital de Boa Vista. Pergunto o seu nome, ela se recusa a dizer. Por uma questão cultural, os Yanomami evitam falar seus nomes para estranhos, como já havia me dito Marcelo: “Eles têm muito receio de falar os nomes, pois acreditam que isso os expõe muito. O nome deveria ser algo reduzido a um círculo muito íntimo de parentesco e confiança”. Em relação ao nome dos mortos, então, há um completo tabu.

Pergunto se elas não almoçaram no refeitório. Ela tenta dizer que as crianças não se adaptam à alimentação, que têm muita diarreia. O filho mais velho também está no hospital — “malária”, repete. As outras três crianças estão com ela na Casai. O menor, de cerca de 4 anos, sem camisa, é Éfiso; o maior, que deveria ter uns 8 anos, vestindo uma camisa do time gaúcho Internacional, é Marico; e no colo, uma menina, ainda sem nome.

Ela me conta que são de Waputhá, uma comunidade da região serrana, próxima ao polo base de Surucucu — área muito atingida pelo garimpo. Por fim, em um gesto de confiança, ela me diz seu nome: Ifioma.

Ao longo daqueles sete dias na Casai, a família de Ifioma e eu iríamos nos encontrar muitas vezes.

Dia 2: O agente de saúde da floresta

Maurício Irori Yanomami: o agente de saúde indígena (AIS) é um elo entre as equipes e os indígenas. — Foto: Luiz Felipe Stevanim.
Maurício Irori Yanomami: o agente de saúde indígena (AIS) é um elo entre as equipes e os indígenas. — Foto: Luiz Felipe Stevanim.

O crachá de “intérprete” indica que Maurício Irori Yanomami, 43 anos, é uma das peças fundamentais para a comunicação entre as equipes de saúde e os indígenas. O agente de saúde indígena (AIS) está há quatro meses na Casai; veio cuidar da papelada para a sua contratação e decidiu ficar. “Queria trabalhar em área com meu povo, mas agora quero ajudar aqui”, diz.

Sua aldeia fica em Maxokapiu, no curso médio do Rio Demini, na porção da Terra Yanomami localizada no Amazonas. O nome Irori é uma variação aportuguesada de Urihi, a floresta sagrada. O agente de saúde conta que o garimpo não chegou em seu território; por isso, a realidade é bem diferente daquela vivida pelos Yanomami de Roraima. “Nosso território não foi estragado pela bebida e pelo garimpo”, afirma. Mesmo com o abandono do último governo, os indígenas resistiram: “Fomos até a boca do rio, não passa gente de garimpo, tem segurança [indígena] lá”.

Na Casai, Maurício exercita o ofício do diálogo, que aprendeu com os mais velhos. “O agente de saúde indígena tem que organizar, conversar com o técnico de enfermagem, ver o que é preciso fazer”, narra. “Queremos fazer junto com a população”. O AIS é como um elo entre a equipe de saúde e os indígenas, pois, ao atuar como intérprete e mobilizar a população, ele contribui para superar as barreiras linguísticas e culturais. “Os brancos só trabalham, mas não entendem. Eles têm que ouvir os Yanomami”, resume, sempre direto.

Para os indígenas que moram na Casai temporariamente, há muito estranhamento em relação à alimentação. “Estamos acostumados a comer as comidas das roças e da floresta. Biju, macaxeira, banana assada, açaí, bacaba”, descreve Maurício. Cuidar das crianças e da alimentação, compreendendo essas especificidades culturais, é uma prioridade, segundo o agente de saúde, para superar os casos de desnutrição e evitar a morte de crianças. “Problema de criança é diarreia grave. Não acaba a diarreia, mistura vômito, fraqueza. Aí a criança morre”.

O longo tempo de espera na Casai gera ciclos sucessivos de adoecimento. Em 8 de março, eram 392 indígenas acolhidos e 288 acompanhantes, além de 57 pessoas de alta, sem previsão de retorno para o território. “Ficam quarenta dias, três meses, cinco meses. O acompanhante dos pacientes adoece também”, relata o agente de saúde. “Quando forem melhorando as crianças, têm que ir embora logo para a aldeia”, sugere.

