Na Amazônia brasileira, o trabalho premiado de um pesquisador contribui com o esforço da ciência em produzir dados que orientem ações e políticas públicas. Físico, educador e liderança indígena, Dzoodzo Baniwa vive em Santa Isabel do Aiari, na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas. A comunidade fica no município de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do estado, região de difícil acesso próxima à tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.

É lá que Dzoodzo realiza pesquisas que visam o monitoramento e a adaptação de sua comunidade às mudanças climáticas que já acontecem no território. Iniciativas que vão desde à melhoria do sistema de abastecimento de água à geração de energia elétrica para escolas, passando pelo aprimoramento na produção de alimentos. 

Seu trabalho recebeu em janeiro de 2026 o prêmio Fundação Bunge 2025, na categoria Vida e Obra, no tema “Saberes e práticas dos povos tradicionais e sua importância para a conservação dos recursos naturais”. Indicado ao prêmio pela Sociedade Brasileira de Progresso à Ciência (SBPC), sua trajetória é reconhecida pela defesa da educação escolar indígena e pela troca de saberes entre a ciência tradicional e os conhecimentos ancestrais. 

O trabalho do pesquisador, no entanto, não é recente. Licenciado em Física intercultural pelo Instituto Federal do Amazonas (Ifam) e mestre em Ensino de Ciências Ambientais do Programa de Mestrado Profissional em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais, associado à Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Dzoodzo investe, desde a sua formação inicial, no diálogo entre o conhecimento tradicional e a ciência, sempre de olho nas vulnerabilidades do território onde vive.

Em Santa Isabel, o pesquisador está à frente de projetos que capacitam jovens a lidar com os impactos das mudanças climáticas, tratando de temas relacionados à vida na comunidade — onde só se chega por via fluvial e que não dispõe de energia elétrica — como “a produção de alimentos orgânicos mais resistentes, que possam ser conservados de modo natural”, ou a geração de energia a partir de fontes fotovoltaicas (que convertem a luz do Sol em eletricidade).

Conhecimento tradicional

Além disso, há 10 anos, ele integra uma rede de pesquisadores indígenas, que tem o apoio da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e do Instituto Socioambiental (ISA) e produz dados sobre os impactos dos eventos climáticos na vida na comunidade, com atenção especial aos períodos de seca e cheias extremas. A partir das anotações que fez ao longo de uma década, Dzoodzo identifica vulnerabilidades do lugar onde vive.

Enquanto se desloca de barco de Santa Isabel a Manaus para acompanhar um exame do filho, ele esclarece à Radis que quase tudo que se consome em São Gabriel da Cachoeira chega à cidade por via fluvial ou aérea, incluindo-se combustíveis e alimentos. Isso significa que uma grande seca, que diminua a navegabilidade dos rios, pode comprometer o fornecimento de comida, deixando artigos de primeira necessidade mais caros. 

Dzoodzo lembra do impacto causado por uma grande seca, em 2023, quando as agendas institucionais da Educação e da Saúde foram afetadas, comprometendo o funcionamento de escolas e o atendimento médico nas comunidades. Isso sem falar na maior incidência de doenças, causada pelo aumento das temperaturas. “O que se tem observado é um maior número de casos de filariose e malária”, revela, criticando medidas emergenciais adotadas. “É preciso montar um plano de gestão territorial e ambiental permanente”, avalia.

“A floresta, os rios e os territórios têm suas divindades que governam e agenciam os espaços. Quando ultrapassamos os limites e usamos os recursos em excesso, nós desrespeitamos a sua capacidade de reprodução natural e geramos a crise”, reflete. Dzoodzo adverte que este problema não afeta somente os povos que vivem nas florestas e requer a atenção de todos. “Não vamos conseguir enfrentar a crise climática se a maior parte da população do mundo não se comprometer a mudar a sua relação com a natureza”.

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