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Durante o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), no ensolarado campus da Universidade Federal do Vale do São Franscisco (Univasf), poucas pessoas são tão abordadas quanto ele. A cada dois passos, aparece alguém para cumprimentá-lo, pedir uma foto, agradecer a contribuição dele em sua pesquisa ou elogiar um de seus inúmeros livros. Estamos com Sebastião Pinheiro, um dos pioneiros do campo da agroecologia no Brasil. 

Simpático e solícito, Tião — como a maioria das pessoas o aborda — atende a todos com gentileza e um largo sorriso no rosto, sempre pronto para contar mais uma história. E são muitas! Paulista, o engenheiro agrônomo graduado pela Universidade Nacional de La Plata (UNLP), na Argentina, com pós-graduação em Engenharia Florestal pela Escola Superior de Bosques (Programa ONU/UNLP) e outras três pós-graduações na Alemanha, em áreas ligadas a toxicologia e meio ambiente, atuou, ao longo de décadas, “na defesa da saúde dos brasileiros e da preciosa ecosfera que lhes coube”, como o apresenta a editora de um de seus livros.

Um dos homenageados do CBA em 2025, o professor e autor de livros como “Máfia dos Agrotóxicos no Brasil” (1998) e “Biopoder do Camponês” (2021) foi apresentado à Radis pela docente Simone Benedet Fontoura, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM), e aceitou falar sobre suas impressões a respeito da agroecologia e de suas relações com a saúde. Na conversa, frequentemente interrompida por um ex-aluno ou um entusiasmado leitor, ele contou muitas histórias, inspiradas nos encontros que durante a vida promoveu com estudantes, movimentos sociais e agricultores.

Tião defende que a agricultura é uma atividade feminina, assim como aposta na reconstrução do país a partir das raízes quilombolas e indígenas. Comprometido com o tempo presente, alerta que as tendências podem representar armadilhas se não forem encaradas com consciência e critica o uso acrítico de termos como “transição agroecológica”. “Agroecologia é uma ideologia, e não uma tecnologia, há uma disputa de espaço, de tempo e de discurso”, ensina o professor.

O senhor declarou que a agricultura é uma atividade feminina. Gostaria que o senhor falasse mais sobre isso.

Um dos maiores botânicos do mundo foi um camarada chamado Edward Wilson [biólogo estadunidense, considerado herdeiro natural de Darwin, falecido em 2021, aos 92 anos]. Esse é grande! Ele diz: “Em todo esse planeta com vida, somente cinco espécies fazem agricultura. São elas: o cupim, a saúva, a abelha melípona, a toupeira (topo) e o humano. Os hominídeos estão aqui há 3,7 milhões de anos. E há quanto tempo faz agricultura? Apenas o homem moderno e somente há 10 mil anos. Ele levou 3,6 milhões de anos para aprender a fazer a agricultura. E quem faz isso, em todas as espécies? Uma classe trabalhadora só de fêmeas, especializadas em alimentar toda a comunidade. A agricultura é uma atividade feminina. Elas são treinadas não para acumular capital, mas para alimentar a todos. Isso se chama, em linguagem marxista, organização e classificação de trabalho. Mas não é para acumular capital, é para servir a todos. Então tudo fica muito mais complexo… 

O senhor disse que até 1973 não sabia disso…

Na escola agrícola, o professor norte-americano da Aliança para o Progresso ensinava que a formiga tinha que ser morta com veneno. E a gente se olhava e pensava: “Lá em casa a gente nunca matou formiga. Por que matar formiga?” Porque ele mesmo vendia o inseticida. E ele dizia: “Ah, não pode ser com o burro, tem que usar trator”. Porque ele também vendia trator. Eu saí do colégio com diploma para fazer isso, mas pensando que alguma coisa estava errada. Eu aprendi a minha agricultura com a minha avó, com os meus tios, com minha mãe, meu pai. E agora eu estou mal aqui.

E o que o senhor fez?

