“Um berço de ouro na área da saúde”. É assim que Antônio Ilson Cardoso, morador da comunidade de Anã, no rio Arapiuns — afluente do Tapajós, em Santarém, Pará — define o lugar onde nasceu e vive até hoje. A afirmação, no entanto, contrasta com um passado recente marcado por adoecimentos frequentes e mortes evitáveis.
“Há menos de duas décadas, os ribeirinhos da região sofriam muito com doenças, principalmente pela contaminação da água e alimentos”, lembra. “A verdadeira revolução aqui aconteceu a partir de 2015, quando foram instalados sistemas de captação e armazenamento de água da chuva e poços. Antes, a água potável era rara. A realidade agora é outra.”
Antônio se emociona ao recordar o velório de duas crianças da comunidade. “Nossos irmãos viviam doentes. A diarreia era comum e, muitas vezes, se agravava. Os pequenos e os mais velhos eram os que mais sofriam. A morte dessas crianças, por causa da ingestão de água contaminada, marcou profundamente todo mundo aqui.”
Com pouco mais de 300 moradores, Anã está estrategicamente localizada no interior da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns (Resex), que abriga cerca de 20 mil famílias. “Somos um ponto central. Não à toa que a UBS da Floresta foi implantada aqui”, explica Antônio, referindo-se à Unidade Básica de Saúde inaugurada na comunidade com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em 26 de outubro de 2025 [Leia clicando aqui].
Antônio foi um dos anfitriões da expedição “Corredor (Rios) de Tecnologias Sociais do Baixo Tapajós”, que reuniu pesquisadores da Fiocruz, jornalistas e integrantes da organização não governamental (ONG) Projeto Saúde e Alegria (PSA). Ao longo de dois dias, o grupo percorreu os rios Tapajós e Arapiuns para conhecer experiências comunitárias que articulam inovação tecnológica, saberes tradicionais, saúde pública e preservação ambiental.
Radis acompanhou a expedição e viu de perto como essas tecnologias sociais garantem bem-estar às populações ribeirinhas, ao mesmo tempo em que mantêm a floresta em pé. A chegada à Anã ocorreu no início de novembro (9/11), no segundo dia da viagem, iniciada em Alter do Chão, a cerca de 600 km da zona urbana de Santarém.

Musas da Amazônia
Em Anã, Reginalva Godinho, uma das lideranças da comunidade, recebeu os participantes da expedição e contou como foi fundado o grupo “Musa”: Mulheres Unidas Sonhadoras de Anã em Ação. Ela explica que o projeto surgiu com a escassez de peixes no rio Arapiuns, que abastece o lago da região.
No final dos anos 1990, nasceu a ideia de fazer o manejo para que os moradores da comunidade pudessem viver da pesca o ano todo. Porém, muitas pessoas que iniciaram o projeto não seguiram adiante. Assim, 15 mulheres fundaram a associação em 2009 — elas têm mantido as gaiolas com o manejo da piscicultura desde então. “É claro que os homens nos ajudam, estão do nosso lado sempre, mas quem faz a gestão mesmo é a Musa”, declara Reginalva.
As musas, como são conhecidas, fazem manejo do tambaqui e matrinxã — dois peixes comuns na região — em tanques de rede. Atualmente, contam com 15 mil peixes em 50 tanques. Reginalva conta que está tudo interligado: a piscicultura, a pousada, o abastecimento de água, a casa de ração, entre outros espaços. “É um microssistema, porque é um conjunto de cadeias que temos dentro da comunidade”.
Ela explica que manejar o peixe na comunidade, de forma orgânica, abastece a alimentação saudável na mesa. “A família sabe o que está produzindo. Usamos a semente da seriguela, caju, manga, acerola, goiaba, para fazer a ração”, conta. A ração comercial, além de conter agrotóxicos, é muito cara.
As musas investiram em uma casa de ração para produzir a própria receita para a alimentação dos peixes com frutos e sementes colhidos na comunidade, de maneira sustentável. O equipamento para fabricar a ração foi adquirido em parceria com a ONG Saúde e Alegria. A experiência das mulheres de Anã é apenas um dos exemplos de como as comunidades podem se organizar para tirar o seu sustento sem agredir o ambiente.

Aldeia Kumaruara: saúde e autonomia
A expedição fluvial começou no dia anterior (8/11), pela aldeia indígena Vista Alegre do Capixauã, onde vive o povo da etnia Kumaruara. Para chegar até lá, navegamos por cerca de uma hora e meia pelo rio Tapajós. A recepção foi marcada por cantos tradicionais que celebram a floresta e o rio.
