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Brasília é o único local no mundo que alcançou autossuficiência em leite humano ordenhado (LHO). Em todas as unidades hospitalares do DF, públicas e privadas, o volume de leite humano doado é suficiente para alimentar recém-nascidos prematuros e nascidos a termo com baixo peso. 

Coordenadora do Centro-Oeste da rBLH e vice-presidente da Comissão Nacional de Bancos de Leite, a pediatra Miriam Santos salientou que o Distrito Federal tem uma tradição na amamentação desde sua fundação, há 63 anos. “Aqui foi criado o primeiro alojamento conjunto no país, no Hospital de Base”, disse à Radis.

O que se vê no território é uma cultura que valoriza a amamentação e se concretiza em uma rede sólida de captação de leite. Para Miriam, o apoio e as parcerias firmadas para o aleitamento materno facilitaram o crescimento e a organização da rede para a doação. Todas as regiões administrativas de Brasília são atendidas pelo serviço.

A captação é feita em campanhas e de forma direta com mulheres que buscam atendimento para superar dificuldades e problemas para amamentar. “A maior parte das doadoras foram mulheres que muitas vezes achavam que não tinham leite. Conseguimos apoiá-las e reverter essas histórias de que não tinham leite suficiente para seus filhos”, disse Miriam.

Ela reforçou que só há doação se tiver amamentação e recomenda que é preciso “estar muito perto do território”. “Se está caindo a doação, tem que correr atrás porque a orientação da amamentação precisa ser melhorada”, apontou. 

Em setembro de 2023, a coleta foi menor do que no mês anterior. Na manhã do dia 6 de outubro, quando Radis conheceu a política pública de leite humano do DF, Miriam contou que, logo cedo, tinha enviado 3 mil mensagens para mobilizar a rede de relacionamento e as equipes dos BLHs locais em busca de doadoras.

Trabalho em rede 

Na capital do Brasil, há 14 bancos de leite e sete postos de coleta. Em 2022, foram 6,5 mil doadoras; quase 17 mil litros de leite coletados e 13,5 mil crianças de unidades públicas e particulares foram alimentadas. A média mensal coletada é de aproximadamente 1,8 litros. O índice local de mulheres amamentando é bem superior ao alcançado em outros lugares no país e no mundo. No primeiro semestre de 2023, a coleta foi 22% maior do que no mesmo período, em 2022.

Para chegar à autossuficiência, Brasília lançou mão de estratégias de divulgação e comunicação e a ocupação de espaços sociais, além de manter uma relação próxima com outros setores, como órgãos públicos e privados. A capital tem um fluxo permanente de comunicação entre a rBLH e as mães e integra um conjunto de práticas de comunicação e informação de forma estratégica.

Visitas das equipes do BLH ao Alojamento Conjunto, UCIN [para cuidado intermediário neonatal] e UTI Neonatal; atendimento especializado às doadoras e seus filhos; participação em eventos científicos e comemorativos; contato telefônico com as mães e doadoras; visita domiciliar às doadoras; programas e grupos de apoio às mães e às doadoras; e materiais informativos, foram algumas das práticas mapeadas pela jornalista Roberta Raupp, em sua tese de doutorado sobre o trabalho da rBLH do Distrito Federal.

As práticas de comunicação foram essenciais para o incentivo à amamentação e a captação de doadoras de leite humano. Erika Bragança Santos, da Assessoria de Comunicação da Secretaria Estadual de Saúde do DF, afirma que a criação do site Amamenta Brasília, em 2016, e do aplicativo, em 2017, fizeram diferença para captar novas doadoras, impactando no aumento dos estoques de leite humano. Segundo a jornalista, o app melhorou especialmente a comunicação entre a doadora e os bombeiros militares.

“O papel da comunicação é traduzir e mostrar a importância de como essa doação reflete na saúde pública”, disse. Ela lembrou também que a ação da rBLH permite a melhor aplicação de recursos públicos. “Em relação à economicidade, o SUS deixa de fazer contratos caríssimos porque a fórmula é muito cara. É o dinheiro do cidadão que é economizado”, comentou à Radis. Erika vê que a vantagem financeira se estende às famílias que não precisam comprar produtos industrializados e reforçam a saúde do bebê com um alimento mais nutritivo e de qualidade. 

A ação da rede em Brasília tem a articulação dos três níveis de poder e foi consolidada com o trabalho em parceria com o Corpo de Bombeiros Militar, a Coordenação Distrital da Secretaria de Saúde do DF, o Rotary Club e as Administrações Regionais, entre outros. O  primeiro BLH de Brasília, que fica no Hospital Regional de Tabatinga (HRT), foi instalado pelo Rotary, em 1978.