Eu peguei diploma, histórico, esqueci tudo isso e fui aprender o que é a agricultura de verdade com mapuches, guaranis, imigrantes argentinos, italianos, alemães, poloneses. Agricultura é diversidade. Aí veio a ideologia da Revolução Verde, que eu não aceitei [Revolução verde foi um movimento que, entre as décadas de 1940 e 1960, defendia a “modernização da agricultura” por meio de novas tecnologias, como sementes aprimoradas, mecanização, uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos, e irrigação]. E não sou superior a ninguém, mas comecei a brigar. Quando encontrei os primeiros intoxicados por agrotóxicos no Rio Grande do Sul eu disse: “Isso é um crime”. E quando chamavam de defensivo, eu perguntava: “Quem inventou isso?” Ninguém sabia, então fui estudar. Defensivo é pesticida, é veneno. Se você diz que isso defende, isso não ataca. Mas ataca! E a vítima quem é? Não é o inseto, é o humano. Isso está errado, é uma coisa perigosa, é igual uma arma. E se é uma arma, não é defensiva. 

“Se o veneno é uma ideologia, não é uma tecnologia, e a agroecologia é uma ideologia, e não uma tecnologia. Há uma disputa de espaço, de tempo e de discurso”

O senhor declarou, aqui no Congresso Brasileiro de Agroecologia, que não perdia mais seu tempo com o veneno, mas sim com a valorização da vida. O que quis dizer com isso?

A questão é ideológica. Se o veneno é uma ideologia, não é uma tecnologia, e a agroecologia é uma ideologia, e não uma tecnologia, há uma disputa de espaço, uma disputa de tempo e uma disputa de discurso. Nessa disputa total, nós temos que situar uma coisa. Por que eu vou perder meu tempo com o veneno, se o meu tempo é escasso e eu preciso muito mais dele para construir o meu espaço? Então, eu tenho que trazer a discussão para a consciência espiritual, religiosa, comunitária. 

Como assim?

No Rio Grande do Sul, um indígena guarani dizia: “Eu agora vou fazer uma coisa para todos. Quem concorda comigo?”. E todo mundo gritava: “Ajuri!”. E faziam juntos. Quando ele queria fazer uma coisa só para ele, não chamava ninguém. Na Amazônia toda também é assim. Isso é uma vida comunitária. O camarada que veio da Europa para o Brasil era vítima da servidão da Idade Média. Ele perdeu todos os seus valores, roubaram sua terra. Quando ele chegou aqui, ganhou terra do imperador na colônia. Ele se estabeleceu aqui com a família, mas com suas contradições. O “ajuri” passou a ser invisível. E o outro se elevou. Lá na Serra Gaúcha, em Nova Petrópolis, foi fundada a primeira cooperativa gaúcha, em 1902. Lá está escrito, em alemão: “Nós não temos dinheiro suficiente para todos, mas um pouquinho de cada um cria e sustenta a necessidade máxima de todos”. Sabe quando São Paulo criou a primeira cooperativa? 1937, em Americana, uma cidade fundada por derrotados da guerra civil norte-americana. 

Mais cedo, o senhor contava uma história sobre o homem do Pampa… Poderia retomá-la?

O homem do Pampa é diferente de todos os homens que existem no mundo. No Pampa, você consegue ver o horizonte a quilômetros de distância. A 20, 30, 45 quilômetros, não tem uma árvore, não tem nada. É só capim. Se você quer ver mais longe, você sobe no lombo de um burro ou de um cavalo. E lá de cima, você amplia a sua visão. Existe uma história sobre dois homens que estão no Pampa e um deles diz assim: “Olha, lá! Vem alguém. Será bom ou será ruim?” O outro diz: “Daqui não dá para ver”. Aí o primeiro diz: “E o que que ele pode fazer?” “É imprevisível, mas posso me preparar”, responde o interlocutor. Isso define o homem do Pampa. Você pode ver que ele nunca tem medo. Quem não o conhece, olha e diz: “Esse cara é brabo”. Mas não, ele apenas está pronto. Está sempre pronto para a guerra, porque ele vê longe. O camarada da selva é diferente. Não é falando mal da selva, não. É que na selva, você está sempre em alerta. O perigo está aqui, o perigo está ali, o perigo está lá, o perigo está em todo lugar [enfatiza, apontando para diferentes direções próximas ao próprio corpo]. O perigo atravessa a árvore, está a meio metro de distância. E o homem da selva pensa: “O que eu faço para sair dessa?” É o que a escola indígena ensina, desde pequenininho. Você vê que eles nunca são picados por cobra, são iguais aos gatos. Eles pressentem o perigo. “Aqui está muito silêncio, tem alguma porcaria aqui”. E é isso que é muito bonito: entender os dois, o homem do Pampa e o homem da selva. Não para torcer para um ou para o outro, mas para entender que eles são diferentes.

