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As histórias de José Osmar, Genilson e Ana Paula Santos ajudam a compreender o impacto que um transplante pode ter na vida de uma pessoa. Mas para além de cada cirurgia, existe uma rede complexa que organiza a doação e a distribuição de órgãos no Brasil. Para entender melhor como esse sistema funciona, Radis conversou com a coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) do Ministério da Saúde, Patrícia Freire, e com a cardiologista Jacqueline Sampaio, chefe do Departamento de Insuficiência Cardíaca e Transplantes do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), no Rio de Janeiro.

Quem pode doar órgãos no Brasil

A doação de órgãos pode ser realizada por doadores vivos ou falecidos. Qualquer pessoa que seja maior de idade, juridicamente capaz, saudável e que concorde com a doação, pode realizá-la, desde que não prejudique a própria saúde. Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores em vida. Pessoas que não tenham esses vínculos com o receptor só podem doar com autorização judicial. Havendo compatibilidade, o doador vivo pode fornecer um dos rins, parte do fígado, parte do pulmão ou da medula óssea.

No caso de doadores mortos, legalmente apenas os familiares podem autorizar a captação de órgãos, após passarem por entrevista com uma equipe de saúde do hospital onde tenha ocorrido o óbito. A legislação brasileira permite a doação mediante morte encefálica atestada por dois médicos que não sejam das equipes de remoção e transplante.

Órgãos como coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino e rins só podem ser captados para transplante quando a morte encefálica ocorre sem parada cardiorrespiratória, explica Jacqueline. Nessa circunstância, se a causa da morte for conhecida e houver ausência de doenças infecciosas e de outras restrições, a doação é autorizada para diferentes receptores. Já quando o coração para de bater, apenas tecidos, como córneas, vasos, pele, ossos e tendões podem ser usados para transplante.

Jacqueline ressalta que a morte encefálica é uma condição irreversível, embora os demais órgãos possam permanecer funcionando por algum tempo. “Quando ocorre a morte encefálica, em média 72 horas depois o coração e todos os demais órgãos vão parar de funcionar”, afirma. É justamente esse intervalo entre a morte cerebral e a falência dos outros órgãos que desencadeia uma corrida contra o tempo. Após a autorização familiar para a doação, inicia-se o chamado “momento de ouro” para retirada e transplante dos órgãos. 

“Os órgãos precisam ser removidos do doador antes do coração parar. Eles têm que ser captados oxigenando, em pleno funcionamento”, reforça. Antes de serem removidos, os órgãos passam por uma preparação para que possam ser armazenados em temperatura adequada até que o transplante ocorra, conforme o tempo máximo de isquemia fria de cada um deles [período limite que podem ficar sem circulação sanguínea, armazenados no gelo].

— Foto: acervo pessoal

Como funciona a lista de espera 

Primeiramente, é importante deixar claro: o termo mais adequado é lista de espera. E não fila, como também é utilizado. Patrícia Freire explica a razão da preferência: “Tecnicamente é mais adequado falar em lista de espera, porque a palavra fila transmite a ideia de uma ordem linear, única, como se o primeiro inscrito fosse necessariamente o próximo a receber o órgão e não é bem assim”.

Segundo a coordenadora do SNT, a lista é organizada por critérios técnicos, clínicos, imunológicos e logísticos, que variam conforme o órgão ou tecido. O tempo de espera é um dos requisitos, mas não necessariamente o principal, como o termo “fila” pode sugerir. “Entre os critérios, estão, por exemplo, a tipagem sanguínea, a compatibilidade imunogenética entre doador e receptor, a gravidade clínica, o tempo de espera, as dimensões corporais, como peso e altura, idade e outras condições”, explica.

Patrícia afirma também que a ordem cronológica muitas vezes funciona como critério complementar ou de desempate, quando os demais requisitos técnicos são semelhantes. “Por isso a expressão lista de espera expressa melhor a lógica do sistema. Não se trata de uma fila comum, mas de um mecanismo regulado, auditável, baseado em critérios técnicos para encontrar o receptor mais adequado”. Ela conta ainda que a lista única é organizada por regiões do país, o que facilita a logística de distribuição.

Outra questão é: quem inscreve um paciente na lista de espera? A resposta é que só médicos credenciados de centros transplantadores habilitados pelo SNT, sejam eles públicos ou privados, podem realizar a inclusão. Tanto esses profissionais como os centros são periodicamente avaliados para recertificação. Se um médico não credenciado concluir que um paciente seu precisa de um transplante, ele deve encaminhá-lo a um centro transplantador para avaliação por equipe especializada e aí sim poder ingressar no sistema, detalha Jacqueline.

