Números divulgados pelo Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (Cara) mostram que entre os 1.116 usuários cadastrados na unidade, os agravos e doenças mais prevalentes não são tão diferentes dos que acometem a população em geral. Passadas quase quatro décadas do acidente em Goiânia, as ocorrências de saúde mais registradas são hipertensão arterial (730 pacientes), diabetes mellitus (693) e neoplasias malignas (180).
Integrante da equipe de profissionais que atua na unidade desde o fim dos anos 1980, o cardiologista Paulo José Malheiros Fialho explica à Radis que nos primeiros 20 anos após o acidente, esperava-se um grande número de casos de doenças malignas, já que a exposição aos raios gama modifica a estrutura celular. Embora tenham sido observadas alterações cromossômicas em alguns pacientes, ressalta, isso não se transformou obrigatoriamente em doenças.
O mesmo foi observado nos descendentes das vítimas, relata Paulo, citando o caso de uma paciente do grupo 1 que engravidou. Esperava-se uma malformação do feto, o que não aconteceu. “Os casos de malformação que aconteceram aqui são casos habituais da literatura, como acontece em todo mundo”. Ele explica que nas duas primeiras décadas, seguiu-se um protocolo médico, baseado no Japão, que mostrou, por meio de exames de sangue feitos ao longo do tempo, que não havia alterações significativas no número de casos de câncer e de doenças da tireoide. “Os cânceres não vieram e isso foi um grande alívio”, revela.

Mudou-se então o protocolo, diminuindo a quantidade de exames — medida que reduz os custos e minimiza o sofrimento de pacientes, que eram submetidos a muitos procedimentos. “Você imagina o médico pedir exame do seu cérebro, coração, pulmão, estômago, intestino, ossos, medula. Isso tudo é caríssimo, principalmente a parte oncológica”, justifica, acrescentando que alguns procedimentos são muito dolorosos, como a punção de medula. “Era muito desagradável para o paciente”.
PROTOCOLOS E ENVELHECIMENTO
Para o cardiologista, essa exposição exacerbada a procedimentos causava nos pacientes uma sensação constante de que estava contaminado (ou irradiado). “O raciocínio daquela época (e que ainda hoje persiste) era de que se alguém faz muitos exames é porque está em estado grave”, observa.
A mudança no protocolo coincidiu com o período em que os pacientes começaram a envelhecer. Apareceram, então, as doenças da idade, que afligem a maioria das pessoas: hipertensão, doença coronariana, gastrite, doenças do pulmão relacionadas ao tabagismo ou ao trabalho, diabetes, obesidade, osteoporose. Paulo também cita a ocorrência de demências, principalmente entre aqueles que passaram dos 80 anos. “Essas são as doenças prevalentes aqui, hoje”, revela. “São doenças corriqueiras”, define.
Paulo reconhece que além dos quatro pacientes que morreram, logo após o acidente, muitos outros que estão no grupo dos contaminados tiveram severas perdas, algo que não aconteceu entre os irradiados e nem entre os seus descendentes. Ele salienta que isso se comprova quando se observam as mortes registradas desde 1987.
Os registros do Cara apontam 218 óbitos de pacientes, entre 1987 e 2026. Neste quantitativo, aparecem as quatro vítimas diretas do acidente, que desenvolveram síndrome aguda da radiação (Maria Gabriela, esposa de Devair, dono do ferro velho que comprou a peça dos catadores; sua sobrinha Leide e mais dois funcionários que trabalharam diretamente na desmontagem da cápsula de césio).
Os números mostram que outros 12 pacientes do grupo 1 faleceram vítimas de diferentes tipos de câncer. Quando se avalia o quadro geral, entre as causas mais prevalentes de óbito estão as doenças do aparelho respiratório (114), as neoplasias malignas (47 casos), as doenças do aparelho circulatório (42) e as infecciosas e parasitárias (20 casos).
AGRAVOS E SAÚDE MENTAL
Paulo adverte, no entanto, que esta é uma população muito carente, pouco instruída e que foi muito agredida psicologicamente. Ele explica que há uma falsa sensação corrente, que abate as pessoas quando se deparam com o diagnóstico de uma doença grave. Elas logo pensam que vão morrer, diz ele, alertando que “grave” é apenas uma classificação médica. “Se você tratar e controlar, deixa de ser grave”, explica.
“O grande problema deles é o psicossocial”, define o especialista. “Imagina você perder a família, tudo que tem na vida, mesmo sendo humilde e ainda ter o medo de morrer de uma doença?” A fala de Paulo reflete um dado que chama a atenção dos profissionais que atuam na unidade: a alta prevalência de comprometimento da saúde mental dos usuários. Eles citam estudos que indicam que até 78% dos afetados pelo césio-137 já apresentaram transtornos mentais, como depressão, ansiedade e insônia.
O cardiologista recomenda cuidado ao lidar com estes sentimentos. Alguns pacientes demonstram tristeza, outros, revolta. Muitos deles enfrentaram situações de confinamento, outros vivenciaram situações de preconceito e de exclusão. Tudo isso fica marcado na memória, afirma. Felizmente, no Cara, é possível ter tempo para escutar essas pessoas, aponta o médico. “Talvez seja essa a grande diferença daqui em relação às outras unidades. Aqui a gente acolhe”.






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