Dia 3: O alimento e o espírito

“A satisfação é de estar salvando uma vida”, afirma Nara Martins, nutricionista da Casai e indígena Macuxi. — Foto: Eduardo de Oliveira.
“A satisfação é de estar salvando uma vida”, afirma Nara Martins, nutricionista da Casai e indígena Macuxi. — Foto: Eduardo de Oliveira.

O dia amanhece e a nutricionista Lucinara Martins da Silva já está pronta para aninhar as crianças em seu colo e aplicar a fórmula que tem sido utilizada no tratamento dos casos graves de desnutrição. Em uma dessas manhãs, quando acabava de chegar para mais um dia longo de trabalho, Nara — como é conhecida — recebeu o abraço de uma mãe Yanomami, que havia sido sua primeira paciente na Casai, e estava de partida para o território. “A satisfação é de estar salvando uma vida. Não vemos somente uma criança indo, mas uma família inteira recebendo alta”, relembra.

O abraço da mãe Yanomami significa, para Nara, mais do que realização profissional — como indígena do Povo Macuxi, é a sensação de cumprir um dever ancestral de cuidado. Segundo ela, as mães se sentem confortáveis em entregar os filhos em suas mãos. Com carinho, ela coloca a criança na balança, pesa, calcula a proporção peso/altura, aplica a suplementação. “Nosso objetivo é fazer com que essa criança se recupere não apenas de forma individual, mas como um todo”, afirma a nutricionista, responsável técnica pelo Centro de Recuperação Nutricional da Casai.

[Leia em breve a reportagem completa sobre o trabalho da equipe de nutrição com as crianças Yanomami no site]

Ao passar por um grupo de mulheres e crianças, vejo Éfiso, o filho menor de Ifioma de quem falei no início da reportagem. Logo, a mãe também me reconhece e acena. Do nosso jeito, começamos um novo diálogo. Ela conta que os filhos choram e perguntam: “Cadê pai?” Segundo ela, as crianças também pedem comida: “Bolacha”.

Do lado de fora da Casai, alguns ambulantes vendem biscoitos, bolos, refrigerantes e doces. Ifioma diz que eles só aceitam fornecer os produtos mediante pagamento. Como a estadia na Casai pode se estender por muitos meses, os indígenas tentam obter recursos para sobreviver no mundo do “deus dinheiro”, como define o xamã e líder espiritual Davi Kopenawa — a venda de artesanato e doações são as soluções mais comuns.

“Este espaço é muito mal gerido. Não tem o menor controle de quem entra e sai. Entram pessoas com bebida, pulam o muro”, narra o antropólogo Marcelo Moura. Mesmo com o fluxo maior de equipes, após o decreto da Emergência, problemas estruturais como desorganização e falta de limpeza nos espaços não foram solucionados. “Tem gente que está aqui nessa situação há muito tempo, porque não consegue voltar para casa. Para levar de volta essas pessoas, depende de toda a logística dos voos”, ele completa.

Com 96,6 mil quilômetros quadrados, uma área maior do que Portugal, a TIY abrange seis línguas e diferentes grupos de um mesmo povo, alguns deles rivais ou que não costumam ter contato entre si. “Existem Yanomami aqui [na Casai] que nunca se viram nem se veriam em um contexto tradicional, porque essas visitações muito distantes não acontecem”, explica o antropólogo. Por isso, os indígenas são organizados em malocas por região. “Esse sistema em que eles estão alojados a partir das regiões e comunidades é uma forma de fazer com que fiquem próximos de pessoas com quem já têm relações”.

A superlotação, contudo, favorece os adoecimentos recorrentes. “Nos abrigos e alojamentos, eles ficam muito próximos uns dos outros, sem ventilação. Tem gente com tuberculose ficando no mesmo espaço que gente saudável”, explica Marcelo. O alimento, para os Yanomami, não nutre apenas o corpo, mas também o espírito — por isso, a recusa ou a dificuldade em se alimentar com uma comida que não pertence à sua cultura não é algo relacionado ao simples gosto ou à vontade individual, mas diz respeito à pertença cultural.

