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Vitória Bernardes se tornou uma mulher com deficiência quando uma bala atingiu o seu corpo, em 31 de dezembro de 2001. A menina de 16 anos tinha saído da casa da avó, em Novo Hamburgo, município vizinho à capital gaúcha, e parou em um orelhão para ligar para uma amiga. Ela não percebeu o assalto que acontecia em um estabelecimento próximo ao telefone público. Para Vitória, poderia ter sido um dia de comemoração do final de mais um ano, como tantos outros que ocorreram antes, mas esse mudaria sua vida — a bala perdida, o chão, o corpo sem sensação, o susto, três meses de internação em uma UTI, em Porto Alegre, e mais um período de reabilitação na Rede Sarah, em Brasília. A lesão deixou marcas profundas, além do que é visível. Por conta dela, Vitória ficou tetraplégica e viu seu futuro ser transformado.

Na volta à “outra vida”, como fala sobre o que teve que enfrentar, Vitória diz que a escola foi muito importante em seu processo de reintegração social. “Eu não queria ir. Hoje eu consigo entender o quanto foi importante. Fui acolhida pela escola e por meus colegas. Eu me emociono quando falo. Fiquei seis meses no hospital, voltei e concluí [o Ensino Médio] com a mesma turma”, observa, numa conversa por uma plataforma de vídeo. Enquanto ela estava internada, a escola fez com que seu espaço ficasse mais acessível e ela pode continuar os estudos. Na festa de formatura, os colegas pegaram sua cadeira e a conduziram por uma escada, pois não havia mais locais disponíveis para locação. “Pode não ter sido o mais adequado, mas foi simbólico. Eu desci com os meus colegas que diziam ‘é óbvio’. Isso que a gente precisa resgatar. Não é óbvio que as pessoas precisam ocupar os mesmos espaços e que devemos preservar sua dignidade? Senão a deficiência fica como algo estático, que não existe”, observa.

Vitória conta que teve que “reaprender a viver em uma nova condição”. Não foi fácil, diz. Ela relata o estranhamento que sentiu ao voltar aos lugares que costumava frequentar como uma pessoa andante. “Houve uma mudança no comportamento. Um dia te tratam de uma forma e no outro, não. Aprendi que a deficiência é isso”, afirma. Depois da escola, ela entrou para a faculdade de Psicologia, veio a formatura, a busca pelo trabalho. Hoje, Vitória mexe as mãos, é autônoma, casou e tem uma filha, Lara, de oito anos. Com um sorriso, comenta: “A vida é feita de fases”. E a vida de Vitória seguiu com vivências que a tornaram uma ativista pela inclusão. “Os nossos corpos pertencem, ou deveriam pertencer, a todos os lugares. O que faz com que todo lugar em que eu esteja eu acabe reivindicando algo. É bem violento”, relata.

Gaúcha, moradora de Eldorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, Vitória ativista de direitos humanos e conselheira nacional de saúde, representando a associaçãoAmigos Múltiplos pela Esclerose (AME). Seu ponto de partida na militância começou em 2005 com a causa que marca sua trajetória, o controle de armas. Natural de São Leopoldo, município próximo a Porto Alegre, ela nasceu na cidade que sedia a maior empresa de armas leves da América do Sul e que tem o monopólio da fabricação de armas no Brasil. Foi uma arma que, segundo Vitória, a situou em um lugar social em que predomina o estereótipo de ser uma pessoa incapaz e improdutiva — e que, segundo ela, pode ser ocupado por qualquer um em qualquer momento da vida.

Para ela, há uma “hierarquia de corpos” enraizada na sociedade que define pela comparação um corpo visto como “defeituoso” e “inválido” com um modelo de pessoa considerada “perfeita” e “normal”. “Por que uma pessoa com dois metros de altura não é vista de forma negativa e uma com baixa estatura é patologizada e seu tamanho fica fora do padrão? Precisamos ficar atentos a essa estrutura de dominação entre corpos, que é dinâmica. Às vezes é por raça, gênero, classe, e outras por funcionalidade”, alerta, falando sobre o preconceito que enquadra pessoas, não só com deficiência.

Por achar que subvertia o chamado “mantra da falta de capacitação” das pessoas com deficiência, Vitória acreditou que teria um emprego garantido logo depois de formada, em Psicologia. A realidade mostrou o contrário. “Ainda não me entendia nesse lugar de atividade política. Eu, de classe média, achei que estaria fora do enquadramento dado às pessoas com deficiência, mas não foi isso que vivi. Tentei várias posições e consegui emprego em um local que trabalhava com pessoas com deficiência. Precisava trabalhar, era o que tinha. Não foi uma escolha”, observa. Apesar disso, reforça que “fui muito feliz por lá”.

Discriminação estrutural

Para Vitória, a discriminação é estrutural e não resulta apenas de uma ação individual. “Criamos guetos [espaços segregados] com escolas especiais para mulheres, para pessoas negras, para meninos que são lidos no lugar de feminilidade ou de meninas que fogem ao padrão aceito. As estruturas são perversas para todos. A escola não está sendo um lugar saudável para ninguém”, salienta. Segundo ela, o discurso dessa educação segregadora é baseado na proteção das pessoas com deficiência para que não sofram violência na escola.

“A ideia é colocar esses estudantes em uma redoma. E a decisão vai ficar a critério da família. Mas que família é essa se entre 40% a 68% das mulheres com deficiência serão estupradas antes dos 18 anos dentro de casa?”, argumenta.

Por isso, ela defende que o caminho para uma sociedade mais humana e saudável é o reconhecimento da diversidade humana, e não a separação pela diferença. “Diante da diversidade e das possibilidades do corpo humano, por que vamos dizer que existe uma única forma de se enxergar ou de andar? Por que vamos ignorar todas as potencialidades e possibilidades de se relacionar com o mundo? Precisamos falar sobre isso”, reflete. A ativista lembra que qualquer um pode se tornar uma pessoa com deficiência. “A pessoa pode adoecer ou condições inseguras e acidentes de trabalho podem levar à vivência da deficiência. Precisamos trazer humanidade porque a luta das pessoas com deficiência é pela nossa humanização”, defende. (L.M)

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