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Servidora de carreira do Ministério da Saúde há 23 anos, quase todos a serviço do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), a enfermeira Patrícia Freire é a coordenadora-geral do SNT desde julho de 2024. Isso significa que é ela quem gerencia um dos procedimentos de maior complexidade no Sistema Único de Saúde (SUS). “No Brasil, o transplante é uma atividade de interesse público regulada pelo Estado e organizada pelo Ministério da Saúde, por meio do Sistema Nacional de Transplantes”, pontua.

Antes de assumir a função em definitivo, Patrícia chegou a coordenar o SNT de forma interina por duas vezes. Em entrevista à Radis, ela explica como o SUS regula os procedimentos de transplantes em todo o país e de que forma um paciente entra na lista de espera por um transplante, fala sobre como prezar por princípios como isonomia, universalidade e equidade e aborda os principais desafios enfrentados — tanto com a doação de órgãos por parte das famílias quanto para melhorar o aproveitamento de potenciais doadores.

Patrícia também ressalta o desafio de coordenar um processo tão complexo em um país de dimensões continentais com mais de 210 milhões de habitantes. Mais de 80% dos transplantes são financiados gratuitamente pelo SUS: “O Brasil não é apenas um país que realiza muitos transplantes, é um país que realiza transplantes em larga escala, com base no sistema público, universal, regulado e solidário”, destaca.

O transplante de órgãos é um dos procedimentos de maior complexidade no SUS? Explique como ocorre o ingresso de um paciente na lista para receber um órgão e qual é o fluxo para que esse processo se desencadeie.

Sim, de fato, são procedimentos de altíssima complexidade. Você imagina: quando nada mais funcionou, o que ainda pode ser feito? Substituir aquele órgão que não está mais funcionando. Então, certamente é um dos procedimentos de maior complexidade que existem no SUS. Quanto ao fluxo, o ingresso de um paciente na lista de espera ocorre a partir de uma indicação médica especializada. Em geral, esse paciente é acompanhado por uma equipe assistencial que identifica as necessidades do transplante, realiza avaliação clínica, solicita exames complementares para analisar aquela situação e quando preenchidos os critérios técnicos, o médico encaminha o caso para um estabelecimento e uma equipe transplantadora autorizada pelo Sistema Nacional de Transplantes, como preconiza a Lei nº 9.434 de 1997. Após essa avaliação, a própria equipe transplantadora inscreve o paciente no sistema informatizado oficial do SNT para o gerenciamento das listas.

Como é esse cadastro?

Essa inscrição não é apenas um cadastro administrativo. Ela contém informações clínicas, laboratoriais, imunológicas e as informações necessárias para que o próprio sistema identifique, no momento da oferta de um órgão, quais os pacientes são compatíveis e elegíveis para o transplante com órgão daquele doador. Então, o fluxo envolve indicação médica, avaliação por uma equipe habilitada, realização dos exames exigidos, exames pré-transplantes, inscrição no sistema oficial do Ministério da Saúde e acompanhamento contínuo dos pacientes enquanto estiverem na lista de espera aguardando. 

“Tecnicamente é mais adequado usar lista de espera, porque a palavra fila transmite a ideia de uma ordem linear, única, como se o primeiro inscrito fosse necessariamente o próximo e o primeiro a receber o órgão”

Ainda falando em lista de espera, existe uma questão semântica quanto ao termo adotado. Há algum tempo falava-se “fila de espera” e de um tempo pra cá “lista” tem sido mais usado. Pode dizer qual é o mais adequado e por quê?

Não está errado falar fila, mas tecnicamente é mais adequado usar lista de espera, porque a palavra fila transmite a ideia de uma ordem linear, única, como se o primeiro inscrito fosse necessariamente o próximo e o primeiro a receber o órgão. Só que no transplante não é bem assim que funciona, porque a lista é organizada por critérios técnicos, clínicos, imunológicos e logísticos, que variam conforme o órgão ou tecido.

Pode dar alguns exemplos desses critérios?