“No fundo, tudo isso são violências. A alimentação dos Yanomami é algo, para eles, precioso e fundamental. É parte da ideia de hospitalidade. Se você é mal alimentado na casa que você visita, isso vai prejudicar as relações. Imagina o que eles pensam da gente, nesse lugar onde eles comem uma comida diferente da que estão habituados”, reflete Marcelo. “O que a gente vê aqui é um ambiente caótico, os Yanomami desconfortáveis, demorando muito mais do que se deveria para voltar para casa. Tem muita gente que está de alta esperando para adoecer de novo”, completa.

Cozinhar os próprios alimentos é uma maneira de superar as barreiras culturais com a alimentação. — Foto: Eduardo de Oliveira.
Cozinhar os próprios alimentos é uma maneira de superar as barreiras culturais com a alimentação. — Foto: Eduardo de Oliveira.

Dia 4: O olhar dos trabalhadores

No início da manhã, a equipe de vacinação prepara um espaço próximo às malocas para começar a aplicar as vacinas. No dia anterior, poucos indígenas tinham sido imunizados: de 125 nomes, apenas 17 haviam sido vacinados [leia aqui]. Uma jovem Yanomami se aproxima, sugerindo que aquele dia poderia ser diferente.

Marico, filho de Ifioma, recebendo a dose de vacina. — Foto: Luiz Felipe Stevanim.
Marico, filho de Ifioma, recebendo a dose de vacina. — Foto: Luiz Felipe Stevanim.

Na maloca de Waphutá, encontro a família de Ifioma prestes a ser vacinada. Tranquilo, Marico recebe a dose da pneumo-13, ainda trajando a camisa do Internacional. Já Éfiso se assusta e chora bastante depois de receber a leve picada da agulha; a mãe tenta consolá-lo.

De prancheta na mão, a técnica de enfermagem Gislene Alexandre, a Giza, voluntária da Força Nacional do SUS (FN-SUS), atualiza os dados das famílias Yanomami. Quando chegaram, no início da Emergência, os voluntários mal tinham dados para trabalhar; os pacientes não contavam com prontuário. “A gente começou fazendo um levantamento por maloca, quem são as pessoas, quantas famílias, para entendê-los”, relembra. Ela procura saber quem é paciente e quem é acompanhante, às vezes consegue a resposta, às vezes não. “Na busca ativa, já encontramos crianças que precisaram ser removidas para o hospital. Fazemos remoção todos os dias”.

Giza é uma mulher negra, bem-humorada, que se orgulha de ser conterrânea de Milton Nascimento. A mineira de Três Pontas é também escritora, milita contra o trabalho escravo e atuava como voluntária da FN-SUS na Casai há 12 dias. “Receber esse chamado da floresta é como se fosse uma resposta ao coração. Sempre militei pela causa Yanomami desde que a gente soube dos problemas que eles estavam passando”, pontua.

Giza (de máscara), da Força Nacional do SUS: “Viemos para tentar ajudar”. — Foto: Eduardo de Oliveira.
Giza (de máscara), da Força Nacional do SUS: “Viemos para tentar ajudar”. — Foto: Eduardo de Oliveira.

A técnica de enfermagem conta que são poucos intérpretes — e, para conseguir se comunicar, ela já teve que apelar para as estratégias mais criativas, desde jogar futebol com as crianças até trazer miçangas para os indígenas confeccionarem artesanato. “Quando a gente identifica alguém que fala [os idiomas], vou fazendo o meu dicionário”. Ela conta que a equipe vai construindo, com o tempo, um vínculo de confiança com os Yanomami.

Sua visão resume os desafios enfrentados pelos profissionais do SUS em uma emergência sanitária com essas proporções: “A gente não veio aqui para salvá-los, não temos condições. Viemos para dar suporte e tentar ajudar, como SUS, e devolver para eles o que a vida nos deu, que foi o aprendizado”.

No comando dos serviços de saúde da Casai há pouco mais de 2 meses, a enfermeira Lucilene Gomes Ferreira mal consegue parar para almoçar. Após o decreto da Emergência, a chegada de equipes da FN-SUS, da organização Médicos Sem Fronteira e de outras instituições ajudou a resolver o problema grave de falta de profissionais. “Hoje a Casai conta com médico em período diurno. Antes não tinha”, pontua.

