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Quem passa em frente ao prédio pintado de verde e branco localizado na rua 16A, no setor Aeroporto, em Goiânia, talvez não desconfie que aquele lugar tenha sido um dos epicentros do maior acidente radiológico do mundo fora de usinas nucleares. Há 39 anos, a tentativa desastrosa de desmontar um aparelho de raios X encontrado em uma clínica abandonada, na Avenida Paranaíba, no setor central da cidade, deixou exposta uma cápsula de césio-137 que causou a morte de pelo menos quatro pessoas e contaminou muitas outras.

Parte do que restou da cápsula radioativa foi levada exatamente para este prédio na rua 16A, onde em 1987 funcionava a sede da Vigilância Sanitária. Foi lá que o material foi identificado como radioativo, possibilitando que se tomassem as primeiras providências para minimizar os danos à população. Até que isso acontecesse, o conteúdo já havia se espalhado por boa parte da capital goiana. 

É neste mesmo endereço que hoje funciona o Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (Cara), unidade ambulatorial da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás, responsável pela assistência e monitoramento permanente das vítimas que direta ou indiretamente foram atingidas pelo acidente.

Radis visitou o Cara e outros pontos de Goiânia, em maio de 2026, quando ouviu pessoas que convivem com os efeitos da tragédia. Marcas e lembranças do acidente ainda são muito presentes no cotidiano de vítimas e de profissionais que lidam diretamente com as queixas e demandas. 

Os depoimentos que compõem esta reportagem, compartilhados com a emoção de quem não esquece as inúmeras perdas, mostram que as dores ainda presentes, além de forjarem histórias de superação, trazem lições de como as adversidades deixam marcas na vida das pessoas, mesmo que algumas permaneçam (ou se tornem) invisíveis.

Foto: Acervo Cara
Epicentro da tragédia: a cápsula de césio-137 foi aberta em um ferro-velho em Goiânia, em 1987 – Foto: Acervo Cara

MUITA INDIGNAÇÃO, POUCA AÇÃO

“O que aconteceu aqui em Goiânia não foi coisinha à toa, não”, dispara Marcelo Santos Neves, atual presidente da Associação das Vítimas do Césio-137. Na sala cedida pelo Cara para a conversa com Radis, rodeado de imagens da época da tragédia, ele desabafa, em um misto de tristeza e revolta, que não é fácil relembrar aqueles dias, em 1987.

Quando tudo aconteceu [veja a sequência de fatos na linha do tempo], Marcelo estava com 22 anos. Sua mãe Ana Franceline, assistente social, foi convocada para auxiliar no atendimento às pessoas que estavam isoladas no estádio municipal; ciente da dificuldade em conseguir alimentar as vítimas, ela “intimou” o filho a trabalhar na cozinha que funcionava em um albergue, que também recebia pessoas suspeitas de estarem contaminadas pelo elemento radioativo.

Além de cozinhar, Marcelo conta que ajudava na limpeza da casa e no recolhimento de “rejeitos” (da cozinha e dos banheiros), que eram separados em containers por serem considerados possíveis de radiação. Números oficiais contabilizam que cerca de 6 mil toneladas de resíduos, como roupas, móveis, terra e utensílios, foram armazenadas em contêineres e caixas de concreto. Todo esse material foi levado a um depósito definitivo construído pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) na cidade de Abadia de Goiás (a cerca de 23 km de Goiânia).

Marcelo trabalhou no albergue por oito meses, até 1988. Para ele, foi aí que a sua história com o césio-137 começou. Assim como ele, outras 784 pessoas estão no grupo 3 das vítimas — o chamado “grupo controle”, que reúne boa parte dos envolvidos na resposta à tragédia, como policiais, bombeiros e profissionais de saúde. Aos 60 anos, ele relata que, após a experiência no albergue, trabalhou como policial civil até o fim dos anos 1990, quando problemas articulares e crises psicológicas o obrigaram a parar; aposentou-se por invalidez, em 1999. “Descobri aos poucos que estava contaminado”, diz. 

Segundo informe da Assembleia Legislativa de Goiás (26/3/26), 603 pessoas recebem pensão vitalícia por terem sido afetadas pelo acidente em 1987. Entre elas estão os radiolesionados (indivíduos que tiveram contato direto com o césio-137 ou receberam irradiação superior a 100 RAD e recebem R$ 3.242,00 por mês); e aqueles que atuaram na descontaminação das áreas afetadas, na vigilância do depósito de rejeitos, em Abadia de Goiás, e no atendimento de saúde às vítimas diretas do acidente, que recebem R$ 1.621,00 mensais.  

Marcelo relata que assumiu a associação em agosto de 2025, após anos de inatividade. Segundo ele, a entidade representa 95 famílias, embora o número de associados pudesse ser maior, já que muitas medições de radiação feitas na época se perderam. Isso impede que outras vítimas recebam pensão. “As medições foram gravadas em disquetes que sumiram”, explica.

Ele se emociona ao resumir o que aconteceu: “Foi uma agressão medonha”. Para ele, falta vontade política em dar maior assistência às vítimas e maior empatia da sociedade no sentido de enxergar que as pessoas ainda hoje sofrem com as marcas que a tragédia deixou. “Eu vejo muita indignação, mas a ação é pouca”, argumenta.

