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O transplante de órgãos é, sem dúvida, uma das operações mais complexas, delicadas e urgentes da medicina moderna. No Brasil, de dimensões continentais e profundas disparidades socioeconômicas, essa engrenagem de alta complexidade ganha contornos ainda mais desafiadores. Contudo, o país reafirma sua posição como referência internacional na área, como mostra relato da coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) Patrícia Freire, entrevistada pelo repórter Glauber Tiburtino, nesta edição.

Essa liderança não decorre do acaso. Ela se apoia em uma escolha política e social fundamental: a existência do Sistema Único de Saúde (SUS). Em um cenário global em que o acesso a um novo órgão frequentemente depende do poder aquisitivo do paciente ou da cobertura de seguros privados, o modelo brasileiro destaca-se pela universalidade e pela equidade. 

Sob a coordenação do SNT, o órgão doado é sempre público e o direito à vida sobrepõe-se a qualquer lógica de mercado. Do atendimento básico e exames de compatibilidade à logística de captação — que envolve uma rede de aviação civil e a Força Aérea Brasileira (FAB) — até o fornecimento vitalício de imunossupressores, mais de 80% dos procedimentos são integralmente financiados com recursos públicos. Mesmo quando a cirurgia ocorre na rede privada, as regras de alocação e distribuição seguem critérios estritamente públicos e auditáveis.

Histórias como as de José Osmar e de Genilson Santos demonstram o gigantismo estrutural e a excelência logística do SUS que apesar disto esbarra em gargalos quase intransponíveis para qualquer orçamento ou decreto estatal: a dependência absoluta do tecido social. O transplante não se compra, ele depende da solidariedade humana e só funciona se houver empatia e desprendimento. O SUS constrói as pontas e viabiliza os voos contra o relógio, mas cabe a cada um alimentar o motor da doação. Apoiar o sistema público de saúde e dialogar abertamente sobre o desejo de ser doador são os passos necessários para garantir que as estatísticas do amanhã se traduzam em novas histórias de superação e dignidade.

Quando se pensa em guerra, a mente humana tende a registrar o impacto imediato: o clarão das explosões, o rastro de fumaça e os números trágicos de mortos e feridos diretos. No entanto, existe uma violência silenciosa e de longo alcance que permanece mesmo quando o impacto físico das bombas termina. O que deveria ser um escândalo global e uma violação intolerável do Direito Internacional Humanitário transformou-se, lamentavelmente, na rotina sangrenta dos conflitos contemporâneos. Quase uma década após a Resolução 2286 da ONU — que exige a proteção estrita de instalações médicas em cenários de guerra — a neutralidade da saúde foi revogada pela barbárie. Hospitais não são mais santuários, tornaram-se alvos estratégicos.

Em entrevista recente ao repórter Jesuan Xavier da Radis, Alessandra Vilas Boas, diretora-executiva adjunta do Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Brasil, trouxe um alerta incômodo, mas extremamente necessário: nos conflitos contemporâneos, a saúde pública deixou de ser um refúgio neutro para se tornar um alvo ativo e estratégico para também minar a resiliência de toda uma população e comprometer as gerações futuras. Aceitar essa realidade como o “novo normal” dos conflitos contemporâneos é falhar como humanidade.

Garantir o acesso de um povo vulnerável ao alimento, à água e à medicina básica em tempos de crise não é uma escolha política, é o limite mínimo que nos separa da barbárie completa.

O crescimento alarmante das apostas online (as chamadas bets) no Brasil é fruto direto de um sistema bilionário e deliberado desenhado para lucrar com a vulnerabilidade humana, que encontrou no ambiente digital um caminho fértil. Os anúncios de apostas estão em todos os lugares — nas ruas, na TV, nos uniformes de futebol e nas redes sociais, promovidos por influenciadores que vendem a ilusão de dinheiro fácil. 

As empresas de apostas investem bilhões para criar ecossistemas que funcionam como cassinos digitais, estimulando a impulsividade. Portanto, os danos não podem ser creditados apenas ao “indivíduo que não soube parar” como quer fazer crer o slogan “Jogue com responsabilidade”. São responsáveis todos os “ídolos” que se prestam a aumentar seus ganhos estimulando o jogo, os responsáveis pela falta de controle das plataformas e a não regulação da publicidade (como o que barrou o incentivo ao uso do cigarro) e a falta de ações educativas alertando para a destruição de famílias inteiras que acabam atingidas pelo vício, como relatado no Pós-Tudo desta edição.

Boa leitura!

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Comentários para: O motor invisível da saúde pública: a solidariedade e o gigantismo do SUS

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