Menu

Quase como um chamado cívico, o artigo publicado na Folha de S.Paulo, em 29 de novembro de 2022, fazia uma defesa da vida e da vacinação infantil. Vinha assinado pela avó do Bento. Em poucas linhas, discutia de maneira contundente a perda acentuada das coberturas vacinais no país, lamentava o atraso na imunização das crianças contra a covid-19 e alertava para o risco concreto do retorno de doenças já erradicadas como a poliomielite. A avó do Bento era também, naquela ocasião, a presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade Lima, socióloga de voz suave e olhos gentis que, pouco mais de um mês depois, iria se tornar a primeira mulher ministra da Saúde no Brasil.

Em seu discurso de posse em 2 de janeiro, deu uma aula sobre os princípios do SUS e os valores democráticos e prometeu que a sua gestão será pautada por evidências científicas. Da plateia, Eliana Sousa assistia a tudo atenta, quando foi citada nominalmente por Nísia. Pela cabeça da coordenadora da ONG carioca Redes da Maré passou um filme inteiro — a parceria entre elas havia começado logo que Nísia assumiu a Fiocruz, em 2017, e Eliana a procurou para pensarem juntas um plano de ação entre a instituição e o Complexo da Maré, um dos maiores conjuntos de favelas do Rio de Janeiro.

“Quando foi declarada a pandemia, a primeira pessoa que busquei foi a Nísia”, recorda Eliana. Atordoada com as notícias alarmantes e desencontradas que davam conta de um vírus que vinha da China e estava matando pessoas, ela pegou o telefone e ligou diretamente para a presidente da Fiocruz. “Na mesma hora, Nísia me chamou em seu gabinete e mobilizou uma equipe”. Começava ali um projeto que envolvia desde pesquisas para observar como o vírus se comportava no território até um programa de testagem que só foi encerrado recentemente, em dezembro. “Chamamos de Conexão Saúde e foi um projeto tão potente que, quando ganhou corpo, as pessoas finalmente pararam de morrer por covid na Maré”.

Como desdobramento, surgiu o Vacina Maré. Em apenas quatro dias, 36 mil pessoas foram vacinadas na região. “Foi uma ação exemplar”, diz Eliana, que define Nísia como uma pessoa doce e séria, firme e comprometida, qualidades que considera essenciais para um cargo público como o que a pesquisadora assume agora no Ministério da Saúde, uma pasta com orçamento insuficiente — segundo o GT da Transição, houve uma perda de R$ 22,7 bilhões — e problemas tão diversos quanto a crise humanitária dos Yanomami e a reestruturação do Programa Nacional de Imunizações (PNI). “Além do perfil técnico, Nísia tem um interesse genuíno pelo outro. Ela se afeta pela dor do outro”, resume Eliana. “E há muita beleza no modo como ela atua, sem medir esforços para resolver as demandas que lhe chegam”.

Amigo de longa data de Nísia, o pesquisador Gilberto Hochman enumera uma série de características já conhecidas do perfil de Nísia Trindade: intelectual respeitada, pesquisadora criativa, exímia conhecedora da saúde pública e dos problemas sociais do Brasil e dona de uma capacidade de liderança invejável. Mas há algo que não cabe no currículo: Ana, a filha de Gilberto, é afilhada de Nísia; ocorre que, contrariando o caminho natural, foi a própria menina quem escolheu a madrinha. O episódio narrado à Radis por Gilberto não chegou a provocar surpresa, mas diz muito sobre a atual ministra: “Ana ter escolhido Nísia para esse papel significa reconhecer exatamente o cuidado, a escuta e a atenção, traços tão marcantes na personalidade da Nísia quanto suas características intelectuais”.

“Além do perfil técnico, Nísia tem um interesse genuíno pelo outro. Ela se afeta pela dor do outro.”