Entre os critérios considerados está, por exemplo, o tipo sanguíneo. Não adianta você ter um doador do tipo B e o receptor ser do tipo A que o órgão não vai para esse receptor. Então, por exemplo, entre os critérios estão a tipagem sanguínea, compatibilidade imunogenética entre doador e receptor, no caso de alguns tipos de transplantes, a gravidade clínica, o tempo de espera, as dimensões corporais — como peso e altura — em algumas situações a idade, e também outras condições, como urgência, as condições do doador, o tempo de isquemia que o órgão suporta [período máximo que o órgão pode ficar fora do corpo, sem circulação sanguínea], dentre outros. Então, por isso que não é adequado falar em fila e sim em lista, porque os critérios não são lineares, vai depender muito de compatibilidade e de outros critérios para identificar quem será o próximo a receber o transplante.

“Não se trata de uma fila comum, mas de um mecanismo regulado, auditável, baseado em critérios técnicos para encontrar o receptor mais adequado”

Em que situações a ordem cronológica de entrada na lista pode ser um diferencial?

A ordem cronológica geralmente funciona como um critério complementar ou de desempate, quando os demais critérios técnicos são semelhantes. Por isso, como havia dito, a expressão lista de espera é mais precisa, porque ela expressa melhor a lógica do sistema. Não se trata de uma fila comum, mas de um mecanismo regulado, auditável, baseado em critérios técnicos para encontrar o receptor mais adequado. E a lista única é organizada por regiões do nosso país, para facilitar a questão da logística de distribuição dos órgãos. 

“A lista de transplantes é única e regulada pelo Sistema Nacional de Transplantes e Ministério da Saúde. Ela vale tanto para pacientes atendidos no SUS, como também para pacientes acompanhados em hospitais privados”

A senhora explicou como funcionam os critérios e também sobre a seriedade com que essa distribuição dos órgãos é feita aos receptores. Porém, em casos que envolvem famosos e que o sistema funciona com a celeridade devida, por vezes nota-se uma série de insinuações referentes à isonomia do processo. Principalmente em comentários nas redes sociais. Nesse sentido, falando especificamente sobre o caso do apresentador Faustão — que há poucos anos gerou esse tipo de repercussão na internet — , como fazer para dirimir as eventuais suspeitas e dialogar com alegações de favorecimento indevido?

A principal forma de enfrentar esse tipo de suspeita é a transparência. É explicar de forma transparente que a lista de transplantes é única e regulada pelo Sistema Nacional de Transplantes e Ministério da Saúde. Ela vale tanto para pacientes atendidos no SUS, como também para pacientes acompanhados em hospitais privados. Ou seja, estar em um hospital privado, ter plano de saúde, ser uma pessoa pública ou ter maior visibilidade social não altera os critérios de alocação dos órgãos. Como já expliquei anteriormente, quando surge um órgão disponível, o sistema cruza automaticamente os dados do doador com os dados dos pacientes inscritos. Então, são considerados critérios como compatibilidade sanguínea, compatibilidade imunológica — quando aplicável —, gravidade, urgência, dimensões antropométricas, tempo de espera, questões logísticas, e critérios específicos, também, para cada modalidade de transplante. Então, a decisão não se baseia em fama, em condição financeira ou em influência pessoal. Ela é totalmente técnica. 

Que outros critérios também ajudam na decisão?

Também é importante deixar claro que alguns transplantes podem ocorrer em menor tempo por questões extremamente técnicas mesmo. Por exemplo, um determinado paciente pode ter maior compatibilidade com o órgão ofertado, pode estar numa situação de maior gravidade, portanto, ele tem indicação de ser transplantado mais cedo. Pode estar inscrito em uma lista para um órgão específico, cuja lista seja menor, ou pode haver até uma combinação muito específica entre as características do doador e do receptor, que faz com que a compatibilidade se cruze e por conta disso o sistema coloque este paciente à frente. Isso não significa privilégio, mas um funcionamento adequado do sistema, porque são cálculos feitos pelo próprio sistema informatizado que segue normas definidas pela legislação brasileira. No caso de situações de grande repercussão pública, a exposição midiática pode gerar a impressão de uma superioridade excepcional, mas o que deve ser reforçado é que os critérios são os mesmos para todos. A legislação do Sistema Nacional de Transplantes prevê a alocação com base em critérios técnicos, éticos e logísticos. As listas de espera são observadas e a Central Nacional de Transplantes, que é um braço operacional do Sistema Nacional de Transplantes, faz o gerenciamento dessa lista única de acordo com os critérios totalmente técnicos. No caso do apresentador Faustão, ele estava com situação de urgência máxima na lista, por conta da gravidade do seu caso, e, assim como qualquer pessoa em situação de urgência, ele recebeu um órgão no tempo necessário para que a sua vida fosse preservada. 

