As águas do rio Tapajós, de um verde-azulado raro na Amazônia, correm serenas à primeira vista. Elas espelham o céu e dissolvem as cores ao pôr do sol. As praias surgem com faixas de areia branca que lembram o mar, mas respiram floresta.
Nesse cenário de encantamentos, surge a comunidade de Anã, ou Anã-arumã, visitada por Radis durante a expedição “Corredor (Rios) de Tecnologias Sociais do Baixo Tapajós”, enquanto o barco cruza o encontro entre os rios Tapajós e Arapiuns. O nome vem da lenda de um ser mítico que habitava a região muito antes das pessoas chegarem, chamado Moanã. A narrativa conta que ele tinha o poder de se transformar em qualquer animal, como bode, cobra ou touro, mas ninguém sabia qual era sua verdadeira forma. O relato transmitido entre gerações diz que, entre os poderes deste ser, estava o de enlouquecer as pessoas.

A comunidade preserva suas histórias e tradições, o que não impede a adoção de tecnologias para melhorar a saúde da população e suas condições de vida. Atualmente, na região, duas mil comunidades indígenas, extrativistas, ribeirinhas e quilombolas já estão conectadas com internet pelo Instituto Conexão Povos da Floresta, parceiro do Projeto Saúde e Alegria (PSA). Segundo a instituição, o objetivo é conectar mais de nove mil pontos em toda a Resex.
“É uma proposta de inclusão digital que parte do próprio território”, afirma Bruno Amir, técnico de inclusão digital do PSA, em Santarém. “É interessante pensar que a perspectiva é de o território criar alternativas para compreender e usar a tecnologia e ser o próprio gestor desse processo de empoderamento digital”, afirma.
O projeto faz a instalação dos pontos de conexão de internet e depois realiza o acompanhamento pedagógico para que a utilização da tecnologia seja uma aliada da comunidade — o que é ainda mais importante em um território extenso como a Resex, destaca Bruno.
Akauã Arapiun, morador de Anã e jovem comunicador indígena, mostra, em seu perfil no Instagram (@akaua_arapiun), como a tecnologia pode ser utilizada a favor da floresta. Drones que sobrevoam as aldeias para monitorar invasões ao território e o desmatamento, aplicativos de denúncias em tempo real, rádios comunitárias e perfis em redes sociais de mídias indígenas são alguns exemplos. “Enquanto o mundo fala em inovação, nós, povos indígenas, já estamos há séculos conectados com o rio, com a terra e com os encantados que protegem a floresta. Hoje, essa conexão ganha novas ferramentas”, afirma, em um vídeo no Instagram.

Eletricistas do sol
De que adiantaria uma estrutura de bombeamento de água potável para todas as casas da comunidade movida por energia solar, se não fosse possível que os próprios moradores fizessem a gestão e os reparos necessários? Em caso de problemas ou danos, ficariam dias aguardando algum técnico vir de longe para consertar.
As comunidades da Resex identificaram esse problema e a solução encontrada pelo Projeto Saúde e Alegria se deu com a capacitação de pessoas dentro da própria comunidade. “A gente segue com essa lógica das formações continuadas, numa perspectiva de tentar responder a uma demanda do território, tornando-o autônomo, sem necessitar 100% de uma ajuda que vem de outro lugar”, afirma Bruno.
O curso para instalação e manutenção das placas de energia solar se chama Eletricistas do Sol e tem um recorte de gênero. “Eram sempre os homens a fazer os cursos, ainda sob um olhar machista. Mas a gente percebeu a necessidade de trazer as mulheres, a comunidade tem visto elas participarem da formação, retornarem e dominarem esse processo. Elas têm se empoderado dessas informações”, declara.
Tecnologia também é saúde
O jovem Akauã Arapiun não é uma exceção nas redes sociais. A comunidade e as ONGs parceiras incentivam a participação, cada vez maior, de jovens nas redes sociais. Eles chamam o projeto de Educomunicadores, porque, para além de divulgar a cultura indígena para quem é de fora, eles têm o papel fundamental de fortalecer os saberes locais e levar informação para dentro dos territórios. São estratégias de educação em saúde, engajando as pessoas a permanecerem por mais tempo em seus territórios com qualidade de vida.
Outro ganho na área da saúde que a tecnologia traz aos territórios é a possibilidade de atendimentos remotos. “A distância geográfica torna-se um desafio. A gente tem a compreensão de que o médico não chega em todos os territórios”, afirma Bruno.
Ele aponta que, por vezes, é necessário um atendimento virtual para que a pessoa consiga, minimamente, um direcionamento ou, até mesmo, que o cuidado se estenda à atenção especializada de maneira mais célere. “É um processo que a gente está amadurecendo. Temos esperança de que vá responder a esta demanda, enquanto o Estado não consegue se estruturar para que essa política pública chegue efetivamente no território”, afirma. A telemedicina vem sendo utilizada, inclusive, nos atendimentos de emergência da UBS da Floresta.
A energia elétrica e a internet são fundamentais para a atenção à saúde, destaca Bruno, desde a prevenção até as urgências. “Quando a gente consegue criar uma estrutura comunitária em que as pessoas conseguem se comunicar, há a possibilidade real de melhoria na vida de todos”, diz. Ele cita os pedidos de atendimento de emergência, que envolvem ambulanchas ou aviões de pequeno porte e a capacitação online contínua dos agentes comunitários de saúde (ACS) e de profissionais da área de saneamento básico, sem que precisem se ausentar do território.
Bruno explica que é uma rede com várias estruturas que garante saúde às comunidades. “A internet e o abastecimento não funcionam sem a energia. E a água potável está diretamente relacionada à saúde do ser humano”, pontua.
Centro Experimental Floresta Ativa
Na comunidade de Anumã, na margem esquerda do rio Tapajós, está localizado o Centro Experimental Floresta Ativa (Cefa). Inaugurado em 2016, o espaço se tornou um polo de referência em tecnologias sociais na região. O local foi um dos pontos visitados pela expedição “Corredor (Rios) de Tecnologias Sociais do Baixo Tapajós”.
O Cefa oferece cursos de capacitação para moradores de toda a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, com infraestrutura que inclui salas de aula e de informática, restaurante, viveiros e redários para hospedagem temporária dos alunos. A iniciativa, também do Projeto Saúde e Alegria, conta com apoio do Fundo Amazônia.
“O Cefa atua em várias frentes: extrativismo, agricultura, recuperação de áreas degradadas, manejo florestal, sistemas de água e energia, turismo e comunicação”, explica Ubiraci, líder comunitário e integrante da equipe. “Tudo é pensado a partir das necessidades das comunidades, sempre com foco no bem-estar das pessoas e na proteção da floresta”.
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