Como estudioso da agroecologia, o senhor está preparado para quê?

O grande segredo não é você perceber o que vai acontecer agora. É não se preocupar com 2025. Vamos dizer que tenham dois, três ou quatro segmentos oponentes nessa disputa. Se você se preocupar com o que vai acontecer em 2025 ou em 2030, você está derrotado. Você tem que perceber o quê? “Lá vem gente. Será bom ou será ruim?” Não me interessa, eu estou preparado, entendeu? Por isso que tudo que nós falamos hoje, aqui, não é sobre 2025, mas sobre 2050, 2060. Não vou estar aqui. Nem pretendo. Nem posso. 

E o senhor já vislumbra o que vem por aí? 

O instrumento mais poderoso do grande capital, hoje, são as tendências. O Sebrae realiza tendências. O Mapa [Ministério da Agricultura e da Pecuária] executa tendências. As universidades constroem tendências de interesse do grande capital. Faz-se uma leitura. “Quem vem lá? É a tendência, tchê! Oiga! Será buena? Também vou afiar o meu facão!” Entendeu? A jogada é essa. Não é ser mau, mas dizer assim: “O que é isso? Estão querendo o quê?” Eles trazem a energia mais poderosa do capital. Qual é? Dinheiro! Ouro! Ouro ou dinheiro, que são a mesma coisa. Conheço gente de uma ONG gaúcha que me disse: “A gente escrevia duas páginas, ganhava 20 mil dólares em 1983, 1984; em 1989, a gente escrevia 400 páginas e ganhava só 2 mil dólares”. O que aconteceu? Eles deixaram de ter criatividade e cresceram 400 páginas, mas não cresceram de verdade. Hoje ninguém consegue dinheiro lá fora. É dificílimo. Onde é que está a fonte de dinheiro das ONGs, hoje? No governo! E aí você fica bem quieto, só olhando. “Você vai ganhar muito dinheiro porque vai fazer isso”, dizem. E daí você pensa: “Eu vou eleger deputado federal? Eu não! Eu tenho um patrimônio. Eu sou uma pessoa humilde, simples, tenho uma identidade, tenho uma luta que me dá satisfação”. Isso não é vaidade. 

E como se contrapor a isso? 

Existe um problema muito sério no Brasil, que diz respeito a algumas igrejas evangélicas “raras” — que não são as “de raiz”. Elas têm pastores que são ativistas — não de partido, mas de religião — que formaram partidos. Foi assim no governo Bolsonaro. Essas pessoas são tão perniciosas e corruptas que transformam um bando de pessoas desesperadas em um rebanho, uma manada. Reconstruir isso é buscar nossa raiz. E quem tem essa raiz hoje? Só quilombolas, indígenas ou pessoas com consciência. O americano está destruindo a consciência que ainda existe nos Estados Unidos. Eles usam uma gíria muito feia: “woke”. Wok é aquela frigideira chinesa onde se faz comida. Toda a comida vai dentro dela, e aquilo tem um gosto maravilhoso, porque tem temperos. [Ele faz um jogo entre as palavras “wok”, que se refere à panela, e “woke”, que nos Estados Unidos é usada para criticar pessoas que propõem mudanças ligadas à igualdade e à justiça social]. Mas não tem identidade, nem consistência. Você nem sabe o que tem dentro. Mas é gostoso? Sim! Quem disse que consumir não é gostoso? Consumir é gostoso. Mas para consumir precisa o quê? Dinheiro. 

