A

Menu

A

O Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (Cara) é uma unidade ambulatorial da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás, responsável pela assistência e monitoramento clínico e epidemiológico permanente das vítimas que direta e indiretamente foram atingidas pelo acidente radiológico com o césio-137, ocorrido em Goiânia em 1987. 

A unidade reúne uma equipe multiprofissional formada por médicos de diferentes especialidades (pediatria, cardiologia, ginecologia, clínica geral, geriatria e endocrinologia), além de dentistas, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais que atendem em regime de porta aberta (e também por agendamento). Em 2026, esses profissionais acompanham 1.116 usuários cadastrados.

O centro foi criado logo após o acidente, quando uma decisão judicial determinou pagamento de pensão e assistência integral às vítimas, em um tempo em que ainda não existia o SUS, explica Glauciene Umbelina de Freitas Esteves, diretora geral do Cara. Desde o início firmou-se um convênio com o Serviço Social Autônomo de Assistência à Saúde dos Servidores Públicos e Militares do Estado de Goiás (Ipasgo Saúde), por meio do qual verbas estaduais custeiam os serviços da unidade. 

“Nós somos um SUS um pouco diferente”, esclarece Glauciene. Ela explica que a unidade também faz a intermediação de usuários para o Sistema Único de Saúde, quando necessário. Para se ter direito ao atendimento no Cara, no entanto, é preciso que o usuário comprove ter comprometimento de saúde devido ao contato direto ou indireto com o césio-137.

Glauciene Umbelina de Freitas Esteves. - Foto: Eduardo de Oliveira
“Goiânia se tornou referência em protocolos depois do acidente”, afirma Glauciane de Freitas, diretora do Cara – Foto: Eduardo de Oliveira

Hoje, os eventuais pedidos de reconhecimento de possíveis vítimas são avaliados em primeira instância por uma comissão estadual de médicos. Caso não se comprove o nexo de causalidade, o requerente pode recorrer a uma junta federal, formada por cinco médicos especialistas (oncologia, hematologia, dermatologia, oftalmologia, medicina nuclear e psiquiatria). Os peritos examinam se a exposição resultou em incapacidade funcional (total ou parcial) para o trabalho e o aprendizado. No caso de um pedido indeferido nestas duas instâncias, o solicitante pode recorrer na Justiça.

CONTAMINADO OU IRRADIADO?

Os radioacidentados são divididos em três grupos, de acordo com a dosimetria, ou seja, a quantidade de radiação que receberam. No grupo 1 estão os contaminados, pessoas que tiveram contato direto com o césio, como é o caso da menina Leide (que dá nome ao centro e que ingeriu o metal radioativo). A contaminação também pode se dar pelo contato com a pele, ensina o médico Neimar Lolli, coordenador de medicina nuclear e da junta médica oficial do Cara. 

No grupo 2 estão os irradiados, pessoas que tiveram contato indireto, por proximidade. Neimar explica que na medicina nuclear existe um tripé de radioproteção que orienta, na prática, o controle de exposição à radiação. Este se baseia em três princípios: proteção radiológica, blindagem e tempo de exposição. Quanto maior é este último (ou a proximidade da fonte de radiação), maior o risco.

No grupo 3 estão, em sua maioria, parentes próximos das vítimas diretas e servidores públicos que trabalharam na contenção dos danos do acidente: trabalhadores da saúde, bombeiros e policiais que, de algum modo, comprovaram danos à saúde por conta de sua atividade laboral. Muitos deles atuaram, por exemplo, no transporte ou na guarda de rejeitos radioativos. São considerados o grupo controle.

Glauciene salienta que a legislação determina que o estado de Goiás monitore até a terceira geração de descendentes de cada um dos grupos — ou seja, filhos, netos e bisnetos. Ela esclarece, porém, que os descendentes do grupo 3 têm que obrigatoriamente comprovar nexo de causalidade. Caso comprovada a relação, o solicitante passa a receber pensão e assistência no Cara. Caso contrário, só terá direito ao que é oferecido na unidade — e auxílio na intermediação para tratamentos disponíveis no SUS.

Neimar Lolli - Foto: Eduardo de Oliveira
Neimar Lolli, médico do Cara, explica que os radioacidentados são divididos em três grupos, de acordo com a dosimetria, ou seja, a quantidade de radiação que receberam – Foto: Eduardo de Oliveira

PREVENÇÃO E EDUCAÇÃO PERMANENTE

A diretora do Cara destaca que, além do eixo de assistência, a unidade também trabalha com pesquisa e educação permanente. “Estamos em um ambiente de visitação pública”, salienta, lembrando que o centro recebe a visita de estudantes em todos os níveis de escolaridade, além de manter um acervo de documentos e fotos que, embora pequeno, é muito buscado por pesquisadores. “Goiânia se tornou referência em protocolos e normativas, depois do acidente, que evoluíram e se tornaram bastante rígidos”, acentua.

Ela reconhece que é preciso fazer algo para preservar a memória do que aconteceu. “Precisamos fazer um memorial, fazer justiça. Essas pessoas pedem esse memorial faz tempo”, afirma, salientando que ações que deem visibilidade ao que aconteceu podem inclusive gerar dividendos para o estado. “Cuidamos de uma população única no mundo”, justifica.

Leia também:

Sem comentários
Comentários para: Assistência humanizada para radioacidentados

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anexar imagens - Apenas PNG, JPG, JPEG e GIF são suportados.

Leia também

Próximo

Radis Digital

Leia, curta, favorite e compartilhe as matérias de Radis de onde você estiver
Cadastre-se

Revista Impressa

Área de novos cadastros e acesso aos assinantes da Revista Radis Impressa
Assine grátis