Uma palavra guiou o enfrentamento às mudanças climáticas nas últimas décadas: mitigação. O sentido era cortar emissões de gases de efeito estufa suficientes para limitar o aquecimento do planeta a 1,5 grau Celsius em relação aos níveis pré-industriais. À medida que o mundo não avançava no ritmo necessário, outra palavra foi entrando no vocabulário climático: adaptação. Em 2 de setembro, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) deu como certa a ultrapassagem da meta já nos próximos anos — e apontou a adaptação como indispensável para proteger a Terra e a vida humana em um clima extremo.
“A adaptação sempre permeou as discussões na Convenção do Clima, mas como a ‘prima pobre’ da mitigação”, lembra Jean Ometto, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que já participou da elaboração de relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão científico da ONU. Por volta da 27ª Conferência do Clima, realizada em 2022 no Egito, o termo acelerou a escalada até ocupar seu lugar no topo do debate.
O relatório do Pnuma de setembro indica que as “primas” agora estão em pé de igualdade. A mitigação permanece essencial porque determina a escala e a duração dos riscos futuros. A adaptação permanece essencial porque os impactos climáticos já estão ocorrendo, repercutindo especialmente em populações vulneráveis, e o aquecimento adicional é inevitável. “Uma não pode substituir a outra. Respostas eficazes exigem que os esforços de mitigação, adaptação e construção de resiliência avancem juntos”, afirma o texto.
Como começar
“Medidas de adaptação precisam ser bem planejadas, e para planejar são necessários dados sobre o quanto as cidades e as pessoas estão vulneráveis”, explica Jean. Foi para apoiar a tomada de decisões nos municípios brasileiros que surgiu o Sistema de Informações e Análises sobre Impactos das Mudanças Climáticas, mais conhecido como AdaptaBrasil, desenvolvido pelo Inpe, responsável pela metodologia científica, em cooperação com a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, que gerencia o sistema computacional, com fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Jean Ometto é o coordenador da plataforma, que reúne dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Agência Nacional de Águas (ANA), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e de muitas outras instituições, organizados em temas como recursos hídricos, segurança energética e alimentar, infraestrutura, biodiversidade, desastres e saúde. Além de retratar a situação atual de todos os 5.570 municípios, ainda projeta ameaças para diferentes cenários.
A ciência recomenda planejar a adaptação a partir da análise de risco local: cruzar a ameaça climática (variáveis como chuva e temperatura) com a exposição de pessoas, da infraestrutura e dos sistemas naturais (o quanto aquele município está sujeito ao evento) e a vulnerabilidade do território. Para calcular a vulnerabilidade, o AdaptaBrasil combina dois elementos: a sensibilidade que uma cidade tem a determinado evento e sua capacidade adaptativa — ou seja, o quanto está preparada para responder a ele.
Os riscos variam: inundações são mais intensas na Amazônia, nas grandes bacias hidrográficas e em áreas urbanas; deslizamentos ameaçam mais as serras do Sudeste e do Sul e partes do litoral nordestino.
“Não queremos morrer primeiro”
O que pouco varia é a população mais impactada pelas mudanças do clima — majoritariamente negra, periférica e de baixa renda. “Quem é preto, pobre e marginalizado não pode continuar sendo colocado na esteira para morrer primeiro”, costuma dizer Thaynah Gutierrez, assessora internacional de Clima e Racismo Ambiental do Geledés/Instituto da Mulher Negra, nas reuniões pelo mundo em que debate a adaptação. “Tenho levado essa fala adiante e ela sempre causa certo espanto”, reconhece.
Morre primeiro quem está nas “zonas de sacrifício”, diz. Esse novo termo do “dicionário do fim do mundo” fala sobre os territórios que concentram os riscos que as cidades preferem manter fora de vista.
Um exemplo: o Jardim Pantanal, bairro na Zona Leste de São Paulo construído em área de várzea do rio Tietê. Os 45 mil moradores enfrentam alagamentos recorrentes no verão há cerca de cinco décadas. Em 2026, foram surpreendidos com a inundação no inverno. A elevação dos níveis de água começou com um temporal na madrugada de sábado, 12 de setembro, e na quarta, 16, ruas ainda estavam submersas.
O histórico de alagamentos no Jardim Pantanal foi investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de São Paulo, concluída em junho. O relatório final identificou que as enchentes não são um evento isolado, mas resultado de uma combinação de fatores ambientais e urbanísticos e da falta de ações integradas e contínuas do poder público. Após grandes enchentes em 1997 e 2009, foram anunciadas obras de infraestrutura, que não saíram do papel.
