O Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (PPGVIDA), da Fiocruz Amazônia, começou a registrar, em março de 2026, as primeiras defesas de conclusão do primeiro curso de mestrado em saúde coletiva voltado exclusivamente para a formação de profissionais, docentes e pesquisadores indígenas na região do Alto Solimões, no Amazonas.
O cirurgião-dentista Ozeir Cavalcante Fernandes, da etnia Ticuna, foi o primeiro dos 15 novos sanitaristas a apresentar sua dissertação, em 27 de março, em Manaus. Profissional do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei Yanomami), em Roraima, ele avaliou a utilização dos serviços de saúde bucal pela população indígena adulta no polo base de Filadelfia, em Benjamin Constant, no Amazonas.
“Nossa expectativa é de que experiências como essa não sejam únicas e possam se ampliar para que mais indígenas tenham oportunidade de qualificação acadêmica”, declarou Ozeir após a defesa, como registrou a Assessoria de Comunicação da Fiocruz Amazônia (28/3). A turma de Ozeir contava com mais 14 pesquisadores indígenas, que defenderam seus trabalhos entre o fim de março e o início de abril em Manaus e Tabatinga, na região do Alto Solimões.

Os pesquisadores, das etnias Tikuna, Kambeba, Kaikana, Marubo, Kokama e Kanamari, originários dos municípios de Tabatinga, Benjamim Constant, Atalaia do Norte, Amaturá e Santo Antônio do Içá, apresentaram dissertações com temas variados, que incluem operação logística nos Dsei, alimentação tradicional no ambiente escolar, campanhas de comunicação nas comunidades, itinerários terapêuticos, avaliação da assistência farmacêutica e a relação entre a medicina tradicional e o bem viver, entre outros temas.
A iniciativa da Fiocruz Amazônia, que tem o apoio da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foi idealizada pela pesquisadora Luiza Garnelo, que também coordena a turma. Ela explicou que as pesquisas surgiram a partir de problemas vivenciados pelos alunos nas suas comunidades, o que contribuirá para a qualificação da força de trabalho que atua na saúde na região.
Interiorização e territorialidade
À Radis, ela destacou a importância do curso ao fomentar a qualificação de profissionais indígenas, em um cenário que registra ao mesmo tempo aumento expressivo de indígenas com o curso superior e a dificuldade de avançar a formação em nível de pós-graduação, dada a sua escassa interiorização — em particular na Amazônia, com territórios pouco acessíveis.
Luiza enfatizou que esta é a primeira turma de mestrado em saúde coletiva específica (e adaptada) para indígenas, estudando temas de saúde indígena. Ela lembrou que já existem sanitaristas indígenas, formados em outros programas, em outras áreas, que se dedicaram de uma forma ou outra à temática, mas este é o primeiro curso cuja matriz curricular de saúde coletiva foi adaptada para trabalho com temáticas indígenas.

O resultado do programa são dissertações produzidas no território de origem dos discentes, cuja aplicação contribuirá para melhoria das condições de saúde dessas populações. Outra questão importante diz respeito à adaptação intercultural. “Nós mantivemos a matriz curricular original do programa, já aprovada, mas adaptamos todos os conteúdos programáticos das disciplinas para torná-los específicos à questão indígena e à realidade dos alunos”, acentuou a coordenadora.
Luiza informou ainda que ações similares de formação e interiorização estão sendo implementadas no estado, citando que já acontece em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, um mestrado em enfermagem específico para profissionais indígenas oferecido pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
ABRIL INDÍGENA
“Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós” é o tema da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL 2026). A maior assembleia indígena do Brasil, marcada para acontecer entre 5 e 11 de abril em Brasília (DF) como espaço de denúncia e de construção coletiva, é organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). “Os povos indígenas não estão à venda para a mineração, os créditos de carbono, o agronegócio, as grandes obras, as empresas ou para os interesses do próprio Estado brasileiro quando estes violam nossos direitos”, afirma Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Apib.
As ameaças no Congresso
A demarcação e a proteção de terras indígenas continuam na pauta dos povos indígenas no ATL 2026, que também promove debates sobre os ataques do Congresso Nacional aos direitos indígenas e as eleições de 2026. Segundo a Apib, somente em 2025 mais de 20 propostas anti-indígenas e antiambientais tramitaram na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. O movimento considera que este “pacote de destruição” ameaça a vida dos povos indígenas e aprofunda a violência institucional praticada historicamente pelo Estado brasileiro. O ATL ainda traz à pauta propostas para aperfeiçoar as normas eleitorais a partir das realidades indígenas. Saiba mais: https://apiboficial.org/.
As mulheres em risco
Estudo revela aumento de 500% nos homicídios de mulheres indígenas no Brasil em duas décadas, noticia o site Mídia indígena (11/3). O coletivo de comunicação repercute pesquisa publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva que mostra que jovens, solteiras e com baixa escolaridade são as principais vítimas. A pesquisa, feita a partir de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, localiza no estado de Mato Grosso do Sul os índices mais altos do país e revela um cenário de crescimento contínuo da violência letal contra as mulheres. Os resultados completos da pesquisa estão disponíveis em https://cienciaesaudecoletiva.com.br/.
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