Casos de desnutrição em crianças correspondem ao principal problema de saúde dos pacientes abrigados na Casai (69 casos, em 8/3, segundo dados do MS). Em seguida, aparecem pneumonia (62), malária (42) e diarreias agudas (37). A lista também inclui tuberculose (25), síndrome gripal (20) e violência (14), entre outras causas de adoecimento.

Lucilene explica que a volta para o território ainda é um gargalo a ser solucionado. “A alta não é simples, pois o acompanhamento é multidisciplinar. Às vezes um paciente precisa de alta clínica, da fisioterapia e da nutrição”, aponta. Naquele dia, já eram 65 pessoas aguardando o retorno — e havia 2 dias que não saíam voos com pacientes. Ouvimos relatos de que os Yanomami sentem muita falta dos parentes que estão na aldeia; mulheres choram pensando nos filhos que ficaram. Um indígena afirmou à nossa equipe que precisava ir embora para fazer a roça.

Contudo, há também os que não querem voltar. “Alguns não querem ir para a aldeia porque, quando o território foi atingido pelo garimpo, não há comida”, relata o técnico de enfermagem da FN-SUS, Cleston Soares, conhecido como Blade. Lucilene avalia que o maior avanço, desde janeiro, quando começaram as ações de resposta à emergência sanitária, foi a reabilitação nutricional, que evitou as mortes de crianças. Mas ainda há muito para ser feito, a começar pela melhoria na estrutura física precária. “Hoje temos indígenas debaixo de árvores. Quando chove, ficam nos corredores”, conta.

Dia 5: A mulher das Serras com as crianças

No chão da Casai, famílias Yanomami acendem fogueiras para preparar seus próprios alimentos. Assam batata doce e banana, cozinham abóbora e macaxeira. Com facões, dirigem-se às matas das redondezas em busca de lenha. O cheiro de fumaça assando os alimentos sobe pelo ar.

No início da manhã, encontro com Ifioma, mas pela primeira vez ela não sorri. Diz que a cabeça dói: “Corona”, sentencia. O técnico no Posto de Enfermagem afirma que ela fará o teste para covid. Ela permanece sentada, no corredor, com a bebê no colo.

Ainda no posto, um Yanomami de meia idade, da Missão Catrimani, acabava de chegar do HGR. Ele se recuperava de uma picada de cobra e ainda trazia um dos pés inchados. Não tinha acompanhante. “Foi grande a cobra. Saiu muito sangue”, conta Paulo Yanomami. O enfermeiro Gracione da Silva Santos pergunta: “Você tem rede?” Ele responde que não. “Temos que arrumar uma rede para ele”, diz o enfermeiro.

Gracione da Silva, 21 anos de Saúde Indígena, 14 anos de Casai: “Tem que levar com leveza”. — Foto: Eduardo de Oliveira.
Gracione da Silva, 21 anos de Saúde Indígena, 14 anos de Casai: “Tem que levar com leveza”. — Foto: Eduardo de Oliveira.

Há 21 anos na Saúde Indígena, Gracione tem 14 anos de Casai. Ele conta que, quando trabalhou na TIY, na comunidade de Xitei, aprendeu algo que passou a levar para o resto da vida: a dar sem querer nada em troca. “Se você levar [isso] como trabalho, você surta. Você tem que levar com leveza”, diz Gracione, que ainda conta sua história: tem seis filhos biológicos e dois do “coração”; a esposa, também profissional de saúde, faleceu de covid. Uma história para narrar depois.

Procuro por Ifioma e as crianças. O teste de covid tinha dado negativo. Ela agora estava feliz pois havia ganhado uma panela grande de uma equipe encarregada do recadastramento das famílias Yanomami. Na panela, estava escrito: “Para a mulher das Serras, com as crianças”.

Depois do almoço, vejo uma maca passar — tomo um susto ao reconhecê-la. Ifioma é transportada até a tenda do Hospital de Campanha das Forças Armadas, no pátio da Casai. Os dois meninos, Éfiso e Marico, seguem atrás da maca, em silêncio e sem saber o que está acontecendo. A mãe é conduzida para dentro da tenda e os filhos ficam na porta, aguardando notícia. Procuro saber onde está a bebê e descubro que ela ficou com uma indígena mais velha na maloca.