E a consciência?

A consciência faz você suportar a falta do dinheiro e pensar: “É, eu podia fazer isso, mas não vou fazer porque não tenho dinheiro”. Isso é a realidade. Não, não é um sacrifício, mas essa é uma expressão muito usada aqui na região Nordeste. “Mãe, eu preciso comprar um sapato”. Qual era a resposta da camponesa aqui, na Paraíba? “Depois de colher o algodão nós vamos comprar. Porque o nosso dinheiro está crescendo e ele vai chegar”. Hoje não é assim. Para alguns, o cartão é estranho, porque o cartão não faz sacrifício. Nós não estamos lendo isso como o grande banco está lendo, como a Globo está lendo, como os formadores de opinião pública estão lendo, como os meios estão lendo. Então, você encontra uma empregada doméstica com 18 cartões e o nome na Serasa. “Eu devo R$ 8 mil”. “E quanto você ganha?” “Eu ganho R$ 1.050”. “E você vive com quanto?” “Eu tinha que viver com R$ 1.050, mas vivo com o que dá”.

Como a estrutura do SUS e seu capital humano podem contribuir para se contrapor a essa realidade?

A estrutura do SUS é perfeita! O Sistema Único de Saúde obriga você a diferenciar o atendimento populista da real necessidade. Primeiro, de comunidade, ou sociedade; segundo, de família; terceiro, de indivíduo. São três níveis diferentes. Qual é o prioritário? Se eu resolvo o caso dele, tenho que resolver o caso de todos. Se não tem dinheiro para resolver o caso de todos, a comunidade é mais importante. Há temas que são importantes para uma comunidade. Uma família que tem um problema não é tão importante quanto um problema de uma comunidade. Entende essa gradação? Tem gente que não entende. Aí diz: “Eu queria fazer minha operação plástica, mas o SUS não tem”. Não entende que existem prioridades. Tem gente inteligente que defende que o SUS deveria ter hospital público para pets, usa isso para se eleger vereador. E se você dá uma resposta gaúcha a essa pessoa, ela fica brava! Que valor tem para essa pessoa um hospital público onde a prioridade não é o indivíduo e sim a comunidade? Você está entendendo? São coisas que nós precisamos aprender a ler. E como é que se lê isso? Só com muita educação. 

Como fazer isso?

Não é fornecer educação de conteúdo somente. Tem que ter raiz, espiritualidade e ciência. Olha, eu te dei três elementos aí que são pesados, são cabeludos, não são? Com esses três você constrói. Se você não tiver esses três, abandone o barco e vá viver a sua vida! Hoje, é preciso lidar com a pressão de fora e com a pressão de dentro. Veja as elites: Elas dizem que você não pode criar imposto para os ricos. Mas defendem que o pobre tem que pagar mais imposto, porque os pobres são muitos. Aí você diz assim: “Quem te disse?” E eles te respondem: “Eu sou de tal partido e penso assim”.

“A mudança é ideológica, não é tecnológica”

O senhor poderia falar algo sobre transição agroecológica?

Quando alguém me fala sobre transição agroecológica eu digo que escutei isso em 1986. Hoje, quase 40 anos depois, se diz a mesma coisa. Que transição é essa? Quem está com o pé no freio? É o capital? É a corporação? A quem prejudica a mudança? A mudança é ideológica, não é tecnológica, está entendendo? A transição existe para quem está no poder. Para o subordinado camponês, não existe transição. Eu quero mudar. Existe um rock que diz: “Mamãe, mamãe, estou ligeiramente grávida”. Aí você diz assim: “Ligeiramente? Ou você está grávida ou você não está grávida”. É uma decisão, não é uma alternativa, nem um combate. Entendes? É um fato que muda. O mesmo acontece com: “Eu estou meio bêbado”. Ou você está bêbado ou não está. Você bebeu ou não bebeu? Nós usamos uma palavra que é um termômetro, um buffer, um controlador, um tampão para evitar uma noção de consciência. Eu não uso isso.

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