Ainda falando sobre o uso da lista de espera, como ela funciona em casos de doação com doador vivo, entre familiares compatíveis?

Nos casos de doador vivo, a lógica é diferente da lista de espera para órgãos de doador falecido. Quando há um familiar ou um cônjuge compatível que pode doar em vida, como ocorre em alguns casos em transplantes de rim ou de parte do fígado, o transplante não depende da alocação de um órgão proveniente de um doador falecido para uma lista com várias pessoas. Nesse caso, estamos falando de uma doação direcionada. Por exemplo, eu tenho um irmão que precisa de um rim, então eu vou doar para ele. Eu não vou doar para uma lista de pessoas desconhecidas. Dessa forma, tanto o candidato ao transplante quanto o doador são inscritos no sistema informatizado do SNT, mas a previsão de transplante, nessa circunstância, já é com o doador vivo. Então, ele fica registrado no sistema com o planejamento para realizar o transplante com o doador vivo. Mas isso não significa ausência de controle. O doador vivo precisa, da mesma forma, passar por uma avaliação rigorosa, tanto clínica quanto laboratorial, para confirmar que a doação é segura para si e adequada para o receptor. São avaliados ainda aspectos éticos e legais, para garantir que a doação seja voluntária, que haja ausência de coerção emocional, financeira e que esteja em conformidade com a nossa legislação, que é bastante rigorosa em relação a isso.

E no caso da doação de médula?

A doação de medula óssea, que também é uma doação intervivos, tem uma particularidade. Muitas vezes, a busca ocorre entre familiares compatíveis, como é no caso do rim e do fígado. Então, a doação é direcionada, é feita para aquela pessoa específica. No caso dos doadores voluntários, que são aqueles que se inscrevem para doar para pessoas desconhecidas, ou seja, a doação não aparentada, no Brasil utilizamos o nosso registro brasileiro de doadores voluntários de medula óssea — que é o Redome. Assim, quando existe um doador compatível, o Redome entra em contato com esse doador e junto com o centro de transplantes realiza a coleta da medula óssea e programa o transplante na data mais adequada para ambos. A diferença é basicamente essa.

O transplante no Brasil é integralmente regulado pelo SUS, mas pode ser realizado em hospitais particulares. Como explicar à sociedade, de forma clara e objetiva, o que compete exclusivamente ao SUS nos casos de doação de órgãos e transplantes no Brasil?

No Brasil, o transplante é uma atividade de interesse público regulada pelo Estado e organizada pelo Ministério da Saúde, por meio do Sistema Nacional de Transplantes. Isso significa que mesmo quando o procedimento ocorre em um hospital privado, toda a parte da doação, a inscrição na lista, a alocação do órgão, os critérios de distribuição, todas essas etapas seguem regras públicas. O SUS tem um papel central em pontos essenciais, como definir normas nacionais, autorizar as equipes e os estabelecimentos de saúde, os hospitais transplantadores, gerenciar as listas de espera, coordenar a alocação desses órgãos, dos doadores, monitorar esses dados e organizar a rede de doação. Além de articular a logística nacional e financiar a maior parte dos procedimentos. 

Para além desse nível gerencial, e na prática? Como o SUS atua na assistência em relação aos transplantes?