Explico para a assistente social da FNS, Valéria Morales, que os meninos eram filhos de Ifioma — nem sempre as equipes têm essas informações à mão e desconhecem as relações de parentesco entre os acompanhantes. Ela me diz que a equipe médica avalia se a mãe será removida para o hospital. O que seria dessas crianças sozinhas na Casai, o pai falecido, a mãe hospitalizada? Valéria afirma que já houve relatos de crianças órfãs que são vítimas de abuso ou tráfico, por isso está atenta para acompanhar o caso.

Éfiso havia retornado para a maloca, onde estava a irmã menor. Marico, contudo, permanecia irredutível na porta da tenda, sob o forte sol das 14h em Boa Vista. Ele chorava, mas não arredava pé. Queria ver a mãe. Quando a equipe médica liberou a entrada, ele teve medo. Ofereci a ele um biscoito, ele se acalmou e entramos juntos.

Jamais sairá da minha memória os olhos de Ifioma ao ver o filho chegar. Uma lágrima desceu, em silêncio, pelo seu rosto. Nada disseram. Marico se agachou ao pé do leito e ali ficou. Deixei-os, pois a notícia era de que ela estava bem e não seria necessário removê-la para o hospital.

Dia 6: As crianças e a fogueira da vida

No dia seguinte, fui à Casai em busca de notícias de Ifioma. Não conseguia esquecer a imagem das crianças caminhando atrás da maca. Logo esbarro com Marico e ele me diz que a mãe está na Enfermaria Especial feminina, um local onde as pacientes ficam sob observação, em redes. A médica explicou que ela teve uma espécie de convulsão, talvez devido à fraqueza. Testes de covid e malária, negativos. A investigação para tuberculose inicialmente também indicava resultado negativo. Os sintomas que Ifioma relatava eram gripais; porém, com o corpo debilitado e ainda amamentando, sua saúde estava frágil.

Marico (de camisa do Internacional), filho de Ifioma, e seus amigos brincam com as canetas e as folhas de papel da reportagem de Radis. — Foto: Luiz Felipe Stevanim.
Marico (de camisa do Internacional), filho de Ifioma, e seus amigos brincam com as canetas e as folhas de papel da reportagem de Radis. — Foto: Luiz Felipe Stevanim.

Ifioma sorri ao me ver, deitada na rede com a bebê. Afirma que está melhor, apesar da dor de garganta. As crianças a rodeiam na rede. Continuo meu trabalho na Casai, seguido de perto por Marico, que está muito atento ao meu ofício de jornalista. Outras crianças se aproximam, curiosas. Distribuo algumas canetas entre elas e folhas em branco do meu bloco de anotações. Elas fazem desenhos, imitam minhas letras, riem muito.

Para aquelas crianças, que jogam futebol no pátio e brincam em pequenos grupos, a Casai era um espaço de vida, ainda que temporário. A antropóloga Inara do Nascimento, indígena Sateré-Mawé, já havia nos alertado sobre essa necessidade de compreender essa reinvenção do território. “Nesse momento, aqui é um território. As dinâmicas do território são familiares, são dinâmicas de aliança, de conflitos, porque se vive assim no território. São dinâmicas de alegria”, ressalta, em nossa conversa.

Ela cita como exemplo o fato dos Yanomami na Casai construírem fogareiros para cozinhar os próprios alimentos, recebidos semanalmente por meio de uma parceria recente com o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), de incentivo à agricultura familiar. “Se vocês circularem por aqui e avistarem fogo, o fogo é um sinal de muita alegria. Onde há fogueira, há vida”, relata a pesquisadora, que integra o Grupo Temático (GT) Saúde Indígena da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e atualmente trabalha na Casai para incentivar a inserção dos olhares indígenas no cuidado.

Os serviços de saúde precisam se atentar para esses saberes da floresta, na visão da antropóloga Sateré-Mawé. “Os territórios da saúde separam a dimensão do corpo, do ambiente e do espírito. A gente está tratando aqui de uma saúde que vem do espírito também, né?”, pontua. Segundo ela, os não indígenas talvez tenham dificuldade de entender por que os Yanomami às vezes recusam a se alimentar com uma comida estranha à sua cultura. “O que eu como ‘incorpora’, literalmente. Será que eu quero me fazer esse corpo? Essa comida faz meu corpo? Ela me transforma e me incorpora em corpo Yanomami?”, reflete.

