A memória do enfrentamento à desinformação na pandemia de covid-19 nos ensina que houve um embate, que transcorreu em diferentes fases. No âmbito da desinformação, para uma básica demonstração, é possível destacar que durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) a pandemia de covid-19 foi tratada com subestimação institucional na pré-pandemia, com negacionismo científico deliberado quando em vigência, e com discurso saudosista quando atenuada.
A ausência de governança relacionada à desinformação em saúde e ao negacionismo científico é comprovada pela fraude no Cartão de Vacinação, do ex-presidente Jair Bolsonaro, operado por um servidor militar a partir do próprio Planalto da República. A denúncia levou à aprovação, em 25 de abril de 2023, da urgência da votação do Projeto de Lei de Combate às Fake News (Lei n° 2630/2020), na Câmara dos Deputados (infelizmente arquivado em abril de 2024). Essa situação expôs, ainda, o vínculo do ex-presidente com milícias digitais, gerando inclusive um polêmico debate nacional acerca das Big Techs, por serem em última instância as controladoras da informação, ao tempo que falta regulação.
O enfrentamento à desinformação na pandemia de covid-19, portanto, foi uma torrente contínua e essencial, em que as ações e os ativismos coerentes da comunicação em saúde buscaram desconstruir: pronunciamentos negacionistas alardeados por autoridades institucionais; discursos e iniciativas de banalização da omissão à orientação ao isolamento social; narrativas exploradas midiaticamente antivacinas e contra o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI); e espraiamentos de milícias digitais.
A manifestação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), datada de 25 de março de 2020, intitulada “SBPC: Bolsonaro presta desserviço aos esforços para reduzir efeitos trágicos”, em resposta ao pronunciamento do ex-presidente em rede nacional, no dia 24 de março, no qual qualifica a covid-19 como “gripezinha”, é uma demonstração clara do que representou o enfrentamento à desinformação e ao negacionismo científico na pandemia.
A comunidade científica e o movimento sanitário, enquanto campos sociais, especialmente as frações correlatas à Saúde Coletiva, tiveram muita flexibilidade frente à difícil conjuntura que se instalou, nesse caso, principalmente, entre 2020 e 2022, ocupando protagonismo especial na retomada da democracia, com Luiz Inácio Lula da Silva, vencendo a complexa (e perplexa) eleição presidencial de 2022. Um dos símbolos mais genuínos daquela realidade foi a nomeação de Nísia Trindade, ex-presidente da Fiocruz, entre 2017 e 2022, e uma inerente representante da comunidade científica e do movimento sanitário, para o Ministério da Saúde (2023-2025).
Dada conjuntura política reforçou o evidente legado da mobilização social, pelo conjunto da frente democrática (nomeada de Frente pela Vida), somando-se comunidade científica, movimento sanitário, movimentos sociais, movimentos comunitários, sociedade civil organizada e instâncias e instituições democráticas, para o enfrentamento à pandemia de covid-19 também no âmbito da relação entre comunicação, informação, saúde e política. Sendo que dentro daquele contexto caótico, estava o Sistema Único de Saúde, o SUS, por ser ele e através dele efetivamente que se deu resposta à tragédia epidemiológica da pandemia, no Brasil, no sentido macro (institucionalmente) e imersivo (socialmente).
O desfecho dessa torrente de enfrentamento à desinformação em saúde e ao negacionismo científico ainda não se encerrou. Mas há de se ter memória e de se saudar vitórias, e quanto a isso são salutares duas grandes iniciativas recentes, sendo dois grandes símbolos. São eles o lançamento do Memorial da Pandemia, no dia 07 de abril, no Rio de Janeiro, e a sanção da lei, no dia 11 de maio, que instituiu o Dia Nacional em Memória das Vítimas por Covid-19, com a data escolhida para o dia 12 de março — ambos através do atual governo federal, com a participação de representantes da Frente pela Vida, da sociedade civil e de instituições democráticas.
Certamente, são atos singelos para os lares que tiveram vidas ausentadas pela pandemia da covid-19, mas que representam sopros de esperança em um mundo que cada vez mais insiste em ser distópico. E para, o qual, talvez caiba a passagem lírica do “Poeminho do Contra”, de Mario Quintana, “Eles passarão… eu passarinho”, na resiliência em defesa da vida.
- André Lemos é sociólogo, mestre em educação, articulista em mídias alternativas e analista em políticas públicas.






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