Os efeitos da emergência climática atingem territórios e populações de diferentes maneiras. Eles podem se manifestar por meio de intensos temporais, ciclones, enchentes, enxurradas e deslizamentos; ou ainda por longos períodos de estiagem, seca, queimadas e altas temperaturas. Esses extremos do clima afetam as condições de vida das pessoas e podem se tornar um problema de saúde pública, com impactos no SUS.
Para compreender as respostas locais a essas ocorrências, Radis ouviu mulheres que atuam em comunidades e movimentos sociais ligados à proteção de rios, mares, matas e solos — ambientes dos quais também dependem para viver e trabalhar. Elas conhecem as transformações de seus territórios e desenvolvem estratégias para conviver com as alterações climáticas e diminuir seus impactos, compartilhando saberes e experiências que ajudam a pensar caminhos de proteção ambiental e cuidado com a vida.
Mulheres das águas
Guardiã de conhecimentos e saberes dos povos das águas, Diva Helena Nogueira Miyazaki é presidente da Colônia de Pescadores Z-27 de Icém, no interior paulista, e liderança do movimento da pesca artesanal e aquicultura no estado. A cerca de 1.600 quilômetros dali, em Santa Cruz Cabrália (BA), Maria Luena Pataxó também luta pelos povos das águas. Presidente da Associação de Pescadores Indígenas Pataxó de Coroa Vermelha, ela preside o Comitê de Relacionamento de Pescadores do Extremo Sul da Bahia, com mais de dez mil integrantes. São duas lideranças comunitárias que sabem da importância de resguardar seus territórios frente aos desafios do nosso tempo.

Quando mares e rios não estão para peixe
Diva tem notado alterações importantes nos rios de sua região, como períodos de seca mais intensos, baixas significativas no nível das águas, enchentes e mudanças na temperatura e na qualidade da água, além de alterações no comportamento e na reprodução dos peixes. E sabe que isso é um problema. “Nossa vida está diretamente ligada às águas e aos ciclos da natureza. Quando o clima muda, impacta diretamente em nosso trabalho, renda, alimentação e forma de viver”, explica. “Não existe saúde em um território onde a água está contaminada, o rio está degradado ou onde as pessoas não têm condições dignas de trabalhar e viver”.
Diva acrescenta que essa situação põe em risco a segurança alimentar e a continuidade das comunidades pesqueiras: “A pesca artesanal não representa apenas uma fonte de renda, ela também coloca alimento na mesa das famílias. Quando a quantidade de peixes diminui, toda a comunidade sente os efeitos”, afirma. A redução dos pescados pode levar famílias a abandonar a atividade, ameaçando a continuidade das comunidades e a transmissão de conhecimentos tradicionais.
Ela observa que a crise climática impacta a saúde física e mental das pessoas. “Em períodos de calor extremo, secas prolongadas, enchentes ou mudanças bruscas de temperatura, o nosso corpo sente as alterações, aumentando os riscos de desidratação, problemas respiratórios e outras situações que podem se agravar, principalmente entre crianças e idosos”. E prossegue: “Quando uma família depende do rio para sobreviver e percebe que o peixe está diminuindo, que o rio está mudando ou que não consegue mais acessar determinados locais de pesca, isso gera preocupação, insegurança e ansiedade”.
Para Diva, discutir a emergência climática exige ainda olhar para os impactos das atividades humanas e para a forma como os territórios são ocupados e os recursos naturais utilizados. No Sul da Bahia, Luena Pataxó também observa que essas ações têm agravado as condições ambientais no litoral. Segundo ela, grandes empreendimentos imobiliários à beira das praias e a pesca industrial vêm contribuindo para a poluição das águas na região. “Nós, indígenas, somos guardiões da floresta, das matas e dos rios, porque nós os respeitamos. Os pescadores artesanais são os verdadeiros guardiões do cuidado e respeito à natureza. O industrial não pensa nisso”, aponta [Leia mais sobre os guardiões da floresta na Radis 227].