O uso de adornos improvisados, com plástico e outros materiais, é também uma forma de se apropriar e se reinventar naquele território em que vivem por tanto tempo. “Não é um improviso ao acaso: estamos reproduzindo o nosso território e a beleza dos nossos corpos”, constata Inara.

Dia 7: O SUS indígena

Breno Caíque, gestor em Saúde Indígena contratado recentemente na Casai e indígena Macuxi: sensibilidade e cuidado. — Foto: Eduardo de Oliveira.
Breno Caíque, gestor em Saúde Indígena contratado recentemente na Casai e indígena Macuxi: sensibilidade e cuidado. — Foto: Eduardo de Oliveira.

E se a Casai fosse organizada a partir do olhar indígena? Breno Caíque é um dos 12 gestores em Saúde Indígena contratados recentemente, pelo Ministério da Saúde, para unir o conhecimento técnico com os saberes dos povos originários. São 12 indígenas de diferentes etnias em uma posição em que geralmente não costumam estar: a de gestores. A presença de indígenas nos espaços decisórios das políticas públicas e como profissionais do SUS, na visão de Breno, é um passo fundamental para que eles não estejam apenas no lugar de “pacientes”, mas sejam protagonistas na construção do cuidado e na garantia de direitos.

“Com nosso olhar de indígena, a gente, que é representante legítimo, pode atuar juntamente com a comunidade, garantindo a continuidade do cuidado em saúde”, destaca. Formado em Saúde Coletiva Indígena pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) em 2021, o jovem do povo Macuxi começou a trabalhar na Casai em março de 2023, com a tarefa de organizar a assistência no período noturno, quando há o maior déficit de profissionais. “Há escassez de equipe. A equipe multidisciplinar é muito pequena e não consegue suprir a demanda de toda a comunidade que está aqui”, pontua.

Breno conta que a proposta dos 12 gestores em Saúde Indígena, durante a Emergência Yanomami, é contribuir com o levantamento de quem chega e quem sai, verificar os casos de agravos, como tuberculose, e garantir que a alimentação seja acessível aos Yanomami. “A gente precisa ter esse olhar com cuidado e sensibilidade, porque é uma cultura totalmente diferente. Temos que respeitar os seus sonhos, a sua resistência, os seus meios de se alimentar”, defende.

[Leia em breve o perfil de Breno Caíque]

Para quem conhece a Casai por dentro e identifica as imensas carências de estrutura e de melhorias no cuidado, fica a constatação de que os dias da Emergência Yanomami estão longe de terminar — ainda é preciso a continuidade dos esforços para devolver dignidade à Saúde Indígena. Os nossos dias de reportagem, contudo, chegam ao fim — pelo menos, por enquanto. É hora da despedida.

Na última manhã na Casai, um dia ensolarado como em geral são as manhãs em Boa Vista, encontro Ifioma de volta à maloca de Waputhá. Ela me diz que se sente melhor, enquanto amamenta a filha na rede. Os meninos, Éfiso e Marico, e outros amiguinhos que sempre estavam por perto, me cercam e adiam a minha partida. Nesses dias de convivência, aprenderam a me chamar de “Luíssa”, em referência ao meu nome Luiz.

Sigo até o carro na companhia deles — Ifioma com a bebê no colo, seguida pelas crianças. Penso no laço de amizade que construímos ao longo desses sete dias e que talvez nunca mais os veja. Mesmo que esteja de volta à Casai ou à Terra Yanomami, quais seriam as chances de um voo para Waputhá, nas Serras? Marico entra no carro alugado pela reportagem, senta-se no volante e diz que queria passear na cidade. “Até breve”, digo, enquanto eles acenam na estrada. A família, agora, vai aguardar a alta do filho mais velho, Rocineu, até que chegue a hora de retornar à aldeia.

A família de Ifioma, com outras crianças Yanomami: algumas histórias de vida na Casai. — Foto: Eduardo de Oliveira.
A família de Ifioma, com outras crianças Yanomami: algumas histórias de vida na Casai. — Foto: Eduardo de Oliveira.
Comentários para: Sete dias na Casai Yanomami

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