“Sejam bem-vindos olê-lê, sejam bem-vindos olá-lá, paz e tudo de bom pra vocês, que vieram nos visitar. Vista Alegre tem um povo humilde, mas acolhedor. Por Deus foi criada toda sua beleza, suas lindas praias que são da natureza”, entoava um dos cânticos.
Uma semana antes, em 2 de novembro, a aldeia recebeu o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em visita vinculada às atividades preparatórias para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que ocorreu em Belém (PA) entre 10 e 21 de novembro de 2025. Durante uma roda de conversa com os moradores, Lula se surpreendeu ao ouvir que uma das principais demandas era energia elétrica. “Hoje isso é um problema fácil de resolver. Podemos colocar placas solares que vão garantir energia para toda a comunidade. Energia limpa. Isso eu prometo para vocês”, afirmou o presidente.
A visita contou também com a presença da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, que destacou a reserva como exemplo de manejo sustentável. “Aqui temos nosso viveiro florestal. Produzimos mudas frutíferas e plantas que fazem parte da nossa alimentação, além do manejo do pescado”, explica à Radis Jessé Kumaruara, uma das lideranças locais.
Além da preservação ambiental, os Kumaruara mantêm vivos os conhecimentos tradicionais de cura. Pajés seguem utilizando plantas medicinais no tratamento de diversas enfermidades. Com orgulho, Jessé conta que o cumaru, fruto nativo da Amazônia, deu origem ao nome da sua etnia. Ele mostra uma das maiores árvores frutíferas da aldeia, o cumarueiro. “Com a semente, fazemos um xarope para tosse e infecções pulmonares. Do tronco, extraímos um óleo usado na cicatrização de feridas.” No resto do país, ele é muito valorizado na perfumaria — utilizado para a extração da chamada baunilha brasileira.
Turismo comunitário
Vista Alegre também se tornou destino turístico da região. Hoje, a aldeia integra roteiros oferecidos por agências em Alter do Chão. Mas, diferentemente do passado, quando os visitantes apenas passavam pelo local, a população se organizou para garantir benefícios para a comunidade.
“Antigamente, o turista vinha aqui, tirava fotos, comia com a gente e ia embora. Não tínhamos qualquer ganho com isso. Hoje, a aldeia toda está envolvida com o turismo. As famílias se revezam para receber os visitantes e conduzir as atividades”, explica Jessé. Trilhas na floresta, passeios de canoa e banhos no igarapé Capixauã — de águas cristalinas — estão entre as principais atrações. A venda de artesanato complementa a renda, que é destinada a uma caixa coletiva para cobrir despesas, como transporte de doentes, compra de medicamentos e manutenção de equipamentos.
Em 2022, com apoio do Projeto Saúde e Alegria, foi construída a pousada comunitária Uka Surí. “Deixamos de ser apenas passagem. Hoje, as pessoas ficam, conhecem nossa rotina, nossa cultura. Todos ganham”, afirma Jessé. O restaurante do local oferece aos visitantes café da manhã e almoço com comidas da região (sucos de cupuaçu, peixes assados, feijão vermelho etc). Mas, assim como em Anã, esse processo só foi possível após o enfrentamento de graves problemas sanitários.

Água potável na floresta
Apesar de estar sobre o Aquífero Alter do Chão — o maior reservatório de água doce do mundo —, a população ribeirinha do Oeste do Pará historicamente convive com água imprópria para consumo. A contaminação dos rios por mercúrio, resíduos químicos, esgoto urbano e dejetos animais favoreceu a disseminação de bactérias, vírus e parasitas, resultando em doenças como hepatite A, leptospirose, cólera e verminoses — como Radis abordou em reportagem especial sobre comunidades quilombolas de Santarém, em 2019 [Radis 200].
As comunidades que compõem o “Corredor (Rios) de Tecnologias Sociais do Baixo Tapajós” demonstram que é possível não apenas enfrentar o problema como diminuir drasticamente os impactos da contaminação de seus rios. Desde 2022, o Projeto Saúde e Alegria também intensificou a implantação de sistemas de filtragem e abastecimento de água para lidar com a crise hídrica na Amazônia. Em dois anos, cerca de 7 mil famílias foram beneficiadas, incluindo as de Vista Alegre.
“Estávamos cercados de água por todos os lados, mas não tínhamos água boa para beber. Era comum as pessoas adoecerem, terem vômitos e diarreia. Hoje, temos um sistema de tratamento que atende toda a comunidade”, relata Jessé.