Luena argumenta que os pescadores locais reconhecem as melhores condições de pesca a partir dos ventos e respeitam os ciclos da natureza, enquanto grandes embarcações conseguem operar mesmo em condições adversas. “Eles têm equipamentos para isso. A gente pensa no próximo. Nós pensamos no filho e no neto que virão amanhã, depois de nós”, diz, referindo-se aos danos causados pela pesca industrial e outras atividades exploratórias, como a mineração, que, entre outros danos, contaminam as águas e adoecem a população.
Diva avalia que mesmo atuando em defesa da natureza e dos ecossistemas aquáticos, os pescadores artesanais estão entre os mais afetados pelas intempéries do clima. E recorre ao conceito de justiça climática para refletir sobre essa desigualdade: “Quem tem mais recursos consegue se proteger melhor dos efeitos do clima. Já as pescadoras e os pescadores artesanais, que muitas vezes são os que menos contribuem para esses impactos, estão entre aqueles que mais sofrem com suas consequências”.
Diante desse cenário, Diva defende políticas públicas que garantam proteção social e fortaleçam as comunidades, para que possam permanecer em seus territórios e continuar vivendo da pesca. Essas políticas, segundo ela, precisam ser construídas em diálogo com os saberes locais. “Nosso papel é fazer essa ponte, levar a realidade dos territórios aos espaços de decisão e trazer para as comunidades as informações, políticas e discussões que estão acontecendo nas diferentes instâncias. Como sempre digo, nada de nós sem nós”, reivindica.
Respostas que vêm das águas
Comunidades pesqueiras e povos tradicionais também desenvolvem práticas de cuidado e proteção dos territórios que ajudam a conservar a biodiversidade e a reduzir vulnerabilidades diante dos efeitos da mudança do clima. Luena destaca, por exemplo, o papel da vegetação de restinga na proteção da costa e a relevância de sua preservação por parte dos pescadores, que também recolhem resíduos encontrados nas águas.
Diva ressalta que a pesca artesanal está diretamente ligada à conservação dos ambientes aquáticos. Quem vive da atividade acompanha de perto os ciclos dos rios, o nível das águas, a qualidade ambiental e a disponibilidade de peixes. “Preservar os rios é garantir a pesca, a alimentação, a renda e a qualidade de vida”, afirma.
Para ela, reconhecer e fortalecer os povos e comunidades tradicionais, garantir seus direitos e assegurar sua continuidade nos territórios também são medidas de proteção ambiental: “Precisamos garantir que os rios continuem sendo espaços de vida, trabalho e sustento para as comunidades. Defender o acesso às águas é também defender a permanência das pescadoras e dos pescadores em seus territórios e o futuro da pesca artesanal”, sentencia.
Mulheres das águas
Rosalita Vitor é agricultora e assentada da reforma agrária em Remígio (PB) e integra a coordenação executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA); já Ivi Dantas, engenheira agrônoma e também integrante da coordenação da ASA, pelo Rio Grande do Norte, representa a organização na Comissão Nacional de Combate à Desertificação. Lindaci Maria Gonçalves é presidente da Cooperativa de Trabalho de Catadores de Material Reciclável Erick Soares (Coocares), em Pernambuco. O trio compartilha como os eventos climáticos afetam os sertões e as cidades e de que forma elas convivem com seus efeitos.

Demandas e resistência do Semiárido
O Semiárido brasileiro abrange 1.477 municípios de 11 estados e reúne mais de 30 milhões de habitantes. Historicamente marcada por secas e estiagens, a região vem enfrentando maior irregularidade das chuvas e aumento das temperaturas. “Sem dúvida há um agravamento da crise climática e o que temos percebido no Semiárido é que essa crise está se tornando uma realidade que já conhecemos, que é a estiagem, mas em um processo ainda mais difícil e imprevisível”, explica Ivi.
Segundo ela, a alteração no regime de chuvas e a elevação das temperaturas afetam a agricultura familiar, a criação de animais e a disponibilidade de água. Ivi acrescenta que em áreas degradadas esses efeitos podem favorecer a desertificação, reduzir a produção de alimentos e forçar uma nova onda migratória. “Não podemos esperar a seca chegar para depois levar água. É preciso construir capacidade de adaptação antes que a emergência chegue”, orienta.

Assentada do Polo da Borborema (PB), Rosalita afirma que políticas de convivência com o Semiárido, como a construção de cisternas, podem ampliar essa capacidade de resiliência. Mesmo diante de estiagens prolongadas, ela observa que as famílias estão mais preparadas: “Lembro que anos atrás, quando tivemos chuvas abaixo da média, por volta de 2012 a 2017, não vimos registros de fome ou de pessoas morrendo de sede, como nas décadas de 1970 e 80”.
Já Ivi analisa que a crise climática não é democrática: “Ela atinge de maneira mais intensa quem já enfrenta desigualdade social, econômica e territorial”. Por isso, defende que adaptação e equidade caminhem juntas: “A adaptação climática não precisa ser só gerar energia limpa, ela precisa tratar de justiça social aliada à justiça climática”, pontua.
Trabalho invisível e imprescindível
Nas cidades, o descarte inadequado de resíduos sólidos pode obstruir bueiros, galerias e outros dispositivos de drenagem pluvial, dificultando o escoamento da água e agravando os alagamentos. É nesse contexto que um trabalho muitas vezes invisibilizado é fundamental: o das catadoras e catadores. Lindaci atua no ramo há 26 anos e cita uma estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em que cerca de 90% do material que chega a ser reciclado no país passa pelas mãos desses trabalhadores. “Imagina se não retirássemos tantas toneladas de resíduos do nosso meio, como estaríamos? Imagine se esse material estivesse jogado nos rios, ou se fosse enterrado”, alerta.

