A

Menu

A

Participe da Pesquisa Radis 2025

O episódio é recente: ocorreu em março, numa universidade de Bauru (SP), e causou rebuliço nas redes. Apesar de ter apenas 44 anos, Patrícia foi alvo de chacota por colegas de classe, que a identificaram como “velha”. Ou seja, foi vítima de “etarismo” ou “idadismo”, como chamamos a discriminação por idade. Mas não importa o nome que se dê a esse preconceito: fundamental é reconhecermos que se trata de um preconceito estrutural no Brasil. E que, assim como o racismo ou qualquer outra discriminação, causa dor na vítima e consequências negativas para toda a sociedade. 

Três colegas do curso de Biomedicina de Patrícia, com quase metade de sua idade, gravaram um vídeo zombando: “Ela tem 40 anos já. Era para estar aposentada.” “Gente, [com] 40 anos não dá mais para fazer faculdade.” Chama atenção o fato de identificarem como velha uma pessoa com idade inferior a sessenta anos. Dessa maneira, podemos afirmar que o conceito de “velhice” não depende apenas da idade cronológica. Qualquer pessoa pode ser considerada “velha” por um grupo que a julgue inferior, descartável, não produtiva.

A vítima principal do evento foi Patrícia, mas as agressoras também são resultado do idadismo estrutural. A sociedade “reserva” espaços, como a universidade, para a chamada juventude. Na ausência de políticas públicas que promovam a convivência de diversas gerações, reforçam-se comportamentos nocivos. 

É contraditório: nosso acelerado envelhecimento demográfico acentuou o idadismo. As muitas perdas de direitos trabalhistas experimentadas nos anos recentes, assim como a banalização da morte de pessoas idosas na pandemia — por parte inclusive de autoridades — intensificaram a discriminação. O medo de envelhecer leva as pessoas a rejeitarem aquelas que representam quem elas próprias serão, no futuro.

O idadismo pode fazer vítimas de qualquer idade, mas é mais cruel entre as pessoas idosas. A cada dois idosos, um já sofreu de idadismo. No livro “A Velhice: Realidade Incômoda” publicado em 1970, Simone de Beauvoir denunciou a “conspiração do silêncio” sobre as injustiças e preconceitos relacionados ao envelhecimento. Outro sociólogo, Norbert Elias, associa o envelhecimento a distanciamento social, invisibilidade, luto e abandono. Não à toa, a luta contra o idadismo tem muitas semelhanças à luta contra a discriminação de pessoas com deficiência. É a sociedade que precisa mudar e promover a inclusão.

O idadismo machuca, mesmo sem ser percebido. Mas, quando assimilado por suas vítimas, torna-se uma forma de violência ainda mais grave. Acarreta um sentimento de inferioridade terrível, como afirma Susan Sontag. Algo que silencia a pessoa idosa até em sua subjetividade, com repercussões na saúde, como sensação de solidão, abandono e perda do desejo de viver. Essa discriminação não é apenas exercida por pessoas mais jovens. Também está dentro de casa. E em instituições como bancos, hospitais e até na produção de conhecimento. Nós realizamos uma pesquisa, a ser publicada na Revista Ciência e Saúde Coletiva, na qual constatamos que a escolha da linguagem também desempenha um papel crucial na reprodução do idadismo. Expressões como “velho demais” ou “parece um velho” podem contribuir para a exclusão social. Assim como a comunicação ou o tom de voz infantilizado, no trato com idosos. Mesmo que ocorra com intenção carinhosa, é uma forma de discriminação etária, pois busca controlar comportamentos e anular a cidadania e a autonomia da pessoa idosa.

O idadismo afeta ricos e pobres. Entretanto, pessoas pobres, negras e com outras condições que a sociedade em geral discrimina sofrem ainda mais, pelo acúmulo de violência social. A discriminação existe até no direito a envelhecer: a média de idade à morte é de 46 anos para indígenas, 61 para negros e 70 para brancos.  

O idadismo, afinal, está associado ao valor do ser humano no capitalismo. Envelhecer em uma sociedade em que o corpo juvenil e a força de trabalho são grandes valores econômicos, contribui para a vulnerabilidade da velhice. E isso mesmo em países como o Brasil, onde pessoas idosas desempenham papel fundamental na redução da pobreza familiar ao ajudarem jovens e adultos a se inserirem no mercado de trabalho — quando, por exemplo, cuidam dos netos.

A OMS propôs três estratégias no “Relatório Mundial sobre o Idadismo”: implementação de leis e políticas públicas, intervenções educacionais, como a inclusão digital, e contato intergeracional. Nós, autoras, propomos que seja também incluída a participação de ativistas, de direito e saúde da pessoa idosa, nas lutas identitárias, como a luta contra o racismo, contra o machismo, contra a discriminação LGBTQIA+, na luta contra a fome, entre outros. Essas condições interagem com o idadismo. 

A sociedade precisa pedir desculpas a Patrícia, às jovens que cometeram a discriminação e, especialmente, às pessoas idosas que sofreram e/ou que irão sofrer de idadismo. Precisamos mudar a sociedade brasileira, reagir contra o capitalismo nocivo e defender valores associados com o bom viver.