Eliana Sousa, da ONG Redes da Maré

Do Catete a Manguinhos

Nísia em seu discurso de posse como diretora da Casa de Oswaldo Cruz, em janeiro de 1997
Foto: Arquivo Histórico Casa de Oswaldo Cruz

Nísia Verônica Trindade Lima nasceu no histórico bairro do Catete, no Rio de Janeiro, e foi lá que viveu boa parte da infância. É a segunda filha de um jovem estudante de Direito e de uma servidora pública. Mas ela, a irmã Regina e o irmão caçula Carlos Gustavo foram criados pela avó materna — ela perdeu a mãe quando tinha apenas 3 anos de idade. O pai sempre foi uma figura marcante, mas foi dona Marcília, com sua presença forte e austera, quem se tornou determinante na vida de Nísia. “Na verdade, minha avó achava estranho que eu não tivesse o menor interesse pelas atividades da casa, que eram a sua marca. Essa tensão acabou sendo importante para a formação da minha personalidade, de minhas aspirações”, contou a atual ministra da Saúde, durante uma entrevista concedida para o dossiê Mulheres Intelectuais, publicado pela revista de Estudos Ibero-Americanos, no final de 2021.

Aos 10 anos, por insistência de um tio, mudaram-se todos para o Leblon. Nísia passou a estudar na Escola Municipal George Pfisterer e depois no Colégio Estadual Gilberto Amado. Podia ficar horas na biblioteca do tio onde devorava poesia e prosa e, mais tarde, os livros de Celso Furtado e outros títulos de sociologia. Antes de se decidir pelo vestibular para Ciências Sociais, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a aluna aplicada de matemática pensou em seguir pela área de química. Também tinha paixão por engenharia. Mas a inclinação para humanidades falou mais alto. Nísia credita a escolha também ao momento político. Em pleno regime militar — meados da década de 70, no governo de Ernesto Geisel — e já na faculdade, ela ajudaria a organizar o Centro Acadêmico de Ciências Humanas e o Diretório Central dos Estudantes, onde chegou a ser Secretária Geral.

Cientista social de formação, foi no antigo Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro [o lendário Iuperj, hoje, Iesp-Uerj], quando fazia mestrado em Ciência Política, que Nísia conheceu Gilberto Hochman. É de lá a primeira lembrança que o pesquisador tem da amiga, sentada em um dos bancos do pátio, dividindo-se entre as leituras diárias das disciplinas, a escrita da dissertação e a maternidade — Nísia é mãe de André e Márcio, frutos do casamento com o químico industrial Silvio Sampaio, com quem esteve casada entre 1978 e 1991.

“Lá se vão quase 40 de uma convivência intelectual, de amizade, trabalho e afeto”, faz questão de pontuar Gilberto. Os dois ingressaram praticamente juntos na Fiocruz — ele, em fevereiro de 1987; ela, um mês depois — numa época em que ainda não havia concursos para a instituição, mas um recrutamento junto a pesquisadores. O convite desafiador e apaixonante veio pelas mãos de Paulo Gadelha, um jovem médico que acabara de concluir o mestrado em Medicina Social, na Uerj, e pretendia montar um grande projeto de história e memória, no qual já trabalhava um amigo comum de Nísia e Gilberto, o cientista político Marcos Chor. A eles juntaram-se outros nomes como o historiador Jaime Benchimol.

Formava-se assim o núcleo inicial do que depois se tornaria a Casa de Oswaldo Cruz (COC), unidade da Fiocruz voltada para pesquisa e memória em ciências sociais, história e saúde. Quanto ao museu, inicialmente ligado à história da instituição, esse viria a se tornar um grande espaço de divulgação científica — o hoje premiado Museu da Vida. “Havia um clima de transformação e a ideia de que estávamos construindo algo realmente novo, tudo estava em aberto”, relembra Gilberto.

Era a Fiocruz de Sergio Arouca, com a reforma sanitária batendo na porta. Uma década mais tarde, Nísia se tornaria a diretora da Casa de Oswaldo Cruz, cargo que exerceu por oito anos. Foi durante a sua gestão que iniciativas como o Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde ganharam forma. Antes de chegar à presidência da Fiocruz, a pesquisadora seria ainda editora científica e diretora da Editora Fiocruz e vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação.

Em cada uma dessas etapas, Gilberto esteve bem próximo. Perguntado sobre o que os movia antes e o que ainda hoje identifica na amiga e atual ministra, ele acredita que aquele foi um momento de muita energia e esperança. A palavra, diz ele, era redemocratização. “Acho que isso também está colocado hoje, de outra forma”, comenta. “E esse me parece ser o desafio de uma geração que agora se coloca para Nísia novamente: discutir os caminhos da saúde pública brasileira, do SUS e da democracia”.

“Havia um clima de transformação e a ideia de que estávamos construindo algo realmente novo, tudo estava em aberto.”