Os números expressivos são fruto da solidariedade das mães lactantes e refletem a facilidade que as doadoras encontram na hora de entregar o alimento. Desde 1989, o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal destaca dois profissionais para fazer a rota regionalizada, o que deu mais eficiência à ação. Todas as regiões administrativas são atendidas pelo serviço. 

São 22 militares que fazem a coleta domiciliar e o transporte do leite humano, entre eles, está o primeiro-sargento Paulo Sérgio da Silva, que faz a rota juntamente com uma bombeira. Toda semana, eles pegam potes de leite ordenhado e entregam outros esterilizados. “Não é para qualquer um que você abre a porta da sua casa. Elas veem a gente como heróis que vão pegar algo muito importante, que é o leite”, diz o também técnico de enfermagem, que participa do programa há 10 anos, e conversou com Radis no BLH do HRT.

— Foto: Eduardo de Oliveira.

A servidora pública Sanmya Meneses atesta que as visitas semanais dos bombeiros geram vínculos. “A bombeira virou minha amiga. Estava toda semana lá em casa”, disse. Mãe de Laura, de 11 meses, ela amamentou a filha e se sente feliz pelo excesso da produção de leite. Sua média de doação era de 600 ml por semana e houve uma semana em que ordenhou 1,2 litros. 

Sanmya é jornalista e, na Secretaria Estadual de Saúde, produz conteúdos sobre a rBLH. Ao se tornar doadora, ela conheceu mais a fundo o funcionamento da rede. “Foi uma experiência engrandecedora. É tudo muito organizado”, relatou.

O leite coletado por Sanmya seguiu para o Banco de Leite Humano do Hospital Materno Infantil (HMib), que atende bebês em situação de risco, o mais próximo de sua casa. A solicitação e o encaminhamento para a rede é feita pelo BLH e, se a mãe estiver apta, receberá orientações sobre como fazer a ordenha, qual a quantidade necessária para fazer a pasteurização e os potinhos para coleta. “Eu tinha até 15 dias para juntar o leite de diferentes mamadas”, contou.

Sua avaliação da política é bem positiva. “Eu achei muito legal, é bem engrandecedor saber que você pode ajudar uma criancinha. E eles tomam tão pouquinho…”. Segundo informações do Ministério da Saúde, cerca de 200 mililitros de leite podem alimentar até 10 bebês prematuros ou de baixo peso. Com estoque de leite em casa, ela continua nutrindo a filha Laura desde que retornou ao trabalho, ao final da licença-maternidade. 

Postos de coleta

Os postos de coleta (PC) da rede de bancos de leite humano são pontos de apoio que realizam atendimento direto às doadoras e promovem a amamentação. Atuam também com educação e saúde. O PC de São Sebastião, no DF, tem parceria com o Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) e lá são realizados encontros com gestantes, contou à Radis pediatra Nathalie Zambrano. 

Segundo ela, o esforço é para que as mães continuem amamentando de forma exclusiva até os seis meses. Para isso, são promovidas reuniões quinzenais online e também uma reunião presencial mensal com a equipe da Casa de Parto São Sebastião, onde fica o PCL. “Eu falo sobre amamentação, introdução alimentar e doação de leite humano. É uma fase difícil: ter um bebê pequeno e elas estão dispostas a doar leite”, disse.

— Foto: Eduardo de Oliveira.

Desde 1993, a Lei 454 determina que todas as maternidades do DF com maternidade de risco devem ter condições de oferecer leite humano para os seus bebês internados e convoca a sociedade civil para colaborar com o SUS na implantação da política de aleitamento materno do Distrito Federal. “O DF é o único no país a ter uma legislação da política”, observou a pediatra Miriam.

— Foto: Eduardo de Oliveira.

Mariane Curado, nutricionista, assumiu, em outubro de 2023, o lugar de Miriam na coordenação da rBLH em Brasília. Com 10 anos de experiência prática em BHL, ela salientou que a meta definida pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas é de 50%, até 2025, e de 70% de aleitamento materno exclusivo nos seis primeiros meses até 2030. No país, o índice está perto de 46%, segundo o Ministério da Saúde. “Brasília chega a 51,1%”, afirmou Mariane.

Miriam observou que é preciso melhorar os índices de aleitamento materno no DF e recomendou que seja feita uma projeção de 50 anos. “Mais bebês amamentados hoje significa pensar em um DF com menos hipertensão, diabetes, colesterol alto, obesidade e outras doenças. É oferecer o melhor alimento para essas crianças internadas, é pensar nos [futuros] idosos”, observou.

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