* Dalia Romero é doutora em Saúde Pública e coordenadora do Grupo de Informação em Saúde e Envelhecimento (Gise), do Icict/Fiocruz; Nathalia Andrade é socióloga e assistente de pesquisa do mesmo grupo.
Sem comentários
Comentários para: Velho, velha? Velha é a discriminação e o idadismo

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anexar imagens - Apenas PNG, JPG, JPEG e GIF são suportados.

Leia também

  1. Pós-tudo
Nos últimos anos, o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) tem gerado uma enorme expectativa por um admirável mundo novo. Não falta empolgação nos mais diferentes setores da nossa sociedade, o que não é diferente no campo da saúde. Aqui, dentre as promessas mais frequentes, estão tratamentos mais acessíveis, maior assertividade, medicina de precisão e novos […]
  1. Pós-tudo
O SARS-CoV-19 chegou ao Brasil em fevereiro deste ano e, em março, foi confirmada a transmissão comunitária no país. Desde então a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) entendeu a gravidade da situação e seu papel enquanto sociedade científica da área de saúde coletiva no trabalho junto a outras organizações da sociedade civil para proteger […]
  1. Pós-tudo
A história das últimas quatro décadas da pandemia da aids tem mostrado que, na medida em que as populações mais vulneráveis e as pessoas vivendo com HIV/aids passaram a ser chamadas para contribuírem na elaboração de ações comunicacionais, maior foi a sintonia entre estes públicos específicos e a mensagem transmitida.  A urgência dos primeiros anos […]
  1. Pós-tudo
O grau de convergência dos achados científicos sobre a relação entre a difusão de armas de fogo e crimes é praticamente consensual, de forma análoga ao grau de concordância por estudiosos de que o processo de aquecimento global e mudanças climáticas têm sido provocados pela ação humana. No Atlas da Violência 2019 fizemos um resumo […]
Próximo
Filtrar por Categorias
2016
Acervo
Imagens
Emergência Yanomami
Edição
2020
2021
2022
2023
Entrevista
17ª Conferência Nacional de Saúde
60 anos do golpe
Água
Autismo
Ciência
Covid-19
Cultura popular
Desastres socioambientais
Emergência Climática
Emergência Yanomami
Etarismo
Hepatites
Inclusão
Meio ambiente
Mpox
Neurociência
Palestina
Perfil
Popularização da Ciência
Racismo alimentar
Radis 40 anos
Refugiados
Sanitaristas
Saúde do trabalhador
Saúde Indígena
Saúde Mental
Trajetórias negras
Vacinas
Especial
queimadas 2024
Notícias
Opinião
Editorial
Pós-tudo
Programa Radis
Artigo
Glossário
Revista Radis
Autor
queimadas 2024
Reportagem
17ª Conferência Nacional de Saúde
60 anos do golpe
9º CSHS
Aborto
Abril Indígena
Agosto dourado
Agroecologia
Agrotóxicos
Água
Álcool
Aleitamento Materno
Amazônia
Arte
Atenção Básica
Atenção primária
Câncer de mama
Carnaval
Cidadania
Ciência
Ciência e Tecnologia
Comigrar
Comunicação e Saúde
Comunicação Popular
Comunicação Pública
Conferência Nacional de Saúde
Consciência Negra
Covid 5 anos
Covid-19
Tragédia e luto no Brasil
Cultura popular
Democratização da mídia
Dengue
Desastres Naturais
Direito à Comunicação
Direitos
Direitos ambientais
Direitos Humanos
Divulgação Científica
Doenças negligenciadas
Doenças Raras
Doenças respiratórias
Educação
Emergência Yanomami
Equidade de Gênero
Especial
Etarismo
Experiências do SUS
Favela
Financiamento
Fitoterapia
Gênero
Gestão do Trabalho
Hepatites
História e Saúde
HIV/aids
Homenagem
IAS 2023
Inclusão
Intolerância
Juventude
Legalização do Aborto
Linha do Tempo
Livros
Medicalização
Medicina da família
Meio Ambiente
Memória
Memória Radis
Mineração
Mpox
Mudanças Climáticas
Neurociência
Nutrição
Olimpíadas
Palestina
Pandemia
Participação Social
Pessoas com deficiência
Pessoas em situação de rua
PNI
Populações Tradicionais
Popularização da Ciência
Povos Indígenas
Povos Tradicionais
Pré-Natal
Promoção à Saúde
Promoção da Saúde
Queimadas
Racismo
Racismo alimentar
Radis 40 anos
Raio-x da Saúde
Reforma agrária
Refugiados
Resenha
HIV
Retrospectiva
Retrospectiva 2021
Saberes Populares
Sanitaristas
Saúde Coletiva
Saúde da Família
Saúde da mulher e da criança
Saúde Digital
Saúde do Idoso
Saúde do Trabalhador
Saúde dos atletas
Saúde e Trabalho
Saúde global
Saúde Indígena
Saúde Materna
Saúde Mental
Síndrome de Down
Sobreviver
SUS
SUS 30 anos
Trabalho
Transplante
Vacina
Vacinação
Violência Urbana
Vitiligo
Wolbachia
Serviço
Arte
Artigo
Documentário
E-book
Evento
Exposição
Filme
Internet
Livro
Playlist
Podcast
Publicação
Série
Conteúdo acessível em Libras usando o VLibras Widget com opções dos Avatares Ícaro, Hosana ou Guga. Conteúdo acessível em Libras usando o VLibras Widget com opções dos Avatares Ícaro, Hosana ou Guga.