Dados de diferentes sistemas de informação divulgados pelo último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (MS), em 2024, revelam a existência de quase 70 mil pessoas com HIV/aids no Brasil desde os anos 1980. O país também registrou um marco sem precedentes ao alcançar a menor taxa de mortalidade padronizada da série histórica em mais de 40 anos: 3,4 óbitos por 100 mil habitantes. Com isso, reduziu as mortes em 13%, ficando abaixo da marca de 10 mil óbitos anuais, resultado de uma série de ações e serviços para ampliação do acesso, adesão e permanência no tratamento pelo SUS, como a terapia antirretroviral (TARV). 

Os indicadores têm se tornado cada vez mais positivos com os avanços da ciência e das políticas públicas voltadas ao enfrentamento do HIV/aids. Ainda assim, são necessários recortes interseccionais para que esses resultados alcancem todos os grupos populacionais e os índices continuem diminuindo. 

Durante o XI Encontro do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP), em Fortaleza (CE), no mês de maio, a coordenadora Geral de Vigilância das Infecções Sexualmente Transmissíveis (CGIST) do MS, Pâmela Cristina Gaspar, trouxe alguns recortes para pensar grupos que estão mais vulnerabilizados quando se fala de resposta ao HIV/aids. 

De acordo com o Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde (Dathi/MS), o número de casos de detecção de HIV e aids entre mulheres vem diminuindo desde 2015. No entanto, enquanto observa-se uma redução no número de casos entre mulheres brancas, entre as mulheres negras houve um aumento.

Quando o recorte é a faixa etária, os dados do Dathi mostram que, na comparação entre 2015 e 2024, o aumento do número de casos de HIV concentrou-se entre mulheres com 40 anos ou mais, enquanto nas faixas etárias abaixo de 40 anos não houve incremento de casos. Para os casos de aids, observa-se um deslocamento desse aumento para as faixas etárias de 55 anos ou mais, segundo Pâmela. “Esses achados evidenciam a necessidade de fortalecer estratégias de prevenção, ampliação do diagnóstico oportuno e vinculação ao tratamento direcionadas às mulheres de maior faixa etária”, acrescenta ela.

Outro dado que chama atenção é a taxa de detecção de infecção do HIV entre gestantes pretas ter sido 108% maior do que a de gestantes brancas. Quando o recorte abrange mulheres negras (pretas e pardas), são 8,7 gestantes contra 4,5 brancas a cada mil nascidos vivos. 

Ainda segundo o Dathi, a interrupção do tratamento é mais alta na população negra e entre mulheres. Nesse último grupo, 59% das que interromperam eram cisgêneras (CIS) e negras, enquanto brancas foram 22%. Nos dados femininos, as mulheres transsexuais e travestis têm os maiores índices no geral (sendo brancas ou negras), porém o número da interrupção de mulheres trans negras é mais que o dobro do que o de mulheres trans brancas (42% contra 17%, respectivamente).

Em relação à distribuição da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e Profilaxia Pós-Exposição (PEP), observa-se que elas têm sido destinadas majoritariamente para homens que fazem sexo com homens (79%), enquanto mulheres no geral recebem apenas 9%. Mulheres trans respondem por apenas 2%, sendo que figuram entre os grupos mais vulnerabilizados, segundo dados de 2026 do Painel de Monitoramento do Governo Federal. 

A distribuição de PrEP e PEP também revela um recorte de classe social na prevenção: o nível médio de escolaridade das pessoas que recebem é de mais de 12 anos de estudos. “Neste contexto, a Agenda Nacional Prioritária para o Enfrentamento a HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais, HTLV, Sífilis e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis em Mulheres Vulnerabilizadas, lançada em dezembro de 2025, consiste em importante estratégia para promoção de equidade e redução das vulnerabilidades sociais”, afirma Pâmela à reportagem. 

O vírus da aids ainda mata

Em 2024, a aids foi responsável por cerca de 25 óbitos por dia no Brasil — mais de um por hora — totalizando 9.157 mortes no ano. Apesar dos avanços no enfrentamento da epidemia, importantes desigualdades regionais ainda persistem. As dimensões continentais do país impõem desafios à prevenção, ao diagnóstico e ao acesso oportuno ao tratamento, refletindo-se nos indicadores de mortalidade. 

Segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, em 2024, a taxa de mortalidade padronizada por aids no Brasil foi de 3,4 óbitos por 100 mil habitantes. Na região Norte, esse indicador alcançou 5,5 óbitos por 100 mil habitantes, a maior taxa do país, enquanto na região Sudeste foi de 2,8 óbitos por 100 mil habitantes.

Ao analisar os óbitos registrados em 2024 distribuídos por raça ou cor da pele, observa-se um índice de 62,2% de pessoas negras, das quais 10,9% eram pretas e 51,3% pardas.

No geral, as taxas de mortalidade por aids apresentaram redução nos últimos dez anos em todas as faixas etárias, exceto entre pessoas com 60 anos ou mais, grupo em que a taxa se manteve estável em 5 óbitos por 100 mil habitantes. 

Na análise por gênero, observam-se direções opostas: entre homens de 60 anos ou mais, houve redução de 6,3%, com queda de 7,9 para 7,4 óbitos por 100 mil habitantes. Já entre as mulheres nessa faixa etária, ao contrário, registrou-se aumento de 14,8%, com elevação de 2,7 para 3,1 óbitos por 100 mil habitantes no mesmo período (2014 a 2024). 

Também é preciso levar em conta que as ações para HIV devem ser associadas às demais Infecções Sexualmente Transmissíveis, como a sífilis, por exemplo.  “O enfrentamento das ISTs no Brasil exige uma abordagem interseccional capaz de reconhecer como gênero, raça, orientação sexual, identidade de gênero, território e desigualdades sociais se sobrepõem”, ressalta Pâmela. 

Ela explica ainda que essa abordagem que busca olhar de maneira aprofundada para os grupos vulnerabilizados, como uma espécie de lupa, é fundamental. “Não apenas para ampliar o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento, mas também para enfrentar o estigma e a discriminação que ainda afastam muitas pessoas dos serviços de saúde”, complementa.

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