Apesar da relevância do trabalho de coleta, ela entende que catadores e catadoras não recebem o devido valor e aponta a falta de proteção social como uma das expressões dessa desvalorização: “Não temos férias, licença-maternidade ou 13º. Não conseguimos sequer pagar o INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], para termos uma aposentadoria digna, devido à falta de reconhecimento de nossa categoria”, protesta.
Sobre a emergência climática, ela destaca a exposição cotidiana da categoria: “Eu não vejo uma classe profissional que sofra e sinta na pele mais essa mudança do que os catadores. Nós estamos diretamente expostos ao sol e à chuva. E isso sem uma remuneração assegurada”. E reivindica uma melhor estrutura de trabalho para ao menos amenizar esses efeitos, incluindo a criação de galpões, modernização das carroças e abrigos contra sol e chuva.
Respostas que vêm da terra
Para Ivi e Rosalita, melhorar as condições de vida no Semiárido passa pela preservação da Caatinga, pela recuperação de áreas degradadas e por políticas públicas permanentes de convivência com o Semiárido. Ivi cita ainda as cisternas como exemplo de tecnologia social que pode inspirar outras regiões. A lógica de armazenar água também se aplica a outras estratégias, como barragens, reuso de água, quintais produtivos e bancos de sementes. “O povo não é apenas vítima das emergências, é também parte da solução”, afirma.
Rosalita concorda que armazenar água e estocar sementes adaptadas às condições do Semiárido são estratégias fundamentais para a convivência com a estiagem e lembra que cidades arborizadas lidam melhor com o calor. Se antes períodos prolongados de seca ocorriam com intervalos maiores, hoje eles têm se tornado mais frequentes, ressalta a agricultora. E deixa uma dica adicional: “Conectar saúde com agroecologia e convivência com o Semiárido é fundamental para os próximos tempos”.
O que os territórios esperam do SUS frente à emergência climática?
Diva Miyazaki cobra mais presença do SUS nas comunidades e políticas específicas de cuidado para pescadoras e pescadores: “Em períodos de enchentes, secas extremas ou contaminação das águas, as comunidades precisam de atendimento rápido, orientação e acompanhamento das famílias afetadas. Precisamos fortalecer a prevenção e a vigilância em saúde nos territórios”, relata.
Luena Pataxó reivindica que os conhecimentos medicinais ancestrais dos pajés sejam reconhecidos como práticas de saúde pelo SUS. Em seguida, faz um apelo mais direto: que marisqueiras e pescadores tenham horários de atendimento compatíveis com suas rotinas. “O pescador que sai cinco horas da manhã e volta do mar meio-dia não tem tempo para pegar uma ficha de atendimento no posto”. E pede: “Gostaria que o SUS cuidasse da saúde do pescador. Isso seria um sonho”.
Lindaci Gonçalves também solicita que os serviços de saúde considerem as condições diferenciadas de trabalho de catadores e catadoras: “O SUS pode ser um aliado para nós. Acredito que por conta do nosso horário de trabalho, podemos ter alguma prioridade quando precisarmos de atendimento”. Isso também se aplicaria ao acesso às vacinas e outros procedimentos.
Ivi Dantas relata a dificuldade de acesso a serviços de maior complexidade no interior, mas reforça o papel da Atenção Primária à Saúde (APS): “As equipes de saúde da família e agentes comunitários de saúde muitas vezes são a única presença estatal regular em comunidades rurais isoladas”. Segundo ela, esse vínculo torna o SUS estratégico também para identificar outras vulnerabilidades, como insegurança hídrica e alimentar e violência doméstica, e monitorar como esses problemas se alteram no contexto da crise climática.
Rosalita Vitor enaltece o SUS, mas cobra a ampliação de estruturas físicas em comunidades rurais. “O SUS é um patrimônio do povo brasileiro, de resgate da dignidade e saúde das pessoas. Precisamos lutar para que ele melhore cada vez mais suas condições de atendimento”. E ressalta seu aspecto educativo: “Nesse momento de crises climáticas o SUS pode ter um papel fundamental, inclusive de orientação às pessoas. A gente vai ter calor extremo, um El Niño, e as pessoas e comunidades deverão ser orientadas”.
Diva sintetiza: “Para nós, saúde não é apenas ter atendimento quando ficamos doentes. Saúde também é ter um ambiente saudável, água de qualidade, condições dignas de trabalho, prevenção e acesso aos serviços públicos”. Para ela, no contexto da emergência climática, é necessário um SUS que não só espere a população chegar à unidade de saúde, mas que também vá às comunidades, dialogue e construa ações junto com quem vive nos territórios.





