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Foi por acaso que Adriana Nunes da Silva se deparou com a história de Carolina Maria de Jesus — a catadora cujos diários foram publicados em jornal, quando seu caminho cruzou com o do jornalista Audálio Dantas, durante uma reportagem que ele fazia em uma favela, em São Paulo.

Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, o livro mais famoso da escritora e hoje uma referência na literatura brasileira, completa a biblioteca da casa onde Adriana trabalha há quase 30 anos. Ela ficou encantada com a narrativa desde o primeiro parágrafo, ao ler sobre o dia em que Carolina encontra um par de sapatos no lixo, lava e remenda para que sua filha não fique descalça.

Em novembro, Adriana aceitou o convite de Radis para uma entrevista e uma visita à exposição Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os Brasileiros, que estava em cartaz no Museu de Arte do Rio. Naquele dia, as primeiras linhas de Quarto de Despejo voltaram à lembrança. Nas paredes da mostra, o trecho citado por Adriana está em destaque e uma instalação reúne diversos pares de sapatos gastos.

Em foto de 1991, Adriana (de blusa branca) e suas irmãs Patrícia, Mônica e Irene: sandália compartilhada.
— Foto: acervo pessoal.
Em foto de 1991, Adriana (de blusa branca) e suas irmãs Patrícia, Mônica e Irene: sandália compartilhada.
— Foto: acervo pessoal.

“Lembro de mim e das minhas irmãs. Na minha casa, a gente só tinha um par de sapato para as quatro. Tenho poucas fotos da infância. Mas tem uma que guardo com muito carinho. Era o aniversário de minha irmã Mônica e, por isso mesmo, naquele dia, só ela aparece calçada. Lembrei disso lendo o livro e agora vendo os chinelos aqui”, comenta.

Adriana tenta conferir cada um dos registros da escritora que se misturam a uma centena de obras assinadas por artistas contemporâneos. Ouve trechos em áudio que acrescentam detalhes à vida e obra de Carolina de Jesus. Fica encantada com os manuscritos dos diários. Vibra com os recortes de jornais e revistas ao ler as manchetes de quando a moça da favela, já famosa, ganhou o mundo. Põe os fones de ouvido e se surpreende com a voz de Carolina no disco que reúne suas composições — além de escrever romance, poesia e peça de teatro, ela também cantava, compunha, fazia arte no circo.

Em algumas obras, Adriana se demora um pouco mais. Para diante do trabalho em que o rosto de Carolina de Jesus está estampado em uma cédula de dinheiro, com a frase: “Para ver se dão valor”. Nas fotografias, o inconfundível lenço branco com que Carolina cobria a cabeça também atiça as memórias de Adriana. Ela pensa na mãe e na avó, trabalhadoras domésticas, que nas suas lembranças estão sempre com o traje completando as feições.

“Sabia que a filha de Carolina de Jesus tem o mesmo nome de minha mãe: Vera?”, indaga. “Minha mãe hoje está com 69 anos e ainda mora em Manilha, Itaboraí [RJ]”. Poucos passos depois, uma obra reproduz, em miniatura, a favela do Canindé, onde a escritora vivia. Adriana diz que é “igualzinho” à favela do Fogueteiro, na região central do Rio, onde ela própria já morou.

Adriana aceitou o convite de Radis para uma visita à exposição sobre Carolina de Jesus: manhã de recordações. — Foto: Eduardo de Oliveira.
Adriana aceitou o convite de Radis para uma visita à exposição sobre Carolina de Jesus: manhã de recordações. — Foto: Eduardo de Oliveira.

FGTS e casa própria

Aos 49 anos, Adriana é uma mulher negra, bonita, colorida, usa trança no cabelo. As imagens de Carolina de Jesus na exposição também exibem uma mulher sorridente, que dança e brinca, bem diferente das fotografias de semblante fechado que os leitores estão habituados a ver.

Antes de seus diários virem à tona, antes mesmo de ser catadora, Carolina trabalhou como empregada doméstica até engravidar, perder o emprego e ir morar na favela às margens do rio Tietê. Depois de ganhar projeção internacional, ela morreria no anonimato, em 1977, aos 64 anos. Nos últimos tempos, a obra da escritora foi redescoberta e ela se tornou referência de uma escrita que expõe desigualdades e preconceitos, o racismo nosso de cada dia. Sua vida já foi contada em peça de teatro e está prestes a ganhar as telas de cinema. “Quando virar filme, eu vou ver”, promete Adriana.

Ao conhecê-la a partir de seu livro mais célebre, Adriana pensou que a vida hoje não tem muita diferença daquela época. “Para algumas mulheres e mães, é o mesmo tipo de sofrimento: a pobreza, a falta de dinheiro, a fome”, diz a trabalhadora doméstica, lembrando de uma outra frase forte que leu em Quarto de Despejo. Carolina de Jesus escreveu que “a cor da fome é amarela”.
“Graças a Deus, eu não passei fome, mas tive muitos apertos na infância”, conta Adriana. “Acho que foi por causa disso que, depois que me entendi como gente e tive filho, comecei a trabalhar muito mais. Eu não queria que ele passasse pelas mesmas dificuldades”.

Ao lado do companheiro e pai de Artur, único filho, Adriana vem construindo outra história. Compraram um apartamento em um condomínio em Colégio, bairro da Zona Norte do Rio. Juntaram os fundos de garantia, direito que ela conquistou juntamente com outros benefícios, depois que a PEC das Domésticas foi regulamentada pela Lei Complementar 150. Para dar entrada no sonho, contaram também com a sorte: uma parte do dinheiro para a casa própria veio de um prêmio que ela ganhou numa loteria do Rio. Agora, pagam uma prestação de R$ 1.100,00 mensais.

Domingos

Pelos corredores do museu, estão estampadas algumas frases de Carolina de Jesus. “Acho que Deus não vai mais consertar o mundo”, diz uma delas, que merece um comentário de Adriana: “O pior é que faz sentido”. Outra: “Eu cato papel, mas não gosto. Então, eu penso: faz de conta que estou sonhando”. Adriana hoje gosta do que faz. Reconhece o valor do trabalho doméstico na vida dos brasileiros, ainda que sonhe em ser veterinária.

Para encontrar com a equipe de Radis naquela manhã muito quente no Rio de Janeiro, teve que fazer malabarismo para equilibrar as agendas: “Segundas, quartas e sextas, trabalho em Laranjeiras, onde tenho carteira assinada. Terças e quintas, vou para a Tijuca, como diarista. Aos sábados, mais uma diária, dessa vez em Copacabana”, conta. “Ia esquecendo de avisar que, quando saio do trabalho, às sextas, ainda vou fazer faxina em um consultório no Catete”. Para quem não está familiarizado com a geografia do Rio, basta dizer que o ziguezague é exaustivo só de ouvir.

– Domingo, descansa?

– Domingo, depois de tudo, tem a minha própria casa para cuidar. Mas dou um jeito, que a vida não é só trabalho. Gosto de samba, vou à praia, tomo a minha cervejinha. Agora, quero voltar ao museu. Se soubesse que era tão bacana a exposição, tinha vindo antes. Vou trazer meu filho ou combinar com minhas amigas. Também quero terminar de ler Quarto de Despejo. (ACP)

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