Ele assegura assistência integral a milhões de brasileiros. Em 2025, por exemplo, o SUS financiou mais de 80% dos transplantes no nosso país e garantiu assistência gratuita inclusive nos exames preparatórios, passando pela cirurgia, pelo acompanhamento do pós-transplante e até o fornecimento da medicação imunossupressora — que é o medicamento imunossupressor necessário durante toda a sobrevida do paciente. Ou seja, quando alguém faz o transplante, vai ter que tomar imunossupressor para sempre, para evitar a rejeição daquele órgão. 

“O órgão doado não é privado, o órgão doado é sempre público”

E como o SUS controla esse procedimento quando feito em hospitais privados?

Nesses casos, o hospital pode ser público ou privado, mas ambos têm que ser autorizados pelo SNT para poder atuar no processo de doação e transplante. De todo modo, é importante deixar claro que o órgão doado não é privado, o órgão doado é sempre público. Por mais que a pessoa possa escolher fazer a cirurgia de transplante em um hospital privado, que é um direito dela, a doação é sempre pública, regulada pelo Sistema Nacional de Transplantes e monitorada 100%, tanto pelo SNT como pelos parceiros institucionais, que são as centrais estaduais de transplantes. 

“Em muitos países o acesso ao transplante depende de modelos de seguro, financiamento privado ou cobertura parcial entre o paciente e o seu seguro”

Hoje, como o Brasil se posiciona internacionalmente? O país é uma referência em relação a transplantes de órgãos?

Sim, o Brasil é uma referência internacional em transplante, especialmente pelo caráter público, universal e gratuito do seu sistema, que é integralmente regulado pelo SUS, né? Então, o país está entre os maiores transplantadores do mundo em números absolutos e ocupa a quarta posição mundial em números de alguns tipos de transplantes. Por exemplo, é o quarto na realização de transplantes de fígado e de rins. A gente só perde mesmo para a China e Índia, claro, pela sua população, de bilhões de pacientes, que naturalmente estariam à frente, e para os Estados Unidos. Mas o fato é que, de maneira pública, o Brasil vem liderando os transplantes, porque realiza-se transplante integralmente pelo sistema público. E esse é um diferencial muito importante. Em muitos países o acesso ao transplante depende de modelos de seguro, financiamento privado ou cobertura parcial entre o paciente e o seu seguro. E no Brasil não. O SUS organiza e financia essa rede, que é capaz de ofertar transplantes de altíssima complexidade, fornecer os medicamentos imunossupressores e realizar o acompanhamento pós-transplante de forma totalmente gratuita para a população, como eu disse na questão anterior. Então, o Brasil não é apenas um país que realiza muitos transplantes, é um país que realiza transplantes em larga escala, com base no sistema público, universal, regulado e solidário. E isso coloca o SNT como uma das maiores políticas públicas de alta complexidade do mundo. 

Entre transplantes de rins, fígado, coração e pâncreas, o Brasil realiza mais de 9 mil procedimentos por ano, em uma curva geral ascendente de 2023 para cá, segundo dados do MS. Quantos pacientes, em média, ingressam anualmente na lista de espera de transplantes e que análise podemos fazer a partir desses dados?

Eu acho que para fazer essa matemática, primeiro a gente precisa separar três conceitos. O número de pessoas na lista é uma coisa, o número de novas inscrições é outra e o número de transplantes realizados, outra. Porque esses números não se comportam de uma maneira idêntica. A lista é dinâmica. Todos os dias há novas inscrições, todos os dias transplantes são realizados, todos os dias tem pacientes que são suspensos temporariamente, por conta de alguma condição que impeça a realização do transplante, como uma infecção, por exemplo. Existem exclusões por mudança de condição clínica, por óbitos, por reavaliação. Então, não dá para você fazer uma associação ‘de/para’ exatamente do número de pessoas na lista, do número de pessoas que entram e que saem. Feito esse esclarecimento, em média, 15 mil novas pessoas ingressam nas listas de espera por ano, no Brasil, mas essa média tem que ser avaliada por órgão, por estado do país, pela faixa etária e pela modalidade do transplante. Não é adequado, portanto, comparar apenas o total de ingressos com o total de transplantes realizados, porque a demanda é diferente para cada tipo de órgão. A maior lista de transplantes hoje é para o rim, então é natural que vá ter mais transplantes renais, até porque um doador, se falecido, fornece dois rins. Já o coração, tem um quantitativo geral bem menor, pois obviamente o doador só doa um órgão. Tudo isso tem que ser levado em conta na análise. A córnea, por exemplo, tem outra dinâmica de captação, de processamento, de tempo, de espera. A depender do líquido de preservação, ela pode resistir por até 14 dias, diferente do órgão, que você tem que transplantar o mais rápido possível após a remoção. 