Ele cita os danos causados a dona Lourdes (Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide, a menina de 6 anos que se tornou símbolo da tragédia e que dá nome à unidade de saúde). Marcelo diz que a convidou para participar da conversa com Radis, mas ela teria recusado o convite seguindo orientação médica. 

Após a recente repercussão da tragédia, motivada pelo sucesso da minissérie “Emergência Radioativa” — que chegou a liderar o ranking global de séries em língua não-inglesa mais vistas na Netflix — ela passou a ser muito procurada para dar entrevistas, o que a fez reviver o que passou há quase quatro décadas. O médico de dona Lourdes acredita que recordar essa história agora não está ajudando no tratamento. “Estamos pagando um preço alto para que eles tenham lucro”, criticou.

No terreno hoje concretado, na rua 57, setor Central de Goiânia, não há nenhuma referência de que em 1987 foi neste local onde começou a ser desmontado o equipamento de radioterapia encontrado no antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) – Foto: Eduardo de Oliveira

DORMINDO COM O PERIGO

A conversa é interrompida com a chegada de Donizeth Rodrigues de Oliveira, que convive com muitas marcas do acidente com o césio-137. Em 1987, Donizeth trabalhava no ferro-velho de Ivo das Neves Ferreira, marido de dona Lourdes. Ivo era irmão de Devair Alves Ferreira, o dono de outro ferro-velho onde a cápsula contendo césio-137 foi aberta. Devair deu parte do material radioativo a Ivo, que levou fragmentos para casa e para o ferro-velho.

Foi lá que o césio-137 cruzou o caminho de Donizeth. “Eu sou uma vítima direta”, apresenta-se. Ele relembra com detalhes: um dia ele foi ao trabalho e encontrou a família dos patrões de saída. Ivo, Lourdes e Leide entravam em uma van quando ele chegou, e o orientaram a cuidar do ferro-velho enquanto estivessem fora. “A Leide estava passando muito mal”, relembra. Ninguém tinha noção do que de fato acontecia, mas eles estavam a caminho do isolamento.

Como os donos do negócio não retornaram, ele acabou passando a noite no local, sem saber o risco que corria. “Eu fiquei com medo de alguém entrar e roubar, então dormi lá dentro. Foi aí que eu me contaminei”, diz. No dia seguinte, ao acordar, foi advertido por um policial, que estava à porta do ferro-velho, de que deveria sair de lá. Mal teve tempo de pegar a carteira e um punhado de roupas que havia levado de casa. Ao sair, estranhou o isolamento da rua e a atitude do policial, que não quis se aproximar dele. 

A dor de cabeça já dava sinais quando Donizeth seguiu para casa. Ao relembrar aquele dia, pensa na quantidade de pessoas que cruzou no caminho, no ônibus, na vizinhança. Sua esposa, grávida, a outra filha do casal, com menos de um ano, a avó de Donizeth que morava no mesmo lote que sua família. “Fui contaminando gente, sem saber”.

O mal-estar foi progressivo: diarreia, vômitos, febre. No dia seguinte, sem nenhuma melhora no quadro, ouviu em um plantão jornalístico na televisão que precisava ir ao Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, onde uma comissão montada pelo governo e pela CNEN examinava quem havia tido contato com as pessoas que manusearam a cápsula. Estima-se que 110 mil pessoas foram examinadas naquela operação.

Donizeth passou pela medição e banhos químicos de descontaminação até ser encaminhado para o Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG), onde permaneceu três dias. De lá, foi encaminhado para o albergue onde Marcelo trabalhava. “Já no estádio disseram que eu estava contaminado”, salienta, lembrando que os profissionais também registraram os caminhos que ele fez, assim como as pessoas com quem teve contato.

Todos foram testados, a seguir. A mulher e a filha haviam sido contaminadas, a avó idosa, felizmente, não. A família perdeu muitos móveis e utensílios de casa, que foram recolhidos e posteriormente colocados em contêineres e levados ao depósito. Como estava melhor dos sintomas, Donizeth foi recrutado para auxiliar na contenção dos danos. “Fiquei mais ou menos uns 60 dias ajudando a descontaminar Goiânia”.

UMA FARMÁCIA NO BOLSO

“As consequências começaram uns seis meses depois”, diz Donizeth à Radis. Dores constantes, nos ossos e nos dentes — “Eu não aguentava nem colocar um garfo na boca” —, problemas estomacais, na tireoide, nos rins, um acidente vascular cerebral (AVC), oito infartos. Ele enumera as queixas e diz que mesmo tendo sido levado a Cuba para tratamento, os problemas continuaram. Enquanto exibe uma enorme hérnia na região umbilical, complementa: “Ainda tenho diabetes e perdi a audição de um dos ouvidos”. 

Os problemas de Donizeth não se resumiram à saúde física e se estenderam à família. O casamento acabou, ele enfrentou episódios de depressão. Emociona-se ao falar da morte trágica da filha — a que estava na barriga da mãe, quando o acidente aconteceu — que tirou a própria vida, ao lado do marido. O filho do casal vive com sequelas da perda dos pais. 

“Eu já pensei em fazer besteira, porque viver uma vida dessas é duro”, desabafa, revelando o quanto é difícil viver “com uma farmácia no bolso”. Desempregado, Donizeth faz reciclagem, catando latinhas de alumínio e espera que o perfil que criou em uma rede social o ajude a juntar dinheiro para comprar um carro novo, já que o antigo pegou fogo. “É dureza!”, resume.

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