“O que se observou foi a repetição de ciclos: a enchente expõe a tragédia, o Estado reage, remove parcialmente, anuncia obras, dispersa famílias, interrompe a continuidade da ação e, em seguida, permite que o território volte a se reorganizar sob os mesmos fatores de risco”, documentou a CPI.
Exclusão em graus Celsius
“A exclusão urbana também se mede em graus Celsius.” Foi o que identificaram pesquisadores do Centro de Estudos da Favela (Cefavela), ligado à Universidade Federal do ABC (UFABC). O grupo analisou imagens térmicas do satélite Landsat 8, que medem a temperatura de superfícies (telhados, ruas e solo), entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025. O resultado: diferença de até 15 graus entre Paraisópolis e Morumbi, bairros de São Paulo separados por um muro. O lado rico registrou média de 30°C no período; no lado pobre, a temperatura das superfícies chegou a 45°C.
“É relevante ampliar a sensibilização de que o calor não é apenas um fenômeno meteorológico, é também resultado das escolhas de planejamento do território, capazes de mitigá-lo ou intensificá-lo”, destacam os pesquisadores.
Favelas costumam ser consideradas “ilhas de calor” — pontos da cidade que concentram mais temperatura que o entorno em dado momento. O conceito é diferente de “ondas de calor”, caracterizadas por três ou mais dias seguidos com temperatura acima da média histórica para aquela época do ano, como explica Victor Nascimento, professor da UFABC e um dos pesquisadores que assinam o estudo.
Eventos de calor extremo são “desastres negligenciados no Brasil”, de acordo com pesquisa de Djacinto Monteiro dos Santos e Renata Libonati, do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo identificou 50 mil mortes motivadas por ondas de calor entre 2000 e 2018, a partir de dados do SUS de 14 regiões metropolitanas. O número é 20 vezes maior do que as mortes por deslizamentos de terra no mesmo período. Idosos, crianças, gestantes, pessoas com doenças crônicas (cardiovasculares, respiratórias, renais) e trabalhadores expostos ao sol por longos períodos estão entre os grupos de maior risco.
Vulnerabilidades que se somam
O diagnóstico socioterritorial realizado para embasar a agenda de ação de Diadema, município do Grande ABC paulista, revelou que diferentes ameaças climáticas se concentram nos mesmos pontos. Eldorado, Inamar e o núcleo Sítio Joaninha, no extremo sul do município, aparecem repetidamente como os territórios mais expostos a múltiplos riscos.
“As vulnerabilidades, ou as características que geram as vulnerabilidades, vão se somando e às vezes se potencializando”, observa o geógrafo Vitor Nisida, coordenador executivo do projeto Agenda de Ação Climática de Diadema, do Instituto Pólis, organização da sociedade civil dedicada a políticas urbanas.
O diagnóstico cruzou dados do AdaptaBrasil com os da plataforma gratuita UrbVerde, iniciativa do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto Pólis, que une imagens de satélite e informações de censos demográficos para gerar um retrato em escala intraurbana.
“Nosso modelo de urbanização, ou de formação das cidades, já é por si só muito desigual: produz áreas com muitos déficits, com muitas precariedades, que criam bairros e famílias muito mais vulneráveis a qualquer tipo de ameaça. Quando essa ameaça tem dimensão climática, esse grupo é ainda mais impactado”, analisa o pesquisador.
Por isso, defende Vitor, a política habitacional deve ser encarada como política climática, e não como agenda paralela: “Muitas das ações que estamos defendendo para as políticas urbanas há décadas, como urbanização de favelas, regularização fundiária e provisão de habitação de interesse social em áreas seguras para as famílias mais vulneráveis, atendem também à pauta que as mudanças climáticas estão impondo às cidades brasileiras. Política habitacional também é política de adaptação climática — e vice-versa”.
Daí a necessidade de institucionalizar a adaptação no planejamento habitacional e de integrar infraestrutura verde (drenagem sustentável, sombreamento, arborização, permeabilidade) à ação urbanística.
Victor Nascimento, do Cefavela, também destaca que a agenda das mudanças climáticas é benéfica ao empurrar o Estado para dentro de áreas onde pouco entra, e exigir “uma intervenção mais definitiva”.