Gilberto Hochman, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz

Em 2016, durante a campanha para o primeiro mandato como presidente da Fiocruz.
Em 2016, durante a campanha para o primeiro mandato como presidente da Fiocruz. (Foto: Peter Illiciev)

No castelo da ciência

Do quinto andar do Castelo localizado na Avenida Brasil, Nísia via a cidade do Rio. O prédio-símbolo da Fiocruz, também conhecido como Pavilhão Mourisco, onde fica instalado o gabinete da presidência, funcionou como a segunda casa de Nísia durante seis anos. Nesse período, ela encarou muitos desafios. A começar pela eleição que lhe consagrou como a candidata mais votada com 58,7% dos votos em primeira colocação, em novembro de 2016 — apesar do resultado, pairava no ar a ameaça de que o então presidente Michel Temer desrespeitasse o processo eleitoral e não a nomeasse para o cargo. Só depois de dois dias em compasso de espera e muita apreensão por parte da comunidade acadêmica e científica, Nísia foi nomeada a primeira mulher presidente da Fundação Oswaldo Cruz. Nas eleições para o segundo mandato, em 2020, foi reeleita com a votação mais expressiva de toda a história da Fiocruz, 91,6% dos votos.

À frente da maior instituição de pesquisa do país, deparou-se com o rodízio de seis ministros da Saúde, dois presidentes da República, uma pandemia, obscurantismo, negação da ciência, movimentos antivacina e uma jornada diária que causava apreensão no círculo de amigos mais próximos. “Ficávamos preocupados com toda a carga de trabalho e responsabilidade que estavam postos”, lembra a pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz Simone Kropf. Mas ela também recorda que Nísia sempre foi uma “fonte de tranquilidade”, com uma reconhecida habilidade para acalmar quem está por perto. “Não se trata de um descolamento da realidade. Nísia tem total consciência da gravidade dos desafios. Mas, ao mesmo tempo e aliada à competência técnica, há uma maneira serena de lidar com os problemas”, diz Simone. “Isso tranquiliza e une as pessoas, o que talvez tenha sido fundamental para conduzir os processos na Fiocruz durante aquele momento dramático da nossa história”.

Foi Nísia quem liderou as ações da instituição no enfrentamento da pandemia no Brasil, coordenando todo o acordo de encomenda tecnológica junto à Universidade de Oxford, à farmacêutica AstraZeneca e às unidades de produção locais para a garantia da vacina. Sem contar que, com a conclusão da transferência de tecnologia da AstraZeneca, a Fiocruz se tornou a primeira instituição do Brasil a produzir e distribuir uma vacina contra a covid com produção 100% nacional.

Diante da escalada no número de infectados, Nísia colocou em funcionamento um novo Centro Hospitalar no campus de Manguinhos e ainda o Observatório Covid-19, rede transdisciplinar que realiza pesquisas e sistematiza dados epidemiológicos, monitora e divulga informações, para subsidiar políticas públicas no país. Sob o seu comando, a Fiocruz ainda aumentou a capacidade nacional de produção de kits de diagnóstico e processamento de resultados de testagens; e organizou ações emergenciais junto a populações vulneráveis — a exemplo do que aconteceu no Complexo da Maré.

“Foi extraordinário o papel de liderança exercido por ela e não apenas no sentido esperado pelo fato de ela ser a presidente da Fiocruz naquele período”, avalia Simone. “Mas Nísia fez isso com muita escuta, promovendo o diálogo com os distintos atores e grupos da instituição e com uma enorme capacidade de agregar”. O senso de trabalho coletivo sempre funcionou como uma espécie de bússola para a atual ministra. Para quem já assistiu ao modo como Nísia conduzia uma reunião do Conselho Deliberativo da Fiocruz — órgão máximo de deliberação que reúne todos os dirigentes da instituição e outros representantes de órgãos da administração em reuniões mensais —, não restam dúvidas sobre o seu poder de conciliação.

É por isso que, se alguém torce o nariz para o fato de uma cientista social — e não uma médica — estar à frente do Ministério da Saúde, a melhor resposta parece estar na própria trajetória de Nísia, ligada diretamente à Fiocruz, instituição que sempre prezou pela interdisciplinaridade. “Nísia sempre valorizou a ciência e a saúde na sua dimensão integral”, continua Simone, ressaltando a importância de haver uma ministra de Estado que se preocupa com a questão social em um país extremamente desigual como o Brasil.

“Nísia sempre valorizou a ciência e a saúde na sua dimensão integral.”