Havendo aumento na doação e captação de órgãos, o SNT possui infraestrutura para aumentar o número de procedimentos por ano ou o sistema já opera em seu limite?

Há margem para crescimento sim. O número anual de transplantes não deve ser compreendido como se fosse um teto fixo na estrutura brasileira. O Brasil tem capacidade de crescimento e os dados mais recentes mostram isso.

Outra questão importante é: de que forma o SNT lida com a necessidade de longos deslocamentos de órgãos e da própria pessoa a receber o transplante? O local de residência do paciente é um fator que impacta diretamente em suas chances de obter o órgão/tecido? Como prezar pelo princípio da equidade nessas situações?

A dimensão territorial gigantesca do Brasil agrega desafios a um sistema que já é complexo por si só, até porque cada órgão tem o tempo máximo que consegue ficar sem o sangue circulando para levar oxigênio [isquemia], o que agrega muitos desafios. O local de residência pode influenciar em aspectos logísticos, mas não é para funcionar como uma barreira de acesso. O SNT trabalha justamente para reduzir essas desigualdades regionais e para ampliar a equidade no acesso aos transplantes. Alguns órgãos, como coração e pulmão, têm um tempo de preservação muito curto fora do corpo, que é aquilo que eu falei do tempo de isquemia. Isso exige resposta rápida, exige articulação entre os hospitais, entre as centrais estaduais de transplantes, entre as equipes de captação, entre as equipes transplantadoras — que podem ser diferentes — e a correta logística entre o transporte terrestre e o aéreo, quando necessário.

Então o controle logístico é fundamental.

Nesses casos, a logística é parte essencial da decisão, porque o órgão precisa chegar em condições adequadas ao receptor. Então, sem dúvida, o tamanho do Brasil é levado em consideração para organizar essa logística. A Central Nacional de Transplantes, que é um braço operacional do SNT que opera 24 horas , tem um papel estratégico nessa distribuição nacional, porque ela viabiliza o transporte dos órgãos, dos tecidos, das equipes de captação e das equipes de transplantes, através de acordos de cooperação técnica que temos com as companhias aéreas da aviação civil e com a Força Aérea Brasileira. E isso é gratuito, o cidadão não paga nada. Basta que a Central Estadual de Transplantes acione a Central Nacional que a gente faz de tudo para que o órgão chegue em condições adequadas ao local onde o receptor está para a realização do transplante. Em 2025, essa distribuição entre estados, coordenada pela Central Nacional de Transplantes, viabilizou centenas de transplantes de fígado, rins e coração, por exemplo. Foram realizados quase 5 mil voos para transporte de órgãos e equipes. Então, o fluxo é muito grande e a gente faz isso justamente para evitar que o local de residência da pessoa seja uma barreira de acesso para ela, como disse antes. A residência do paciente não é para ser critério de privilégio nem de exclusão. O que existe são critérios técnicos para garantir que o órgão seja transportado com segurança.

Alguma orientação específica, em relação a isso, para quem está na lista?

O paciente que está inscrito, a depender do órgão que espera, precisa estar próximo de um centro transplantador. Então, por exemplo, se ele precisa de um coração e reside em São Paulo, ele está cadastrado na central daquele estado e não pode estar morando no Rio Grande do Sul, porque o tempo que vai levar para se deslocar do Rio Grande do Sul até São Paulo é superior ao tempo máximo necessário para que a cirurgia ocorra. Então, ele vai precisar residir em São Paulo. Já para rim, por exemplo, permite que ele more em outra cidade, porque o órgão tem um tempo de isquemia um pouco mais prolongado. Mas o princípio da equidade é sempre observado justamente para que, por meio de uma lista e com critérios uniformes, haja uma coordenação nacional, e o local de residência não seja uma barreira de acesso para a realização desse transplante. 