Adaptação antirracista
“Na agenda de adaptação, os governos têm priorizado aqueles que sempre foram privilegiados, porque eles têm mais acesso à Justiça, estão nas zonas mais visíveis da cidade, em vez de priorizar quem tem menos capacidade de resposta”, avalia Thaynah Gutierrez. “Se não escolhem inverter essa lógica para priorizar territórios vulneráveis, não salvam vidas”. É uma prova do racismo ambiental, forma de discriminação produzida por políticas públicas, omissões estatais e decisões legislativas que expõe as pessoas pretas aos riscos ambientais de maneira desproporcional.
Em 2024, 50 organizações brasileiras cunharam o conceito de “adaptação antirracista”, que acabou dando nome à Rede Por Adaptação Antirracista, da qual Thaynah é secretária-executiva. “No Brasil, a adaptação só será justa se corrigir as desigualdades estruturais, especialmente as raciais”, considera, ressalvando que a ideia não é apagar outras interseccionalidades — gênero, classe ou desigualdades enfrentadas por pessoas com deficiência, crianças e idosos.
“Ouvimos muito o argumento de que não há recursos suficientes para fazer adaptação para todo mundo, mas há um grupo específico que está morrendo a cada evento climático extremo”, reforça. “Se estamos caminhando para uma política global de fim do mundo, os gestores precisam saber que não queremos morrer antes de ninguém.”
Expectativa: as organizações dessa rede entendem que a agenda de adaptação, para ser efetiva no contexto brasileiro, precisa ter como guia a ideia de “reparação” — reparar não só os danos causados pelos eventos climáticos extremos, mas reparar as desigualdades históricas. “As questões prioritárias para a população preta e periférica seguem sendo a regularização fundiária e a titulação das comunidades tradicionais”.
Realidade: no Jardim Pantanal, a Prefeitura de São Paulo prevê a remoção de 4.344 casas, com “ajuda financeira” de R$ 20 mil a R$ 50 mil por imóvel. “Não dá para chegar e dizer: ‘agora vocês precisam sair daqui, vocês nunca deveriam ter morado aqui’. É tarde demais, são 50 anos de ocupação, três gerações de famílias ocupando aquele território. Há laços simbólicos e culturais que precisam ser cuidados. As políticas de realocação, quando necessárias, devem ser planejadas com as comunidades, em processo de co-construção”, afirma Thaynah.
“Temos que tomar cuidado para que a agenda da adaptação climática não vire um pretexto para a violação de direitos”, alerta Vitor Nisida. O meio ambiente, reflete ele, ocasionalmente vem sendo usado como desculpa para produzir remoções forçadas, com laudos técnicos “bastante questionáveis”, mas que dão certo verniz de tecnicidade. “A vulnerabilidade apenas muda de lugar”.
Sujeitos que adaptam
“A gente está num momento muito oportuno, dentro do debate global e do debate nacional, de assumir que a adaptação precisa ser liderada localmente”, ressalta Thaynah. Um desafio, aponta ela, é compatibilizar dois sistemas de reconhecimento que são tão distintos — o saber científico, do cálculo de emissões, das projeções baseadas em metodologias eurocêntricas, e o saber acumulado dos territórios tradicionais, dos povos indígenas e das periferias.
Vitor acrescenta outro desafio antigo: costurar políticas transversais. “É urgente agir, mas é urgente também agir integrando as políticas públicas. A adaptação é tão agenda climática quanto agenda de assistência social, de saúde, educação, mobilidade e habitação”.
Se o Brasil está preparado? “Nós temos ‘Brasis’ que estão preparados, mas não temos um país integralmente preparado para se adaptar”, responde Jean Ometto, do Inpe. Levantamento da Transparência Internacional Brasil indica que o caminho é longo: apenas 13% dos 233 municípios de oito estados avaliados tinham seu Plano de Adaptação à Mudança do Clima em 2025. A meta do AdaptaCidades é chegar a 2 mil municípios (35% do total) com estratégias de adaptação até 2035 — 581 governos municipais selecionados estão recebendo apoio direto desde julho de 2025.
Antes do fim
Esse texto termina com um fio de esperança: segundo o relatório do Pnuma citado na abertura, há a possibilidade de o planeta voltar a esfriar depois de algum tempo, o que os especialistas denominaram de overshoot, que pode ser traduzido como “ultrapassagem”, quando a temperatura passa da meta antes de eventualmente recuar. “O grande desafio é que esse pico seja o mais breve possível”, observa Ometto — o que depende do envolvimento de cada um para acelerar as respostas e “adiar” o fim.