Simone Kropf, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz

Durante uma das muitas entrevistas como ministra da Saúde: agenda cheia.
Durante uma das muitas entrevistas como ministra da Saúde: agenda cheia. (Foto: Julia Prado/Ministério da Saúde.)

Lugar de mulher

Ela ainda estava na metade do seu segundo mandato como presidente na Fiocruz quando recebeu o convite do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva para comandar o Ministério da Saúde. Contaram a seu favor a atuação durante a pandemia, o cuidado na coordenação das equipes, o comprometimento com o SUS. Mas além disso, o presidente deixou claro que valorizava a presença de mulheres em sua equipe de governo. Ao jornalista Roberto D´Ávila, da Globonews, durante uma das primeiras entrevistas que concedeu como ministra da Saúde, em 17 de janeiro, Nísia confidenciou o que ouviu do presidente: “Eu quero uma pessoa com sensibilidade nesse Ministério e vejo você com essa sensibilidade e essa capacidade. Principalmente em relação às pessoas mais pobres que estão sofrendo tanto nesse país”.

Ela aceitou o desafio. Primeira mulher a dirigir a Fiocruz e primeira mulher à frente do Ministério da Saúde, costuma dizer que “não adianta apenas ser sensível à questão de gênero, é preciso colocá-la em pauta”. Não é uma frase-feita. “Para além da inspiração e do estímulo que Nísia provoca em muitas de nós, mulheres, cientistas e pesquisadoras, é importante ver como ela faz questão de colocar esse tema como central na agenda concreta da ciência e da saúde brasileiras”, acrescenta Simone.

Foi durante a gestão de Nísia que o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, instituído em 2015 pela Assembleia das Nações Unidas e comemorado em 11 de fevereiro, passou a integrar também o calendário de eventos da Fiocruz. Segundo Simone, Nísia sempre esteve atenta à importância de haver mulheres na ciência — “não apenas como pesquisadoras, mas também em postos de gestão, como dirigentes; ela faz questão de criar e apoiar ações para viabilizar isso”.

Na inauguração da exposição “Roquette Pinto: um brasiliano”, no ano 2000: interdisciplinaridade.
Na inauguração da exposição “Roquette Pinto: um brasiliano”, no ano 2000: interdisciplinaridade. (Foto: Arquivo Histórico Casa de Oswaldo Cruz).

Riobaldo e “Cajuína”

Alguém já concluiu que Nísia tem “uma cabeça editorial”. Significa dizer que tudo pode inspirar uma publicação, qualquer tema pode render um bom livro. Ainda em seus tempos de mestrado, redigiu o sumário do Índice de Ciências Sociais. Quando estava na Editora Fiocruz, atuou na implementação da Rede SciELO Livros — resumidamente, um portal de indexação de periódicos de ciência. Como vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação, coordenou a implantação de políticas de acesso aberto, com o objetivo de tornar disponível toda a produção científica da Fiocruz. Também coordenou a formulação da Política de Comunicação da instituição, entre inúmeras outras ações.

É autora de dezenas de artigos, capítulos e livros com reflexões sobre os dilemas da sociedade brasileira, sobretudo as cisões entre os Brasis urbano e rural, moderno e atrasado. Sua tese de doutorado Um Sertão Chamado Brasil conquistou o Prêmio de Melhor Tese em Sociologia no Iuperj — publicada em livro, encontra-se em sua 2ª edição. Simone Kropf não esquece do privilégio que teve ao chegar na COC e ser convidada por Nísia para planejar um seminário sobre o centenário da Guerra de Canudos, em 1997. “Nísia era uma referência intelectual para minhas pesquisas e foi um grande prazer poder compartilhar preocupações e reflexões de pesquisa com ela desde o início”, destaca a historiadora, que acabou se tornando amiga pessoal de Nísia — Simone é a mãe de Ana, a garotinha de apenas 6 anos que não titubeou em indicar, entre os amigos dos pais, o nome de Nísia como o da pessoa que ela gostaria de ter como madrinha.