Patrícia acrescenta que essa inscrição na lista não significa apenas um cadastro administrativo: “Ela contém informações clínicas, laboratoriais, imunológicas e demais informações necessárias para que o sistema identifique no momento da oferta de um órgão quais pacientes são compatíveis e elegíveis para o transplante com órgão daquele doador”, detalha.

Por fim, Jacqueline chama atenção também para uma situação alarmante que vem observando: os médicos estão demorando muito para encaminhar as pessoas para a lista. “A gente tem percebido ultimamente que o paciente chega grave demais e com outras comorbidades. E entendemos que não são pacientes em condições ideais de passar por um transplante. É preciso aumentar esse olhar sobre o encaminhamento”, orienta.

Desafios para ampliar os transplantes

Patrícia Freire encara a questão do número de doações efetivadas como o maior desafio do SNT. Ela entende que o país reúne condições para realizar ainda mais procedimentos do que executa anualmente, mas esbarra justamente em fatores como falhas na notificação e captação, além da recusa familiar, que em 2025 foi de 45% no Brasil. “A gente ainda tem um número muito grande de potenciais doadores que não são notificados para as centrais federais de transplante, embora a notificação da morte encefálica seja obrigatória por lei”, destaca.

Ela ressalta ainda a importância de ampliar a identificação dos potenciais doadores e reduzir as perdas que ocorrem no processo, além de qualificar a entrevista familiar para aumentar os índices de autorização. Para isso, aponta a necessidade de fortalecer as equipes que entrevistam as famílias e identificam os potenciais doadores e reduzir as desigualdades regionais — a taxa de recusa na região Norte foi de 67% em 2025, enquanto no Sul ficou em 37%.

Apesar dessas limitações, 2025 foi marcado por conquistas importantes. Segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), o país ultrapassou pela primeira vez a marca da notificação de 74 potenciais doadores pmp [por milhão da população] e de 20 doadores efetivos pmp. Um ano antes, em 2024, o Brasil ocupava a 24ª posição entre 45 países em um ranking de número de doadores efetivos por milhão da população.

Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), de 2013, aponta os três principais motivos para a recusa das famílias. São eles: incompreensão da morte encefálica, falta de preparo da equipe para fazer a comunicação sobre a morte e razões religiosas. A vice-presidente da ABTO, Ilka Boin, concorda com os resultados da pesquisa e comenta a desconfiança de familiares em relação à morte encefálica. Fala também sobre o despreparo da equipe de atendimento primário, que, segundo ela, por vezes impacta na decisão sobre a doação:

“As pessoas não acreditam no procedimento [da morte encefálica]. A família não entende muito bem, então a gente precisa desde o começo do atendimento conversar sobre a evolução do paciente, conhecer bem seu estado neurológico, para saber a hora de falar que ele vai entrar em morte encefálica e que com o prognóstico fechado não há retorno”, analisa.

Com base em sua rotina de trabalho, Jacqueline diz sentir uma melhora em relação à aceitação das famílias no Rio de Janeiro, ao longo de seus 15 anos de atuação à frente de um serviço de transplantes cardíacos. A última edição do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT 2025) confirma essa impressão: o estado fluminense é o segundo com menor taxa de recusa familiar para doação de órgãos, empatado com o Paraná (33%), e atrás apenas de Santa Catarina (32%). Ainda assim, ela defende que ações e campanhas de incentivo à doação sejam contínuas e não pontuais, geralmente restritas ao Setembro Verde — mês dedicado à causa.

Patrícia ressalta, por fim, que o número anual de transplantes de órgãos — entre 9 e 10 mil procedimentos — não deve ser compreendido como um teto fixo na estrutura brasileira. Em média, cerca de 15 mil novos pacientes têm entrado na lista de espera anualmente. Para a coordenadora do SNT, é possível aumentar a oferta de transplantes e movimentar a lista: “Acho que há margem para crescimento, especialmente se houver aumento na doação efetiva e melhor aproveitamento dos órgãos já doados”, conclui.

Entre a decisão de doar um órgão e o transplante existe uma cadeia de pessoas e processos que muitas vezes são invisibilizados: profissionais de saúde, equipes de captação, centrais de transplantes, sistemas de transporte e famílias que, em meio ao luto, dizem sim à doação. É essa rede que permite que milhares de vidas recomecem todos os anos no Brasil.

Serviço

Ainda que legalmente apenas a autorização familiar garanta a doação de órgãos, a pessoa pode registrar sua intenção em vida e preencher uma Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (Aedo), pelo site https://www.aedo.org.br/. Acesse e informe-se melhor a respeito.

Confira a entrevista completa com Patrícia Freire clicando aqui

Saiba mais: https://www.gov.br/saude/snt

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