A família desce do carro em frente ao terreno vazio que fica na altura do número 900, da rua Francisca Costa Cunha D. Tita, em Goiânia, e busca algum vestígio do acidente que marcou a cidade, há quase 40 anos. Não há marcas visíveis do que aconteceu no lote da antiga rua 26 A, do setor Aeroporto, a não ser algumas páginas desgastadas de uma história em quadrinhos que, coladas a uma das paredes, resistem às intempéries do tempo e do esquecimento.
“Minha filha assistiu à série na TV e estava curiosa para saber onde tudo aconteceu. Resolvi trazê-la aqui”, justifica-se o pai, surpreso ao encontrar, ao vivo, duas testemunhas da tragédia. “Eu sou uma vítima do acidente”, apresenta-se Donizeth Rodrigues de Oliveira [Leia mais sobre a história dele aqui], explicando ao grupo que ali funcionava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, onde a cápsula de césio-137 foi aberta, em 1987.
As fotos feitas pela família com Donizeth e as páginas amareladas da HQ onde Ricardo de Oliveira Silva, Glauco Gonçalves e Jorginho Rocha contam “A geo-história da tragédia radiológica em Goiânia” contrastam com o vazio do local e refletem o silêncio sobre o maior acidente radiológico já registrado fora de uma usina nuclear. Hoje, fala-se pouco sobre o assunto na cidade, que à época sofreu com os efeitos do estigma e a desinformação, contextos que emolduravam os dramas pessoais dos atingidos.
Hoje, são poucos os marcos que relembram o que aconteceu. Lugares emblemáticos como o ferro-velho de Devair (onde encontramos a família) e a casa onde o catador Roberto Santos abriu a cápsula, na rua 57, estão abandonados, não contam sequer com uma placa informativa; um deles chegou a ser usado como estacionamento. Na antiga sede da vigilância sanitária, onde a fonte de contaminação foi isolada — e hoje funciona o Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (Cara) —, não há uma única placa externa informando com o que se trabalha ali.
O assunto nunca foi totalmente esquecido, mas voltou a chamar a atenção do grande público com a repercussão de “Emergência radioativa”, exibida na Netflix. Algumas reportagens sobre o assunto atribuem à visibilidade da série o recente aumento no valor das pensões concedidas pelo governo de Goiás aos afetados pelo material radioativo, em março de 2026.

FERIDAS ABERTAS, COMUNICAÇÃO NECESSÁRIA
Apesar das críticas que faz à série, Marcelo Santos Neves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, reconhece o seu potencial de visibilidade, o que não diminui o seu desconforto diante da falta de comunicação entre a produção e as vítimas da tragédia. “Foi uma visibilidade monstruosa, mas pode aumentar em 40% tudo que você vir ali”, adverte.
Se por um lado a visibilidade da série amplificou a voz de quem viveu o acidente, por outro reabriu feridas que se consideravam fechadas. Marcelo reconhece não ter conseguido assistir. “Em poucos minutos eu comecei a ficar sem respiração e desliguei a televisão. Que trem triste é esse? Reviver tudo de novo?”. Ele relembra que dona Lourdes também já não dá mais entrevistas, por orientação de um profissional de saúde mental.
“Nós vivemos um campo de guerra, mas a gente não sabia de onde vinha a ameaça”, relembra. Assim como as vítimas não conseguiam “ver” o que os ameaçava, hoje também não conseguem tornar visível o que passam e o que sentem. Se algumas das sequelas físicas não são visíveis, mais invisíveis são aquelas que repercutem na saúde mental.
“Uma das maneiras de você matar uma pessoa é destruir o emocional dela”, adverte Paulo José Malheiros Fialho, cardiologista que acompanha vítimas do césio-137 desde o início de sua carreira, no fim dos anos 1980. Há décadas na equipe multiprofissional do Cara, ele argumenta que as pessoas conservam no inconsciente o trauma que viveram. Para o médico, é preciso entender isso quando se trata de vítimas de tragédias como a que aconteceu em Goiânia. “Eles não esquecem”, diz à Radis.
À tristeza se somam sentimentos de medo, de revolta e de injustiça. São pessoas que viveram momentos de incerteza, que foram confinadas sem entender exatamente o que acontecia; muitas foram obrigadas a sair de suas casas, perderam empregos e bens, viveram situações de estigma e preconceito e constantemente foram alertadas de que poderiam morrer a qualquer momento. Para lidar com isso, diz o cardiologista, é preciso sobretudo humanizar o atendimento, respeitando a história de cada um dos pacientes, tendo paciência para escutá-los. “Escutar, mais do que falar. Acolher”, salienta.
VISIBILIDADE E DIREITO À MEMÓRIA
Marcelo também reclama da falta da preservação da memória sobre o que aconteceu em Goiânia, em 1987. Na rua 57, em frente ao lote onde ficava a casa em que morou Roberto Santos Alves (um dos catadores que desmontou a máquina de raio-x, hoje apenas um terreno murado), ele mostra os vasos de planta que foram colocados na calçada para impedir que o espaço continuasse a ser usado como estacionamento.
Ele e Donizeth posam para uma foto em frente a um grafite onde se lê “Que Deus abençoe todas as vítimas do césio”. É a única referência ao acidente que se vê ali. Como sabe, literalmente, onde pisa, o presidente da associação mostra marcas brancas no chão, que segundo ele indicam medições regulares feitas pela CNEN no local.
“Pouca gente sabe o que aconteceu aqui”, diz. Ele compartilha o desejo de que algum marco físico fosse colocado no local, mas reconhece que talvez isso não aconteça tão cedo: “Se um dia eu conseguir uma casa de apoio para esse povo eu já fico satisfeito. Porque um memorial ou um museu seria muito difícil”, aponta. Marcelo lamenta ainda que nenhum ídolo musical da “Terra do sertanejo” se mobilize para ajudá-los. “Se a gente tivesse ajuda desse pessoal, teríamos isso muito fácil”, observa. “No futuro eu gostaria de ver dignidade”, desabafa.

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