A ministra da Saúde é também uma leitora contumaz. Dificilmente Nísia conclui uma fala pública sem uma citação que remete a um de seus escritores de cabeceira. Durante uma reunião do Conselho Nacional de Saúde — que em 2017, a convite da pesquisadora, excepcionalmente aconteceu na sede da Fundação Oswaldo Cruz no Rio —, a então presidente da Fiocruz recitou os versos do poeta Thiago de Mello para salientar que a democracia e a participação social são bens valiosos desde sempre: “Faz escuro, mas eu canto porque a manhã vai chegar”. Durante o discurso de posse como ministra da Saúde, reuniu, em um único parágrafo, frases do personagem Riobaldo, de Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas, e de uma de suas poetas favoritas, Cecília Meireles, para quem “a vida só é possível reinventada”.

Não importa o quão frenética esteja a sua rotina, Nísia sempre encontra espaço para a literatura, uma paixão desde sempre. Os amigos costumam recorrer a ela em busca de sugestões. Certa vez, em uma reunião na casa de amigos, Simone lhe pediu uma dica de leitura, algo para além dos relatórios técnicos e de pesquisa. “Na próxima vez que a gente se encontrar, eu levo alguns livros para lhe emprestar”, prometeu Nísia à amiga. Ainda assim Simone ficou surpresa ao reencontrar a presidente da Fiocruz, meses depois, durante uma reunião de trabalho, com uma sacola de livros sobre a mesa. “Lá estava Nísia cumprindo a promessa, com o cuidado de sempre”, conta à Radis. “Como ela lembrou disso, no meio de uma agenda tão pesada de trabalho?”.

A verve criativa de Nísia foi responsável ainda por um momento inusitado na Fiocruz. Quando era vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação, ela fez questão de convidar o músico e ensaísta José Miguel Wisnik para a conferência inaugural do ano letivo de 2013. A ideia provocou um estranhamento inicial — nem todos entenderam de imediato a relação do ensaísta com a Saúde. Mas o pesquisador Gilberto Hochman estava no auditório e presenciou o momento em que o público se rendeu às falas potentes do compositor e acabou a palestra entoando em uníssono a canção “Cajuína”, de Caetano Veloso. “Foi emocionante. Para entender o Brasil e agir em saúde, você pode ter várias janelas. Esse é apenas um exemplo”.

O presidente e a ministra: Nísia toma posse como primeira mulher à frente da pasta da Saúde.
O presidente e a ministra: Nísia toma posse como primeira mulher à frente da pasta da Saúde. (Foto: Julia Prado/Ministério da Saúde.)

30 dias

O dia de Nísia Trindade parece ter 25 horas. Numa mesma semana ela pode estar assinando “revogaços” (leia na página 7); voando para Roraima ou a caminho de Buenos Aires com o presidente da República; reunindo-se com conselheiros e representantes de movimentos sociais; ou ainda discutindo ações com governadores de Estado em uma sala ministerial em Brasília. Aos 65 anos completados em janeiro e assumindo o que talvez seja o maior desafio de sua trajetória profissional, Nísia não fez pausas no primeiro mês como ministra.

Para o Rio de Janeiro, cidade onde residia até o final do ano passado e onde continua a sua família, ela só conseguiu voltar a trabalho. Talvez por isso, em seu discurso de posse e antevendo os dias agitados, enquanto agradecia ao pai, hoje com 97 anos, irmãos, sobrinha, amigos e ao companheiro, Antonio Herculano, ela aproveitou para enviar um carinho especial aos filhos e ao neto Bento — “Vocês sabem o quanto me dão força e o quanto será difícil reduzir nosso convívio”.

Já passava de 7 da noite de uma sexta-feira, quando Inês Fernandes, assessora especial da Ministra da Saúde, conseguiu uma brecha para conversar com Radis, por telefone. Inês trabalha com Nísia desde 2013, foi assessora da Presidência da Fiocruz e agora a acompanha em Brasília. Cabe a Inês administrar a concorrida agenda da ministra. Naquele final de semana, Nísia embarcaria para Washington, onde iria participar da posse do novo diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o médico brasileiro Jarbas Barbosa, além de cumprir uma intensa agenda internacional.

“A gente fica até constrangido de dizer que está cansado perto de Nísia, porque ela mesma nunca reclama”, brinca Inês, repetindo um sentimento comum entre os amigos: mesmo com tantos compromissos, obrigações e desafios, Nísia nunca se queixa. “E no meio de tudo isso, ela segue gentil e com uma enorme capacidade de escutar o outro”, conclui Inês. Antes de viajar, a ministra não esqueceu de pedir à assessora que reservasse um horário na agenda para uma entrevista com Radis, no seu retorno ao Brasil.