“A gente ainda tem um número muito grande de potenciais doadores que não são notificados para as centrais federais de transplante”

Como coordenadora de todo esse sistema, você diria que esse é o maior desafio do SNT? Ou teriam outros além da questão logística? 

Não diria que é esse. Eu acho que o maior desafio, hoje, é justamente lidar com o número de doadores que é disponibilizado todos os anos. A gente ainda tem um número muito grande de potenciais doadores que não são notificados para as centrais federais de transplante, embora a notificação da morte encefálica seja obrigatória por lei. Assim, um dos grandes desafios é identificar esses potenciais doadores, notificar no SNT para que as equipes hospitalares de doação e transplante possam ter a oportunidade de avaliar esse potencial doador, para ver se ele é elegível — porque tem critérios que desqualificam o doador, por exemplo, se ele tiver um câncer em atividade ou alguma doença infecciosa capaz de ser transmitida pelo transplante. Que essa equipe tenha a oportunidade de entrevistar a família e que coloque essa possibilidade sobre a doação dos órgãos. Para que após um desfecho tão doloroso a família tenha essa opção. 

“No Brasil a gente ainda tem cerca de 45% de recusa familiar por ano”

Ou seja, há o desafio de aumentar as doações?

Um dos maiores desafios é a gente lidar com a subnotificação da morte encefálica e também com as diferenças regionais. A gente ainda tem algumas centrais de transplantes que estão trabalhando aquém da sua capacidade. O Ministério da Saúde está investindo pesadamente para diminuir essas disparidades regionais, tentar apoiar as centrais de transplantes para que todas fiquem num patamar mais ou menos parecido da doação de órgãos. De uma maneira geral, o maior desafio é ampliar a identificação dos potenciais doadores e reduzir as perdas de doadores no processo de doação; qualificar a entrevista familiar; aumentar a autorização familiar — porque no Brasil a gente ainda tem cerca de 45% de recusa familiar por ano —; fortalecer as equipes que fazem as entrevistas familiares que identificam os potenciais doadores; reduzir essas desigualdades regionais e fortalecer o sistema como um todo. Eu entendo que há margem para crescimento, especialmente se houver aumento na doação efetiva e melhor aproveitamento dos órgãos já doados. 

Para finalizarmos, a senhora falou algumas vezes na entrevista sobre a Central Nacional de Transplantes. Poderia falar sobre ela e explicar brevemente sua atuação no SNT?

A Central Nacional é um braço operacional da Coordenação-geral do Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde. Ela funciona com uma escala de plantão de 24 horas por dia, sete dias da semana, e gerencia a distribuição nacional de órgãos. Por exemplo, quando há uma doação no estado de São Paulo, o órgão vai primeiramente para os candidatos a transplante que estão naquele estado. Mas, eventualmente, existe um doador que não tem receptor compatível, ou não tem receptor pronto, ou ele é um critério expandido e as equipes de São Paulo não aceitaram aquele órgão. Então, o órgão não vai ser utilizado no estado de São Paulo.  Mas, como é que vamos saber para quem é o próximo no Brasil? Quem seria o próximo a receber o transplante? A central do estado de São Paulo oferta aquele órgão para a Central Nacional de Transplantes e ela gera um ranking, uma seleção no sistema, e daí, mediante critérios de priorização, de compatibilidade, de tempo e risco entre outros — como gravidade, urgência, regionalização — ele diz olha, o próximo candidato compatível na lista a receber esse transplante é, por exemplo, um receptor do estado de Goiás, um receptor do estado do Acre, então, a Central Nacional de Transplantes faz a distribuição dos órgãos para a lista nacional de espera e também apoia com a logística de transporte aéreo dos órgãos e dos tecidos doados.

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