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Eduardo de Oliveira retira a câmera da mochila, ajeita o foco, checa a lente, escolhe o melhor ângulo. Antes do primeiro clique, de pé, o fotógrafo de Radis para um pouco para ouvir atento o que a entrevistada nos conta. Está ainda mais concentrado do que de costume. “Emocionado”, ele revelaria depois. São dele as imagens de Adriana Nunes durante visita à exposição em homenagem à Carolina de Jesus. 

Edu, como é mais conhecido na Redação da revista, é também filho de dona Jucirlete de Oliveira — para os íntimos, Eunice ou Nicinha —, trabalhadora doméstica como Adriana. “Em muitos momentos, eu lembrei das dificuldades da vida de minha mãe, que começou como doméstica aos 15 anos. E foi como doméstica que ela criou a mim e a minha irmã”.

Entre 1982 e 1994, os três dividiram o quartinho do apartamento em que ela trabalhava em Copacabana. “Lembro do beliche, onde dormíamos de segunda a sexta. Nos finais de semana, íamos pra nossa casa, em Caxias [região metropolitana do Rio]. Fiquei muito sensibilizado ao ouvir Adriana e percorrer os corredores do museu. São histórias que cruzam com a da minha mãe”.

Nicinha parou de estudar na quinta série, que corresponde ao sexto ano do ensino fundamental, e despediu-se dos filhos em 2000 — sem ver, portanto, a aprovação de uma emenda constitucional que garantiria mais direitos a mulheres como ela. Tinha 52 anos, quando morreu em decorrência de um tumor no fígado. Antes disso, conseguiu realizar o sonho de uma vida.

“Minha mãe sempre teve planos de abrir uma lojinha de doces ao se aposentar. Um dia, resolveu que era hora. Deixou o trabalho de doméstica, saiu de vez da casa onde trabalhava, ainda que tenha mantido contato com eles até o fim da vida — a cada quinzena voltávamos, dessa vez, a passeio —, e abriu a própria lojinha, onde vendia tortas, quitutes e bolos”, lembra Edu. “Ela mal sabia escrever, mas anotava todas as receitas em um caderninho. Nunca vou esquecer sua alegria ao abrir a lojinha na frente da nossa casa”.

Nas imagens a seguir, Edu, hoje com 41 anos, formado em jornalismo, casado e pai do Levi, conta um pouco da sua vida do jeito que mais gosta — por meio de imagens. Faz também uma homenagem à sua mãe e, por extensão, ao universo das trabalhadoras domésticas. (ACP)

“Nesta esquina, minha mãe armava uma barraquinha para vender doces. Ela vinha diariamente, depois que deixava tudo arrumado na casa onde trabalhava. Ficava aqui enquanto minha irmã estava na creche e eu, na escola. Complementava a renda e alimentava o sonho da lojinha”.

“Nesta esquina, minha mãe armava uma barraquinha para vender doces. Ela vinha diariamente, depois que deixava tudo arrumado na casa onde trabalhava. Ficava aqui enquanto minha irmã estava na creche e eu, na escola. Complementava a renda e alimentava o sonho da lojinha”. — Foto: Eduardo de Oliveira.
“Foi nessa cozinha que minha mãe passou boa parte do tempo, de segunda a sexta-feira, até 1994. Ela fazia de tudo nos serviços domésticos, mas do que mais gostava era de cozinhar: tortas, bolos, guloseimas. Trabalhou aqui até o dia em que abriu a sua própria lojinha de doces. Tenho muito orgulho da minha mãe, uma mulher de origem pobre, que mal sabia escrever, ter chegado onde chegou”. — Foto: Eduardo de Oliveira.

“Foi nessa cozinha que minha mãe passou boa parte do tempo, de segunda a sexta-feira, até 1994. Ela fazia de tudo nos serviços domésticos, mas do que mais gostava era de cozinhar: tortas, bolos, guloseimas. Trabalhou aqui até o dia em que abriu a sua própria lojinha de doces. Tenho muito orgulho da minha mãe, uma mulher de origem pobre, que mal sabia escrever, ter chegado onde chegou”.

“Depois da morte da minha mãe, eu e minha irmã voltamos a morar na casa dos ex-patrões dela, que se tornaram meus padrinhos. Tínhamos 17 e 14 anos. Fiquei com eles até o fim. Hoje, moro no apartamento, e o quartinho onde eu dormia virou a despensa”.

