Que as emergências climáticas já afetam a vida cotidiana em todo o mundo você já leu, ouviu comentários e até sentiu na pele. Veja como o calor excessivo afeta com maior força a vida dos mais vulneráveis.
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Brasil na mira do calor
A Organização Mundial de Meteorologia (WMO) informou que 2024 bateu 2023 e tornou-se o ano mais quente desde meados do século 19. A temperatura média da superfície do planeta foi 1,55°C acima da média; foi a primeira vez que o aquecimento global rompeu a barreira de 1,5°C durante um ano, de janeiro a dezembro, publicou a Agência Fapesp (17/2). A reportagem aponta que no Brasil a média das temperaturas no país ficou em 25,02°C, a maior desde 1961, quando esse tipo de dado passou a ser produzido.
Trabalhadores invisíveis
Em seu perfil no Instagram, a ONU Brasil (@onubrasil) criticou a “romantização do aquecimento global”, questionando o comportamento de parte da imprensa, que ilustra ondas de “calor mortal” com imagens de praia (19/2). “O calor extremo não é só desconforto, é uma crise de saúde pública e uma questão de justiça climática”, diz a postagem, questionando que os mais afetados não são os que aproveitam o mar, mas sim trabalhadores, que ficam expostos ao sol, que não têm acesso à agua e a protetor solar, e até crianças, que não conseguem estudar porque escolas não estão adaptadas ao calor.
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Denúncias trabalhistas aumentam
Em meio ao avanço das temperaturas, entre 2022 e 2024, as denúncias ao Ministério Público do Trabalho (MPT) que fazem referência a “calor” quase quintuplicaram — foram 154 em 2022, 621 em 2023 e 741 em 2024. A notícia, publicada pela BBC News Brasil (21/2), assinala que em 2025, somente até 18 de fevereiro, já foram registradas 194 denúncias em que o calor foi mencionado, superando em apenas 49 dias o total registrado no ano inteiro de 2022.
Categorias mais afetadas
Estudo publicado por pesquisadores da Unidade de Saúde Ocupacional do Departamento de Saúde Pública da Califórnia (EUA), no periódico científico Annual Reviews (2014) aponta que os setores profissionais mais ameaçados pelo calor extremo: agricultura, construção, militares, bombeiros, mineradores e trabalhadores fabris. No Brasil, dados apontam que os efeitos são mais nocivos entre trabalhadores da agricultura, construção civil, correios, telecomunicações e vigilância, informa a BBC News Brasil (21/2). O site NSC Total (24/2) mostra como ambulantes, pedreiros e motoboys de Florianópolis lidam com o calor enquanto trabalham mais de oito horas por dia expostos ao sol.
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É a periferia que alaga
“A galera da quebrada já está sofrendo as consequências da crise climática e do modelo econômico capitalista em que vivemos. Quando chove, não é a Avenida Paulista que alaga e deixa as pessoas desabrigadas, é a periferia”, alerta Amanda Costa, idealizadora e diretora do Instituto Perifa Sustentável (@perifasustentavel) e embaixadora da ONU, onde representa a juventude brasileira em fóruns globais sobre o clima. “A pauta climática ainda se concentra em uma bolha elitizada e branca que, em geral, não está realizando ações concretas para mitigar os danos”, disse Amanda à Revista Trip (20/2).
Esteriótipos escondem
“Rio 40 graus não pode mais ser romantizado”, advertem Isabelly Damasceno, do Instituto Papo Reto (@paporetoinstituto) e Isabelle Venancio, do PerifaConnection (@perifaconnection). Em artigo publicado na Folha (15/2), as ativistas chamam atenção para a realidade de quem convive com sensações térmicas acima dos 50°C por dias consecutivos sem ar condicionando e precisa enfrentar horas de transportes públicos lotados. Elas questionam como as imagens de céu azul e praias lotadas escondem o cotidiano de calor excessivo, casas desmoronando, saúde debilitada, falta de luz e falta de água. “A população negra e periférica precisa enfrentar todas essas crises simultaneamente, enquanto o restante da cidade segue sem sentir o peso dessa desigualdade”.
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Bem longe do litoral
Sede da COP 30 em 2025, o Pará foi o estado com o maior número de cidades castigadas pelo calor atípico em 2024. Levantamento publicado pelo G1 (5/2) aponta que, das 111 cidades brasileiras que tiveram mais de 150 dias de temperaturas máximas acima do registrado nos anos recentes, 46 estão no Pará. Além disso, a capital, Belém, é uma das cidades que apresentou maior período de estresse térmico, tendo enfrentado dias de ar irrespirável devido às queimadas, quando a temperatura chegou a ficar até 5°C mais alta.
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Sem clima para estudar
“Calor intenso põe em risco ensino em mais da metade das cidades do país”, aponta reportagem do Valor Econômico (24/2). “RS: Sindicato dos professores pede suspensão de aulas por conta do calor”, informa CNN Brasil (23/2). Também nas escolas, os mais vulneráveis são os mais afetados, como mostra a Agência Pública (15/2), na reportagem: “Calor na escola: 2,5 milhões de crianças estudam em locais 3°C mais quentes que as cidades”. O texto apresenta ainda que quanto mais quente é a escola, maior é a proporção de pretos e pardos que estudam nela.
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