Em Vista Alegre, o sistema de abastecimento de água se baseia em quatro pilares: inovação tecnológica (movido a energia solar); descentralização; participação comunitária e autogestão. Os técnicos fazem a instalação dos chamados microssistemas, mapeando as necessidades e os melhores locais para a distribuição. Os moradores recebem capacitação para operar e manter a rede. “Temos aqui as Eletricistas do Sol. São mulheres da aldeia que se capacitam para ajudar na manutenção e resolver pelo menos os problemas menos complexos” [Leia clicando aqui].
Jessé também guia Radis pelo viveiro de mudas de árvores nativas com orgulho. A estrutura com canteiros separados entre as espécies e proteção contra a luz solar conta com irrigação automatizada, fruto do sistema de abastecimento de água potável e da energia solar. A comunidade faz um sistema de rodízio entre as famílias para realizarem o cuidado do viveiro.
A prioridade do destino das mudas é o replantio de árvores em locais em que a comunidade precisou extrair madeira. Além disso, o viveiro também é uma fonte de renda para as famílias por meio da venda das mudas que não são destinadas para o replantio. “Floresta em pé” foi uma das frases mais ditas pelas pessoas que buscam utilizar a tecnologia de forma sustentável e reduzir os danos à floresta. O viveiro em Capixauã é um dos exemplos de como a água limpa tem contribuído para manter a floresta viva e de pé.
Guilherme Franco Netto, coordenador de Saúde, Ambiente e Sustentabilidade da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, lembra que a parceria entre a Fiocruz e o Projeto Saúde e Alegria foi formalizada apenas em 2022, mas vinha sendo construída há muitas décadas. “Todas essas iniciativas respeitam e fortalecem o protagonismo dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos. A Fiocruz pretende ampliar essa cooperação técnico-científica e fortalecer ainda mais sua presença na região”.
Ele frisa que as experiências do Baixo Tapajós apontam para um modelo concreto de desenvolvimento sustentável. “Essas tecnologias sociais promovem bem-estar, justiça social e preservação ambiental. A humanidade precisa saber o que está acontecendo aqui”.
Cena comum na região do Tapajós: crianças brincam nas águas do igarapé — Foto: Lara Souza
Água potável como política pública
O Projeto Saúde e Alegria (PSA) atua na questão da água e do saneamento básico na Amazônia desde sua fundação, em 1987. Pelo reconhecimento às suas atividades, foi credenciado como organização de fomento dos programas do governo federal de acesso à água na região. Atualmente, administra um fundo que financia associações locais para a construção de banheiros, cisternas e outras tecnologias sociais. O sistema híbrido fotovoltaico de abastecimento de água desenvolvido pelo PSA está sendo avaliado para se tornar elegível como política pública nacional.


Dragagem do Tapajós coloca em risco ecossistema da região
Populações do Baixo Tapajós lutam, desde 2025, contra a instalação de hidrovia em três rios amazônicos: Madeira, Tocantins e o próprio Tapajós. Na prática, as comunidades ribeirinhas e indígenas pedem a revogação imediata de um decreto presidencial (Decreto nº 12.600/2025), assinado em agosto de 2025, que autoriza a dragagem do rio Tapajós no trecho entre Santarém e Itaituba, no Oeste do Pará.
No início de 2026, os manifestantes ocuparam, como forma de protesto, a entrada do terminal de cargas da Cargill, em Santarém. A empresa estadunidense, que atua na exportação de soja e milho, seria uma das maiores beneficiadas pelo decreto. A autorização de dragagens “profundas”, para facilitar o acesso de embarcações maiores e até navios, afetará diretamente o ecossistema da região, impactando ainda mais o meio ambiente e a qualidade de vida das populações locais.
Durante a Conferência da Organização das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), representantes das comunidades do Baixo Tapajós e indígenas Munduruku e Kayapó viajaram até Belém para denunciar o projeto. Diante da pressão, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, comprometeu-se a fazer uma consulta prévia com a população local antes de efetivamente implantar a hidrovia.
Para as lideranças da região, o decreto formaliza a privatização desses rios, já contaminados por agrotóxicos (para a produção de grãos) e mercúrio (por conta dos garimpos). Levantamento da organização Terra por Direitos, de 2024, mostrou que em apenas dez anos (entre 2013 e 2023), o número de portos em Itaituba, Santarém e Rurópolis dobrou, chegando a 41 — grande parte destinada ao escoamento de grãos e fertilizantes.
A luta das comunidades da região já foi tema de edições anteriores de Radis, como a de número 200 (maio de 2019), que mostrou a resistência das comunidades quilombolas contra os impactos de grandes empreendimentos, como a construção de estradas e portos para o escoamento da produção de soja. Estaremos atentos nas próximas edições aos desdobramentos dos protestos no Tapajós. (J.X)
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