“Depois da morte da minha mãe, eu e minha irmã voltamos a morar na casa dos ex-patrões dela, que se tornaram meus padrinhos. Tínhamos 17 e 14 anos. Fiquei com eles até o fim. Hoje, moro no apartamento, e o quartinho onde eu dormia virou a despensa”. — Foto: Eduardo de Oliveira.
“Nesta foto de dezembro de 1981, minha mãe estava comigo na barriga. Grávida, ela guarda a mesma serenidade de sempre. Ainda que fosse uma pessoa que se virava em mil, estava sempre com esse ar tranquilo. Aqui, ela aparece com uma amiga em Caxias, perto do local onde morávamos”. — Foto: arquivo pessoal.

“Nesta foto de dezembro de 1981, minha mãe estava comigo na barriga. Grávida, ela guarda a mesma serenidade de sempre. Ainda que fosse uma pessoa que se virava em mil, estava sempre com esse ar tranquilo. Aqui, ela aparece com uma amiga em Caxias, perto do local onde morávamos”.

“No meu aniversário de um ano, tive duas festas: uma em Copacabana e outra em Caxias. Nesta foto, estamos na nossa casa em Caxias. Quem me carrega no colo é a minha madrinha, Ademária , que assim como minha mãe já não está mais conosco. Ao lado dela, Maria, que ainda hoje presta serviços como diarista”.

“No meu aniversário de um ano, tive duas festas: uma em Copacabana e outra em Caxias. Nesta foto, estamos na nossa casa em Caxias. Quem me carrega no colo é a minha madrinha, Ademária , que assim como minha mãe já não está mais conosco. Ao lado dela, Maria, que ainda hoje presta serviços como diarista”. — Foto: arquivo pessoal.
“Maria e meu filho Levi. O sorriso dos dois não deixa dúvidas: são parceiros. Gosto de pensar que minha mãe fica feliz com isso. Maria, que era a grande amiga de ‘Nicinha’, viu meu filho nascer. E hoje, dois dias por semana, pega meu filho na escola e cuida de minha casa”.— Foto: Eduardo de Oliveira.

“Maria e meu filho Levi. O sorriso dos dois não deixa dúvidas: são parceiros. Gosto de pensar que minha mãe fica feliz com isso. Maria, que era a grande amiga de ‘Nicinha’, viu meu filho nascer. E hoje, dois dias por semana, pega meu filho na escola e cuida de minha casa”.

A história da foto

Dona Nicinha (à direita), a mãe do fotógrafo, com sua grande amiga Maria. — Foto: acervo pessoal.

Maria da Graça da Conceição Ferreira — ou simplesmente Maria — tem 67 anos, está aposentada, mas ainda hoje presta serviços como diarista. Foi ela quem apresentou Nicinha aos antigos empregadores, quando deixou o trabalho, nos anos 1970, para casar e construir a sua própria família. Começava ali uma amizade que hoje se estende aos filhos e netos de Nicinha. À Radis, ela contou a história da foto com a grande amiga:

“Nesta foto, o Dudu [Eduardo de Oliveira] ainda nem era nascido e eu não tinha o meu filho. A gente tirou durante um jantar de Natal ou Ano Novo, eu não lembro bem. Nossos antigos patrões, seu Homero e dona Ademária, eram muito festivos, adoravam uma festa e, como a Eunice [Nicinha] sempre foi uma cozinheira espetacular, de altos quitutes, era ela quem ficava à frente de tudo nessas ocasiões. Tudo com ela virava um banquete. Nessa época, eu tinha saído para casar e Eunice passou a trabalhar na casa dos meus patrões no meu lugar no trabalho. No dia desse jantar, eles me chamaram para ser auxiliar dela, pra ela não ficar sozinha e ter alguém para ajudar. Aí eu fui. Foi uma noite muito agradável. Estávamos felizes e nos arrumamos toda na hora da foto. 

Muitos anos depois, ela saiu da casa deles para abrir a sua lojinha e eu voltei a trabalhar na casa de seu Homero e dona Ademária, em Copacabana. Agora, eu já estou aposentada, ando mais tranquila, só faço algum trabalho de diarista para as turminhas que eu realmente gosto, igual lá na casa do Dudu, Luana e Levi [esposa e filho de Eduardo]”.

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